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Pedro Nuno Santos: “A Maria Begonha não mentiu no currículo que entregou à CML”

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A intervenção do Secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares era a mais esperada no Congresso da Juventude Socialista. Pedro Nuno Santos partiu em defesa de Maria Begonha.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Era a intervenção mais aguardada do dia. “Aí é que o congresso vai começar”, comentou com o Observador um militante da Juventude Socialista à entrada do complexo municipal de Almada, onde decorre este sábado o XXI Congresso da JS. O discurso de Pedro Nuno Santos, sabia-se, podia ser o momento alto do congresso — tal como o foi na reunião magna do PS em maio deste ano. O silêncio que reinou entre os congressistas ao longo da meia hora durante a qual o Secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares falou foi sintomático.

Habituado a conquistar plateias com os seus discursos, e perante uma audiência que lhe era tremendamente favorável, Pedro Nuno Santos iniciou a sua intervenção pelo “elefante na sala”, como o próprio designou. Coube ao ex-secretário-geral da JS fazer a defesa da sucessora de Ivan Gonçalves.

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“A Maria Begonha foi acusada de ter forjado o seu currículo. É uma acusação grave, perante a qual não podemos hesitar em nenhum momento. Não tem lugar na política quem engana. Só que não foi isso que a Maria fez”, afirmou. “Eu sei porque vi a nota biográfica que a Maria Begonha enviou à direção da sua campanha. Eu sei, como muitos de vocês sabem, que a Maria nunca mentiu sobre o seu currículo, nem quando foi contratada para assessora da Câmara Municipal de Lisboa”, acrescentou. Mas isto foi apenas o início de uma defesa de honra que não deixou nenhuma das suspeitas que recaem sobre a candidata a líder da JS por responder.

“Não era preciso ser inteligente para perceber que se há organização em que o ano em que nascemos é central é esta. Não é preciso ser muito inteligente para perceber o que aconteceu”, afiançou. Ao contrário do que fez Maria Begonha quando foi confrontada com os erros na nota biográfica, disponível no site da sua candidatura, Pedro Nuno Santos nunca utilizou a palavra que entretanto já se ia desenhando na cabeça de todos os que o ouviam: gralha. Segundo a candidata, terá sido esse o motivo para que as informações relativas à sua idade estivessem erradas. “Muitos de nós percebemos, mas outros não quiseram perceber”, sublinhou.

Pedro Nuno Santos lembrou algumas vezes que já não faz parte da JS. Para legitimar algumas posições e para esclarecer outras, o governante sentiu necessidade de frisar que já se distanciou desta estrutura. No entanto, o conhecimento profundo que detém sobre todas as polémicas que envolvem a candidata demonstra que foi um assunto que, apesar da distância, acompanhou de muito perto. “A avença que a Maria Begonha recebe não a distingue de nenhum outro assessor das dezenas de assessores da Câmara Municipal de Lisboa (CML). Há uma diferença grande em relação aos assessores do governo: esses têm um contrato”, disse. “A Maria Begonha não mentiu no currículo que entregou à CML”, afirmou com tal ênfase que arrancou fortes aplausos dos congressistas.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

“A Maria Begonha disse o que realmente fez. E era exatamente isso que tinha de dizer: o que realmente fez na Junta de Freguesia de Benfica. Foi trabalho de assessoria política, independentemente do vínculo que lá tinha. Tinha a obrigação de dizer o que é que fez”, explicou ainda. Nova onda de aplausos longos e audíveis, galvanizando pela primeira vez o congresso e correspondendo às expectativas criadas antes da sua intervenção.

Pedro Nuno Santos, o professor vermelho

O ex-líder da JS teve sempre a atenção de todos os presentes na sala e aproveitou o momento para fazer passar a sua ideologia, tida como mais progressista e conotada com ala esquerda do PS, numa autêntica aula de ciência política. Defendeu a ideia de comunidade – “o problema de cada um é um problema de todos nós” – e combateu a ideia de competitividade – “existe hoje uma ideologia startupiana“. E sugeriu um caminho: “temos de falar para os novos operários do século XXI”, salientou, pedindo emprestada uma palavra à gíria tipicamente associada ao comunismo.

Alertou para os perigos de ignorar “o povo prejudicado pela globalização”. Dando como exemplo o casos dos partidos socialistas em França ou na Grécia, Pedro Nuno Santos pediu à JS que falasse para essa parte do eleitorado, para que não se esquecesse da sua existência sob pena de perder a oportunidade de compreender o país que vota. “Temos de noção de que somos jovens privilegiados. Essa parte do povo tem uma vida que nós não temos. Têm de saber representar os jovens que não estão aqui”, aconselhou.

“Temos de construir incentivos à cooperação e não à competitividade”, referiu, defendendo a ideia de pensar em comunidade e de promover uma atuação coletiva e que “dê as respostas de que cada um de nós precisa”. E aproveitou para fazer campanha, garantido que foi este mote que esteve por trás de várias medidas de Governo – como o aumento do salário mínimo nacional ou das pensões e reformas.

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No fim, deixou um conselho aos militantes da JS: “Não queiram ser políticos, não tem piada nenhuma”. O motivo para entrar na política, no entender do governante, deve ser apenas o de “deixar o planeta melhor do que o encontrámos”. De pé, e gritando as siglas da Juventude Socialista, os congressistas despediram-se de Pedro Nuno Santos, que não só não ignorou o elefante na sala como escreveu o seu epitáfio.

Maria Begonha optou por ignorar o assunto

Talvez por esse motivo, quando Maria Begonha subiu ao palco para apresentar a moção global de estratégia, logo no momento seguinte, a candidata a líder da JS não fez qualquer referência aos vários casos que a envolvem. Agradeceu a Pedro Nuno Santos e fez suas as palavras dele. Seguiram-se quarenta minutos de um discurso virado para dentro, falando da sua estratégia e do caminho pelo qual quer guiar a JS.

A única candidata a líder da jota optou por ignorar os casos mas não deixou de lhes responder de forma indireta. “À JS compete resistir ao fenómeno das fake news“, reiterou. Foi dito como sendo apenas mais um dos “desafios que a Juventude Socialista vai enfrentar”, mas foi clara a tónica de resposta de que este desígnio se revestiu. Não entusiasmou. Sobretudo depois do discurso de Pedro Nuno Santos. Mas a sala de pé a aplaudir no fim do seu discurso demonstrou que o XXI Congresso da JS está ao lado da sua futura líder, como os delegados já tinham demonstrado ao chumbar o requerimento para impugnar esta reunião.

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Texto de José Pedro Mozos, fotografia de João Porfírio.
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