Quem já montou uma árvore de Natal sabe que de um ano para o outro as luzes podem deixar de funcionar e, às vezes, é só porque uma das pequenas lâmpadas no circuito está estragada. Eliminar essa pequena lâmpada pode, muitas vezes, ser o suficiente para que as luzes voltem a iluminar a árvore. E se, no nosso cérebro, eliminar as células que deixaram de funcionar fosse o suficiente para que ele voltasse a trabalhar convenientemente? Essa é a proposta da equipa de Eduardo Moreno, investigador no Centro Champalimaud, não só para um cérebro normal, mas também no caso da doença de Alzheimer.

Afinal, perder alguns neurónios de vez em quando pode não ser assim tão mau. Desde que os neurónios não sejam mortos ao acaso, mas por um processo criterioso que exclua os que estão em piores condições, de forma a beneficiar o cérebro como um todo. E é isto que Eduardo Moreno defende que acontece. “Como o cérebro funciona como um circuito de neurónios, eliminar um neurónio que não está a funcionar corretamente, porque está danificado, é melhor para o circuito.”

Já em 2015, este grupo tinha verificado que o organismo conseguia provocar a morte de células danificadas e que isso poderia ser uma estratégia de combater o envelhecimento dos órgãos, incluindo do cérebro. Partindo dessa ideia de competição celular e assumindo que a doença de Alzheimer (assim como a doença de Parkinson e Huntington) pode ser considerada como um envelhecimento acelerado do cérebro, os investigadores decidiram avaliar como são eliminadas as células danificadas pela doença num modelo animal. Os resultados foram publicados esta quarta-feira na revista científica Cell Reports.

Primeiro era preciso encontrar um modelo animal que conseguisse reproduzir os sintomas característicos da doença de Alzheimer, como perda de memória de longo prazo, envelhecimento acelerado do cérebro e problemas de coordenação motora, que pioravam com a idade. A equipa de Christa Rhiner, investigadora noutro grupo do Centro Champalimaud, conseguiu criar este modelo em moscas-da-fruta transgénicas (Drosophila melanogaster). A melhoria do modelo foi destacada por Isabel Cardoso, que também trabalha com Alzheimer, mas que não esteve envolvida neste estudo. Para a investigadora Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (I3S), usar modelos cada vez mais complexos e em experiências que durem mais tempo vai permitir trazer novas respostas sobre as causas e evolução da doença.

Depois era preciso perceber se as células que já não funcionavam corretamente estavam a ser eliminadas pelas vizinhas mais aptas, pelo tal processo de competição celular. Quando os investigadores experimentaram impedir a morte dos neurónios, as moscas desenvolveram problemas de memória e de coordenação motora ainda piores, morreram mais cedo e o seu cérebro deteriorou-se mais depressa. Mas quando se estimulou o processo de morte celular das células danificadas por competição com as células mais aptas, as moscas recuperaram da doença.

“Quando começámos, o consenso geral era que a morte neuronal era sempre prejudicial. Por isso, ficámos surpreendidos ao descobrir que a morte neuronal pode ser na verdade vantajosa nas fases iniciais da doença”, disse, em comunicado de imprensa, Dina Coelho, investigadora no Centro Champalimaud e primeira autora do estudo.

E o que é que estes resultados nos dizem sobre o tratamento de Alzheimer em humanos? Eduardo Moreno confessa ao Observador estar muito curioso sobre o que aconteceria se os doentes usassem fármacos que acelerassem a morte celular das células danificadas do cérebro — fármacos esses que já estão a ser testados quanto à segurança (mas que ainda não estão em teste quanto à eficácia). “Mas não sou médico, portanto é só uma ideia que os médicos podem ter em consideração”, diz. “O meu interesse é levar a fronteira do conhecimento mais longe.”

Mas não é só: a equipa de Moreno também quer testar, nos modelos animais, fármacos baseados em anticorpos para estimular esta competição celular. “Mas, mais uma vez, não sou médico e é muito cedo para dizer se a competição celular pode ser usada para, um dia, tratar neurodegeneração ou Alzheimer ou, mesmo, envelhecimento normal”, diz Eduardo Moreno. Por agora, o investigador quer perceber porque é que estes neurónios que precisam ser eliminados prejudicam tanto as funções do cérebro. “Será que funcionam de menos? Ou demais? Enviam informação errada? Funcionam no momento errado ou no sítio errado?”, questiona-se. “Devem estar a fazer algo muito mal, porque é melhor eliminá-los [do que mantê-los].”

A ideia do suicídio celular como mecanismo de proteção não é nova para Isabel Cardoso, mas encara o seu uso como estratégia terapêutica na doença de Alzheimer como inovadora e com potencial para ser usada em fases precoces da doença. O problema, lembra a investigadora ao Observador, é perceber quando se pode começar a terapia, visto que a doença pode começar muitos anos antes de ser diagnosticada. Para esta fase silenciosa não existe nenhum exame que permita confirmar se a pessoa tem a doença ou não. “É uma estratégia terapêutica que precisa de grande precisão e controle”, diz. “Caso seja bem sucedida, terá um grande impacto ao ser aplicada nas fases iniciais da doença.”

O que a investigadora deixa claro é que existem muitos mecanismos que interferem na saúde do cérebro e que contribuem para o desenvolvimento do Alzheimer — como aquele com que trabalha — e nem todos estão perfeitamente explicados. “Outros mecanismos que são aparentemente patológicos, como por exemplo a formação das placas senis no cérebro dos pacientes de Alzheimer, têm sido descritos como tentativa de as células desviarem a toxicidade associada aos agregados mais pequenos do péptido abeta”, diz. “A verdade é que, à medida que a doença avança, as células e os órgãos deixam de ser capazes de lidar com tantas placas senis que impedem a comunicação e metabolismo dos neurónios e que assim, acabam também por ser nocivas, levando à morte das células.” Falta saber se as células mais aptas estão a eliminar corretamente as células danificadas.