Saiu do Conselho Nacional que o relegitimou a garantir que o tempo dos acordos com o PS tinha acabado, mas esta segunda-feira à noite, em entrevista ao podcast do comentador político e ex-fundador do Bloco de Esquerda Daniel Oliveira, Rui Rio admitiu que esse tempo pode voltar em 2020, depois das eleições.

Em entrevista transmitida ao vivo no Teatro São Luiz, em Lisboa, o presidente do PSD voltou a deixar a porta aberta para esse cenário: não descarta viabilizar um governo minoritário do PS, fazendo, contudo, essa decisão depender do que o Conselho Nacional do PSD ditar na altura. Tudo depende do resultado das eleições e do que o interesse nacional ditar, diz.

“Imagine que o PS quereria que o PSD o apoiasse a troco disto ou daquilo. A troco disto ou daquilo não, mas a troco de alguma coisa importante para o país, aí teríamos de medir e ouvir o que o partido diria (…). No limite não sou eu que decido, há um Conselho Nacional que vai decidir, em função das circunstâncias, aquilo que é melhor para o país. Mas nós vamos para eleições para ganhar”, disse o presidente do PSD na entrevista ao podcast “Perguntar Não Ofende”.

“Colaborante”, é a palavra escolhida por Rui Rio para admitir uma postura de não obstaculização a um eventual governo minoritário do PS. E explica: se o entendimento ao centro for o “melhor para o país”, Rio diz ‘presente’, da mesma maneira que espera que António Costa faça o mesmo em situação inversa. “Da mesma forma espero que o PS seja colaborante se eu ganhar sem maioria absoluta”, disse, sublinhando desde logo que o PSD “vai, naturalmente, às eleições para ganhar”.

“É função do BE e do PCP procurar tirar o CDS e o PSD da esfera do poder e, penso eu, deve ser tarefa do PSD e do CDS tirar o BE e o PCP da esfera do poder. A forma como isso se pode fazer, os resultados eleitorais ditarão”, acrescentou ainda, dando força à porta deixada aberta para eventuais entendimentos ao centro pós-eleitorais.

Ou seja, apesar de ter dito, depois de ter ganho o embate frente a Luís Montenegro, que não iria voltar a fazer acordos com o PS em pleno ano eleitoral, Rui Rio deixa agora claro que se trata apenas de um interregno motivado pelo calendário eleitoral. “Com eleições europeias em 26 de maio, não vou fazer acordo nenhum com os partidos em 25 de maio. O clima em 2019 não é para isso, mas em 2018 podia ser e espero que em 2020 também”, disse. Antes das eleições, sim; depois da eleições, também.

Questionado sobre se deixará a liderança do PSD se perder as legislativas — vai ser cabeça de lista pelo círculo do Porto, anunciou –, Rui Rio admitiu que sim, se a derrota for estrondosa. “Há vitórias e vitórias, há derrotas e derrotas, as coisas não são todas iguais”, disse, admitindo que não teria condições para continuar se existisse “uma diferença brutal” entre PSD e PS nas urnas. Mas isso, disse, é uma “verdade de La Palice”, que vale para todos os líderes de todos os partidos.

Conhecido crítico da governação do seu antecessor Pedro Passos Coelho, Rui Rio admitiu que Passos “não tinha alternativa” nas medidas que tomou por ter de aplicar o programa da ‘troika’ negociado pelo PS — embora sublinhe que o ex-presidente do PSD se situava ideologicamente mais à direita do que ele próprio. “No período em que Passos Coelho foi primeiro-ministro, em tudo aquilo que mais o criticaram, ele não tinha alternativa. Se lá tivesse estado, não podia fazer muito diferente”, afirmou Rio, admitindo que poderia ter tido outra atuação em “coisas laterais”, como a política para as autarquias ou a reforma do Estado.

“Eu estarei um pouco mais à esquerda? Talvez, mas cabemos os dois no PSD”, acrescentou.

Sobre o tema da regionalização, que está a ser estudado de forma discreta por uma comissão de sábios indicados pelos partidos (à exceção do PCP), Rui Rio esclarece que a ideia é estudar o dossiê mas que não dispensa de referendo, uma vez que os portugueses já se pronunciaram sobre esta reforma e disseram que “não”. O próprio Rio votou contra o modelo de regionalização proposto na consulta popular de 1998 e assegurou que voltaria a votar ‘não’ se o modelo fosse o mesmo. “Serei favorável desde que o enquadramento legal me leve a conseguir que se reduza a despesa pública, desde que se consiga fazer mais com menos”, disse, garantindo que se for para avançar tem de ser “por referendo”.