A abertura dos momentos musicais dos Grammys ficou este domingo a cargo da cantora cubana Camila Cabello, que editou há cerca de um ano o seu primeiro álbum a solo. No palco da arena Staples Center, em Los Angeles, a antiga integrante do grupo feminino Fifth Harmony cantou o tema “Havana” num cenário que parecia o de um musical latino, com convidados como Ricky Martin, J. Balvin e Young Thug.

O luso-canadiano Shawn Mendes foi o segundo a atuar e cantou “In My Blood”, tema que esteve entre os nomeados deste ano na categoria “Melhor Canção”. Primeiro sozinho ao piano, depois no palco acompanhado por uma banda e pela cantora Miley Cyrus, que o ajudou a terminar a canção em dueto, Shawn Mendes esteve sólido naquele seu registo baladeiro-rouba-corações.

Seguiu-se um belo momento da cantora de country-pop Kacey Musgraves, a grande vencedora da noite pela conquista da estatueta para “Melhor Álbum do Ano”. A cantora de 30 anos interpretou, no centro do palco da arena Staples Center, a delicada balada “Rainbows”, acompanhada apenas por um pianista. Alicia Keys comentou a atuação dizendo “foi um momento lindo” e não pecou muito por exagero. Se o country moderno peca muitas vezes por um excesso de produção que o torna menos humano (e a emoção e despojo com que se cantam as desventuras foi sempre o que esteve na génese do bom country, o de Townes Van Zandt e companhia), Kacey Musgraves dá-lhe um toque pop sem o tornar indistinto ou fingido e pouco íntimo.

Apresentada pela apresentadora Alicia Keys como uma “irmã na música” e “uma artista que está a ter um grande momento pelo seu fantástico e desafiante [disco] ‘Dirty Computer’”, Janelle Monáe surgiu no palco com uma guitarra nos braços e acompanhada por perto de duas dezenas de bailarinas, vestidas à personagens de ficção científica. Vestida de cabedal, a cantora, compositora e instrumentista que motivou comparações com Prince pelo ritmo funky dos temas do seu último álbum honrou as comparações. Dançou, cantou e fez a festa com o tema “Make Me Feel”, espécie de funk feminista adaptado à era digital e misturado com hip-hop.

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A atuação de Post Malone era uma das mais aguardadas, em parte porque atuaria pela primeira vez ao vivo com a banda Red Hot Chili Peppers. Fã confesso da música rock, o jovem rapper-cantor apropriou-se das guitarras e da melodia pop para fazer um hip-hop despreocupado, hedonista, juvenil e impor-se como figura proeminente da indústria musical norte-americana. Foi um dos mais ouvidos do ano de 2018 e este domingo, em Los Angeles, começou por cantar sozinho com uma guitarra acústica a balada “Stay”, mostrando que o sucesso da sua música deve-se em grande parte à forma emotiva como canta, com aquela voz meio rugosa meio melosa de quem bebeu uísques a mais para os seus 23 anos.

Depois desse primeiro momento à guitarra, Post Malone pegou no microfone e entrou em modo rapper, para cantar o tema “Rockstar”, naturalmente bastante censurado (algumas palavras menos apropriadas para horário nobre ficaram por ouvir). Seguiu-se por fim a — ansiada por uns, incompreensível para outros — atuação ao lado dos Red Hot Chili Peppers, com Post Malone de guitarra elétrica nos braços e ao microfone, a cantar ao lado do vocalista da banda Anthony Kiedis. Curiosamente, o rapper-cantor que nasceu no estado do Texas já tinha atuado com uma banda rock nos MTV Video Music Awards, em agosto do ano passado, à época com os Aerosmith.

A homenagem à “magnífica” veterana Dolly Parton (terá mesmo 73 anos?), como Alicia Keys lhe chamou no início da cerimónia dos Grammys, era um dos momentos mais aguardados da noite. Em palco para o medley de homenagem estiveram Maren Morris, Little Big Town, Katy Perry, Miley Cyrus e Kacey Musgraves, além da própria Dolly Parton, que protagonizou um belo dueto cantando “Jolene” com Miley Cyrus (que já havia feito a sua própria versão do tema). A dupla tornou-se um trio com a entrada de Maren Morris para um belo momento musical que em alguns momentos fez-se a capella.

Foi já em modo big band que Dolly Parton puxou pela voz e mostrou que continua uma performer incrível, com um alcance vocal impressionante e um carisma contagiante com o microfone na mão.

A popularidade que a soul moderna e o R&B eletrónico têm atualmente ajudam a perceber como Gabriella Wilson, uma rapariga de 21 anos da Califórnia com apenas um álbum completo editado — depois de singles e EPs com fartura –, chegou ao palco dos Grammys. Gabriella Wilson ganhou notoriedade com o nome artístico H.E.R. sobretudo através da internet, gravou um álbum que se tornou disco de ouro e provou o porquê do falatório na noite passada.

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Guitarra nos braços, óculos de sol na cara, cabelo escuro encaracolado, pose de badass, voz afinada, música tão sensual quanto sonhadora: nem toda a gente faz isto com 20 ou 21 anos e H.E.R. está ali no campeonato de SZA e Jorja Smith. Tem identidade própria e cantou “Hard Place” com uma belíssima secção rítmica atrás e com coros gospel inatacáveis. Se havia desconfiança de que o palco dos Grammys, onde nunca tinha atuado, poderia ser grande de mais ou pop de mais para ela, H.E.R. tratou de a dissipar. É artista de corpo inteiro e Alicia Keys bem avisou quando a apresentou: “Está completamente com o controlo da sua música e do processo criativo. Mostrem algum amor para a minha miúda H.E.R.” Para alguns a noite dos Grammys foi “business as usual”, mais uma noite no “show business” — para ela, terá sido certamente memorável.

“Ela não se contém. É destemida, absolutamente destemida. Recebeu cinco nomeações para Grammys este ano, incluindo gravação e álbum do ano, para não mencionar que tem um estatuto de super estrela. Vamos contar até três e fazer a festa com a… Cardi B”. Foi assim que Alicia Keys apresentou a rapper e cantora nascida no Bronx, que tem como nome de batismo Belcalis Marlenis Almánzar.

Depois de uma introdução instrumental de uma pianista, Cardi B apareceu. Rapper gangster no feminino, na senda de uma Nicki Minaj, Cardi B tornou-se uma estrela com o single “Bodak Yellow” e lançou um álbum que andou pelos lugares cimeiros da lista dos mais ouvidos nos Estados Unidos durante o ano de 2018, Invasion of Privacy, além de ter gravado uma canção com os Maroon 5 — “Girls Like You” — que tocou interminavelmente nas rádios generalistas mais populares. As bailarinas estavam ali só para abrilhantar, a protagonista era ela. Divide opiniões mas a atuação foi eficaz.

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A atuação seguinte foi… da própria apresentadora. Vencedora de 15 prémios Grammy, Alicia Keys sentou-se entre dois pianos, porque sempre “quis tocar dois pianos”, e escolheu homenagear os seus ídolos e cantar as canções que “gostava de ter cantado”. “Killing Me Softly” de Roberta Flack foi uma delas, “Use Somebody” dos Kings of Leon outra, “Doo Wop (That Thing)” de Lauryn Hill mais uma e nem “Lucid Dreams” (de Juice Wrld), “Unforgettable” de Nat King Cole, “In My Feelings” de Drake (numa versão surpreendente, bastante diferente da original) e “Boo’d Up” de Ella Mai ficaram por tocar e cantar. O hino a Nova Iorque “Empire State of Mind” foi o único tema seu — gravado a meias com Jay -Z — que cantou no palco da Arena Staples Center, em Los Angeles.

Depois de Alicia Keys cantar e Drake fazer um dos discursos mais marcantes da noite após levar para casa a estatueta de Melhor Canção Rap do ano com “God’s Plan”, foi a vez de Diana Ross ser homenageada num momento que comoveu alguns presentes, a começar pela própria Diana Ross. Em palco esteve a própria cantora, que fará 75 anos no próximo mês de março e que depois de ser apresentada num vídeo, foi apresentada em palco pelo seu neto de apenas nove anos. Com um vestido comprido, Diana Ross começou por cantar “The Best Years of My Life”. Emocionou-se, cantou “Reach Out and Touch (Everybody’s Hand) e andou pelo público, que a ouviu de pé, convidando-o a cantar com ela.

Homeaneada Diana Ross, foi o momento de Lady Gaga cantar em palco “Shallow” — canção que a fez ganhar Grammys esta noite — acompanhada por uma banda rock. Sem Bradley Cooper, que esteve ausente por ter-se deslocado ao Reino Unido para estar presente na cerimónia de entrega dos prémios BAFTA, Lady Gaga deu conta do recado, com uma interpretação explosiva mas segura, digna de um concerto agitado de pop-rock.

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Travis Scott foi outra das grandes figuras de 2018. Astroworld, o álbum que editou nesse ano, valeu-lhe uma nomeação para “Melhor Álbum Rap” do ano nos Grammys — e o single “Sicko Mode” que gravou com Drake, motivou duas nomeações nas categorias de “Melhor Performance Rap” e Melhor Canção Rap”. Em palco, acompanhado pelo cantor e pianista inglês James Blake — com quem já gravou dois temas –, começou sentado, chapéu com pala para trás, auto-tune a rodos, a cantar “Stop Trying To Be God” (um dos melhores temas desse seu disco).

Se primeiro esteve acompanhado por um piano tocado com muito bom gosto, cantando com um ritmo bem mais desacelerado do que o que lhe é habitual, rapidamente abandonou a personagem de menino sensível e bem comportado do trap e meteu-se dentro de uma jaula. Dezenas de pessoas começaram a correr pela plateia em direção ao palco, a fazer a festa como se aquilo fosse um concerto normal e estivessem na “frontline” junto ao ídolo. Houve quem subisse grades e fizesse malabarismos e viu-se Travis Scott a mostrar porque é que é considerado uma das figuras mais populares e inovadoras do trap. Subiu grades, deixou-se cair de costas para o crowdsurf, enfim, pôs a pose institucional de lado e foi protagonista de uma festa desbragada.

Depois de um estranho medley que juntou o veterano cantor e músico Smokey Robinson a Alicia Keys e a Jennifer Lopez numa homenagem à editora discográfica Motown, houve ainda o regresso de uma Brandi Carlile resgatada nestes prémios Grammy ao baú das memórias dos anos 2000 (sim, é a cantora de “The Story”). Impressões rápidas: nota-se que está mais americana e sabe usar melhor a voz. Ainda houve espaço para uma apresentação rápida de “duas manas talentosas”, nas palavras do cantor (e nomeado para os Grammys este ano) Leon Bridges, que as apresentou. Tratava-se de Chloe x Halle, jovem dupla nomeada para “Artista Revelação”, que andou em digressão com os Carters, isto é, com Beyoncé e Jay-Z. Apesar de terem notoriamente boas vozes, a atuação não foi memorável. Havendo ainda a vaga de medleys para preencher, St. Vincent e Dua Lipa juntaram-se em palco para cantar um tema de cada uma.

Também habitual é a homenagem anual nos prémios Grammy aos músicos que morreram no último ano. Depois do habitual vídeo de tributo, Fantasia, Andra Day e Yolanda Adans subiram ao palco e cantaram de forma exímia “(You Make Me Feel Like) A Natural Woman”, da “rainha da soul” Aretha Franklin, que morreu no último verão com 76 anos.

Nota – Artigo atualizado às 17h com correção sobre a digressão de verão de Janelle Monáe: a cantora estará no Primavera Sound catalão, mas não no Primavera Sound do Porto, como se lia