Pode não parecer, mas a polémica com os jogadores de futebol americano a ajoelharem-se durante o hino nacional dos EUA começou há quase três anos. Em agosto de 2016, o jogador Colin Kaepernick decidiu sentar-se durante esse momento solene, mais tarde começou a ajoelhar-se como forma de protesto contra a discriminação racial que se sente no território norte-americano e em menos de nada dezenas de outros jogadores seguiram o seu exemplo. Muitos norte-americanos, aplaudiram o gesto, mas outros repudiaram-no de forma veemente — Stephen Martin foi um deles.

“Há injustiça social no sistema judicial. Casos como os do Trayvon [Martin], do Rodney King que estão documentados e filmados”, contou este sexagenário ao Washington Post. Apesar de reconhecer a gravidade da situação social bem como a utilização excessiva de força por parte da polícia, o dono da Prime Time Sports, uma loja de desporto na cidade de Colorado Springs, não conseguiu aceitar o fenómeno do ajoelhar e acabou por se ver diretamente envolvido nesta polémica que ainda hoje — basta olhar para o que aconteceu na última cerimónia do Super Bowl — não deixa ninguém indiferente.

Numa publicação que partilhou na sua página de Facebook há uns tempos, Martin escreve sobre o seu sogro, Kenneth J. Porwoll, que esteve no exército na altura da Segunda Guerra Mundial e conseguiu sobreviver: “Eu estive no funeral desse homem. Eu vi a bandeira norte-americana esticada sobre o seu caixão. Estava lá quando a dobraram e entregaram à viúva… Eu ouvi a salva de 21 tiros. Este proprietário de uma loja acredita que o simples facto de nos levantarmos durante o hino nacional é um gesto nobre e respeitoso que saúda a nossa nação e os militares que a protegem.”

O motivo que impedia Martin de aceitar o protesto dos jogadores estava ligado ao seu passado e à grande sensação de respeito que nutria pelo exército norte-americano. Quando no final do ano passado a Nike decidiu fazer toda uma campanha publicitária em torno de Kaepernick, o jogador que deu origem à polémica, Stephen decidiu dizer “basta”.

https://www.youtube.com/watch?v=Fq2CvmgoO7I

No primeiro dia depois da exibição do polémico anúncio, o sexagenário chegou à sua loja a meio da tarde, deu folga a todos os empregados e fechou-se lá dentro. No dia seguinte, numas folhas de papel gigantes que tinham sido afixadas na montra lia-se: “Todos os produtos Nike a metade do preço. ‘Just Doing It'”. Foi a partir dai que jurou nunca mais vender produtos da marca desportiva.

Se a sua loja já se destacava por estar forrada com fotos de combatentes do exército americano — Setephen apelou via Facebook para que as enviassem, ainda antes do anúncio, para homenagear os soldados que, a seu ver, estavam a ser desrespeitados –, esta decisão pô-lo no centro de um furacão de polémicas.

Nesse momento, a loja Prime Time Sports tinha cerca de 320 mil dólares em mercadoria Nike. A decisão de a vender a metade do preço foi o último prego no caixão deste negócio que já antes enfrentava dificuldades (como ter a renda mensal de 9 mil dólares em atraso, por exemplo).  Esta quinta-feira, foi lida a sentença final num post que Stephen decidiu publicar: “A Prime Time Sports vai fechar. Toda a mercadoria está com 40% de desconto”

Foi desta forma que o negócio que Stephen Martin manteve durante 21 anos chegou ao fim, fortemente dilacerado por um misto de conflitos sociais, crenças políticas pessoais e problemas financeiros que, mesmo assim, não o demovem. Mantendo-se fiel às suas ideias, Martin continua a afirmar que se recusa a ceder perante a NFL e a Nike sabendo que “muitos homens e mulheres do exército continuam a fazer sacrifícios reais”. Diz não desejar nenhum mal a Kaepernick ou a qualquer outro desportista alinhado com este movimento de reivindicação. Diz que deseja apenas que eles ganhem uma nova perspetiva em relação às suas ações.