Título: “Guerracivilândia em Mau Declínio”
Autor: George Saunders
Editora: Antígona
Páginas: 216
Preço: 16,00€

Por peculiar que possa parecer, o mais interessante de Guerracivilândia em Mau Declínio não são os contos passados em parques temáticos situados num futuro distópico que encontramos no livro, mas o que Saunders tem a dizer sobre esses mesmos contos na Nota do Autor. Nessa nota em forma de posfácio, Saunders reflecte não só acerca das condições que lhe permitiram colocar-se na posição de escrever o seu primeiro livro, mas também acerca da pergunta a que o livro procura responder, que segundo Saunders seria: “porque é que o mundo trata tão mal aqueles que estão na mó de baixo?”

O problema de fazer do foco do livro uma pergunta tão premente e justa parece ser o de por vezes cegar a sensibilidade do escritor, que se deixa contaminar por um ódio visceral ao capitalismo, um ódio que transforma todos os patrões em variações de uma mesma personagem-tipo, sempre gananciosa, bruta e egoísta. Ainda na Nota do Autor, Saunders explica que escreveu os contos à socapa enquanto preparava aborrecidos relatórios técnicos sobre contaminação de aquíferos e, talvez por isso, se encontrava “um bocado carrancudo, em termos de prosa”. É precisamente esta sisudez que o levava a irritar-se quando os escritores que lia incluíam nas suas histórias descrições de acções triviais e sem grande relevância, implorando-lhes: “Avisem-me só quando [a personagem] fizer alguma coisa”. Esta impaciência, associada à sua visão de uma América dividida em duas (“A América de Hemingway, Copland, Steinbeck e Ives que eu amava” e uma nova América, “lugar onde a penúria diminuía uma pessoa, (…) onde toda a gente se transformava numa aberração”) é talvez o calcanhar de Aquiles de Guerracivilândia em Mau Declínio.

A falta de paciência de Saunders leva-o a abolir pontos intermédios. Os contos oscilam sempre entre a ternura e a violência. Mary, em “A Fracassada Campanha Terrorista de Mary, a Oprimida”, explica que o seu papá (e a escolha do vocábulo é novamente um instrumento para aumentar a ternura e o sentimentalismo até quase à estridência) “ora nos batia, ora nos acariciava excessivamente”. Em “Abundância”, as duas personagens são uma prostituta e um virgem de trinta anos. Tudo está sempre num dos extremos de uma linha que parece ter rejeitado a mediania.

A visão destas duas Américas, uma América antiga e gloriosa e outra moderna e desinteressante, conduz também Saunders a uma postura melancólica em relação a um passado que se perdeu, mas cujos fantasmas continuam a assombrar o presente. Essa melancolia tem momentos de grande virtuosismo, como quando, em “A Descarga da Sra. Schwartz”, se conta que o Sr. Feltriggi, que perdera ambos os braços numa debulhadora, gostava de enfiar um capacete dentro de um simulador e transportar-se para a sua terra natal no Kansas e que, ao chegar a esse Kansas perdido, “cumprimenta cada pessoa com os seus braços-fantasmas e deleita-se com o chilrear dos pássaros holográficos (…) Ri-se em voz alta. É jovem outra vez e a debulhadora ainda não lhe amputou os braços”. No entanto, este saudosismo leva também a que as personagens modernas deste futuro próximo que Saunders tanto repugna tenham em muitos momentos atitudes completamente incompreensíveis, inverosímeis e exageradas pelo alegado desaparecimento da América de Hemingway que Saunders tanto amava.

A melancolia, o saudosismo e a indignação de Saunders não conseguem, todavia, abafar o seu sentido de humor ou o seu talento, aqui ainda numa fase embrionária. As invenções do Preservativo de Corpo Inteiro (que, aliás, Manuel Luís Goucha eternizaria anos mais tarde num programa das manhãs) e de personagens como a feminista radical que, impedida de gestos revolucionários mais grandiosos, deixa parte das hastes nas uvas com que alimenta à mão os seus clientes masculinos merecem indubitavelmente ficar para sempre no cânone literário norte-americano.

A melhor maneira de compreender Guerracivilândia em Mau Declínio talvez seja, contudo, a partir da análise de uma cena que envolve os McKinnon, uma família de fantasmas que viveram no tempo da Guerra Civil Americana e que permanecem na sua terra natal, agora transformada em parque temático. Perto do fim da história, o narrador encontra-os num momento que inicialmente lhe parece ser de pura diversão, mas que é, afinal, uma coisa muito diferente: “Quando me aproximo percebo que não estão nada na galhofa, o que aconteceu foi que se aproximaram inadvertidamente do local onde morreram e agora são compelidos a recriar repetidamente os seus últimos minutos de vida”. Ou seja, repetem em loop, mas desta vez com uma foice invisível e sem pistolas, o momento em que, num ataque de insanidade, o sr. McKinnon esfaqueia toda a sua família e se suicida de seguida. Assim que tudo acaba, McKinnon senta-se a chorar enquanto a sua família se afasta a correr.

A América que Saunders não consegue deixar de ver é esta América, construída em cima de Starbucks e McDonald’s abandonados, em que apenas se reproduzem de forma patética, esterilizada e grotesca, em parques temáticos povoados de hologramas, a ferocidade e a força que constituiu a América original e que gerou o país perdido de Hemingway e Steinbeck. E o Saunders que nós não conseguimos deixar de ver é este Saunders, fechado nuns escritórios a elaborar relatórios técnicos sobre a contaminação de aquíferos, à espreita de uma folga para entrar no seu simulador e regressar a um tempo em que ainda não tinha perdido os braços e a acenar a Hemingway e aos seus outros capatazes. E quando tudo acaba e Saunders regressa outra vez aos escritórios da Radian Corporation, quase o imaginamos sentado, a chorar de mãos nos rostos, enquanto a sua América se afasta a correr.

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