Ainda que isto seja “A História do Hip Hop Tuga”, é num sítio do rock que se dá este encontro. Mais precisamente na sala de ensaios dos Xutos & Pontapés. Há jornalistas, câmaras, microfones, rappers, vai-se a ver e está uma multidão. Suficiente, pelo menos, para não ser fácil circular. Estamos num ensaio de “A História do Hip Hop Tuga”, que depois de se ter estreado na edição de 2017 do Sumol Summer Fest, chega agora, com pompa e circunstância, ao Altice Arena, já esta sexta-feira, dia 8.

É impossível não pensarmos na frase clássica: “Quem o viu e quem o vê”. Falamos do hip hop, claro, porque um estúdio como este, tão bem equipado, sonorizado, com tudo o que um bom estúdio tem que ter, não foi o que grande parte dos rappers desta história tiveram. As possibilidades tecnológicas são mordomias dos novos tempos. Mordomias merecidas e conquistadas, diga-se:

“Ensaiava numa cave ou numa garagem, os rappers que estavam comigo eram rappers de garagem. Agora não. A geração de hoje tem mais acesso à maquinaria, é muito mais fácil ter acesso ao material e por 500€, se já tiveres o computador, tens um equipamento profissional, enfim, é um bom sinal, tudo evoluiu”, explica DJ Cruzfader, um dos intervenientes neste ensaio.

Dj Cruzfader

Também Xeg, MC com capítulo próprio nesta história, fala dos condicionalismos, do eterno “tempo da cassete”. “A gente gravava para uma cassete quatro tempos, depois pausa, depois voltávamos e já eram 16, 32, 64, por aí. Alguns cortes eram assim um bocadinho à pele, mas era o que tínhamos”, conta.

É desde aí, bem lá atrás, de tesoura na mão, que arranca esta viagem. É também, como não podia deixar de ser, uma espécie de homenagem ao mítico e pontapé de saída do rap em Portugal, o lendário Rapública, disco-colectânea editado em 1994, ou seja, há 25 anos. Tudo para ser cantado a partir desta sexta-feira.

Isto vem da faculdade

É verdade, vem mesmo. Ou pelo menos desse espaço, enquanto ideia. A Faded, promotora responsável pela ideia e pela organização da coisa, explorou este conceito pela primeira vez na Semana Académica de Lisboa, onde tinham “um género de DJ set com seis MCs, assim num formato sem paragens, na altura só malta emergente”, explica Sensi, que a par de Miguel Levy Aires gere a Faded.

O mesmo que garante que no fim desse concerto ficaram a pensar:

“‘Isto é fixe, e se fosse isto com grandes hits? Rebentas com a malta toda e podes contar aqui uma história’. Explorámos essa ideia e a Música no Coração apadrinhou a coisa, proporcionou-se fazer isto lá no Sumol Summer Fest. A cena correu tão bem que nos obrigou a refletir e a pensar o que é que não tinha sido tão bom, ficámos com a sensação que aquilo tinha sido mais a história do rap tuga do que a história do hip hop tuga”, lembra. Então pensámos que desta vez tínhamos que defender os quatro pilares da cultura hip hop”, admite.

É por isso que, para esta ressurreição, o cartaz, além de MCs e DJs, conta também com writers e com bboys, para que o movimento seja representado de forma integral, para que se pinte, enquanto se dança, enquanto se canta, enquanto se mexe nos pratos.

Sensi

Por enquanto é cedo para sabermos ao certo que canções vão compor o espectáculo, ainda que possamos, pelo menos quem segue este estilo de perto, tentar adivinhar. Não nós, mas os estimados leitores, apostar um jantar com os amigos a ver quem adivinha o maior número de canções, uma coisa do género. E também porque Sensi não cede um milímetro:

“Isto é um espectáculo e, como em todos os espectáculos, há escolhas, as nossas não tiveram nada que ver com se é homem, se é mulher, se o artista tem buzz ou não tem buzz, o próprio alinhamento. E o espectáculo está montado tendo em conta a importância que as músicas tiveram naquele ano, é cronológico, vai-se contar uma história… quando consegues, por exemplo, que uma ‘Rhymeshit que Abala’ [Chullage, 2001] toque mais que um hit de uma banda de rock numa época em que o rock estava claramente por cima, essa música tem que lá estar. As escolhas seguiram esse raciocínio”.

Uma canção – jogando, afinal, um bocadinho – que podemos quase assegurar que figurará na seleção final é, seguramente, “Nadar”, mítica canção dos Black Company, que já estava presente no Rapública e que no Sumol, da primeira passagem do conceito por palco, gerou tumulto: “Essa parte no Sumol… até sofremos um bocado, quando demos por nós estavam 90 pessoas na zona de serviço do palco, tudo maluco, nós a agarrar as camisolas da malta para ninguém entrar, tudo maluco a cantar o ‘Nadar’. Porque se calhar muita gente que ali estava nunca tinha visto os Black Company ao vivo”.

Estamos melhor?

Um dos momentos mais curiosos deste ensaio foi quando, à vez, os artistas presentes (GROGNation, Tekilla, Phoenix RDC, Kronic, Xeg, Cruzfader) interpretaram um tema. Sobretudo quando Xeg admite que se esqueceu da pen com os seus instrumentais e decide “mandar só umas rimas”. E dá-nos um freestyle bem bom, que nos remete para o tempo das battles, do mano-a-mano, do beef. Xeg é desse tempo e de muito mais.

Começou por ser fã, pois claro. E ainda antes disso, em miúdo, já tinha o hábito de escrever, gostava das “palavras com o mesmo som”. Depois fez fusão e atirou-se. Muito embalado pelo “Novo Rap Jovem” (NRJ), programa de José Mariño na Rádio Energia, essencial porta de entrada para muito boa gente, que começou ali a ouvir, a gravar os instrumentais, a escrever, tendo mais tarde editado discos. Como Xeg, que em 2001 se havia de estrear com Ritmo e Poesia, disco de onde consta, por exemplo, o hit “Vaca de Merda”. A Xeg não podemos não creditar os temas que muito eco fizeram por Portugal como “Susana” ou o “Quando Escrevo”.

Xeg

Foi o NRJ, foi o Johnny Guitar – histórico clube da zona de Santos – foi o graffitti, foi ter conhecido D-Mars, dos Micro. Foi isso tudo que levou Xeg a saltar do público para o palco. Mas o caminho foi longo. “Finalmente o rap começou a ter a aceitação do grande público, há muitos miúdos hoje para quem a música número um é o rap, enquanto que na nossa altura não era nada assim, o rock é que mandava. Naturalmente, o pessoal do rap foi ganhando espaço, mas sinto que isto peca por tardio, demorou, quer a indústria, quer os promotores dos festivais, foi preciso a malta estar mesmo em alta, nunca se correram grandes riscos. A partir de 2002, 2003, com o Valete, Nigga Poison, Sam The Kid, Chullage, Sir Scratch, Dealema, Regula, aí já tínhamos público, não era o rap feito só para nós, como era quando sai o Rapública”.

Naturalmente, este leque que se foi abrindo, as melhorias em cada campo, do público ao equipamento, foi trazendo novas escolas, novas formas de fazer rap, menos ligadas ao boom-bap e à tradição inicial. A evolução natural das coisas chegou a Portugal, há mais cuidado, também porque pode haver:

“Hoje oiço os meus primeiros trabalhos e de facto não eram muito evoluídos, se eras um gajo que gostava do rap e das palavras, gostavas do Xeg, mas não era algo musicalmente incrível. A nova malta hoje é muito mais cuidadosa com isso, são mais evoluídos musicalmente, também porque o leque de produtores que existe hoje é muito maior, há malta que se preocupa com a música deixando os rappers com a parte do rap. Nós tínhamos de fazer tudo. Vínhamos de uma cultura das rimas, as melhores rimas, e digamos que o público não exige uma grande elasticidade de escrita aos rappers de hoje”.

Então e isso significa que estamos melhor ou nem por isso? “Sim, está melhor, há muito coisa que não consigo ouvir, acho básico, coisas que até acho burras, mas em regra geral estamos melhor”, atira Xeg.

A vida podia estar melhor

Se o rap está melhor – maior, mais plural, mais abrangente – os rappers também estão melhores. Melhores como quem diz “melhores na vida”, mais estáveis. Um exemplo disso são os GROGNation, coletivo de Mem-Martins formado em 2011 por Neck, Nastyfactor, Harold, Papillon e Prizko.

Eles que representam a nova escola, já não assim tão nova mas que vem da modernidade e da facilidade de acesso às coisas, aparece na internet, embora tenham começado em 2011, antes de muitos conjuntos que são considerados como novos. “Damos concertos desde 2013. Já fomos a alguns festivais que se calhar também não contávamos ir quando começámos a fazer isto. A coisa foi crescendo de forma muito natural, à medida que te vais apercebendo que há muita gente a consumir a tua música, a coisa ganha seriedade, tornas-te mais profissional, és mais exigente. Quando começámos era uma coisa de miúdos que fazia música no quarto, sem muitos cuidados”, enquadra Harold.

Os GROGNation

E mesmo para eles, é um sonho ou um luxo poder partilhar backstage com gente que os influenciou profundamente, que os fez querer fazer isto. “É gratificante. Sermos reconhecidos por gente com esse peso é uma grande força para nós”, admite Prizko.

Neste momento, nos GROGNation só um dos elementos é que tem um trabalho extra, ou seja, boas notícias, eis um grupo relativamente recente que consegue viver da música que faz. Harold fala meio por ele, meio pelo coletivo: “Nunca me sinto satisfeito a 100%, sinto-me privilegiado por poder fazer música, por pisar bons palcos, conhecer pessoas incríveis e, se calhar, não viver certas frustrações que alguns amigos e até os meus pais, por fazerem coisas de que não gostam, viveram. Enquanto sentir que posso viver de uma coisa que gosto de fazer e com pessoas a consumir a minha arte, vou tentar sempre fazer com que isto cresça. Se estou feliz? Sim. Mas é claro que a minha vida podia estar melhor, isso sem dúvida”. E não podia sempre?

Nomes em cartaz na História do Hip Hop Tuga: Bomberjack, Cruzfader, Kronic, Nel’Assassin, Ace & Presto, Bispo, Black Company, Bob Da Rage Sense, Boss AC, Capicua, Carlão, Chullage, Dealema, Deau, Dillaz, General D, GROGNation, Holly Hood, Micro, NBC, Nerve, NGA, Piruka, Phoenix RDC, ProfJam, Sam The Kid, Sanryse & Blasph, Sir Scratch, SP & Wilson, Tekilla, Tribruto, Vado Mas Ki Ás, Wet Bed Gang , Xeg, 12 Macacos, Gaiolin Street Breakers, Nomen e Youthone.

Concerto com início marcado para as 22h na Altice Arena, em Lisboa. Bilhetes entre 20 e 25 euros