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Que histórias esconde o Convento de Cristo para atrair o atirador da Nova Zelândia?

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A origem do Convento está ligada à presença da Ordem dos Templários na Península Ibérica, responsável por expulsar os muçulmanos da Europa. O atirador da Nova Zelândia visitou este monumento. Porquê?

O convento é, na verdade, uma designação de um importante conjunto arquitetónico, situado na freguesia de São João Baptista

PAULO NOVAIS/LUSA

Foi o próprio atirador que o revelou no manifesto de 74 páginas que divulgou na Internet, poucos minutos antes de disparar contra várias pessoas em duas mesquitas de Christchurch, na Nova Zelândia: Brenton Tarrant, um supremacista branco, explicou que se radicalizou “numa viagem à Europa, tendo passado por França, Portugal, Espanha e outros países”. Em Portugal, visitou o Convento de Cristo, em Tomar. A visita está agora a ser investigada pela Polícia Judiciária (PJ). Mas o que une o autor do atentado que matou 50 pessoas e este monumento português?

O convento é, na verdade, uma designação de um importante conjunto arquitetónico, situado na freguesia de São João Baptista, cidade de Tomar, e que inclui o Castelo de Tomar, a Charola e igreja manuelina adjacente, a Mata Nacional dos Sete Montes, a Ermida de Nossa Senhora da Conceição, o Aqueduto dos Pegões e, claro, o convento.

A origem deste conjunto arquitetónico está “intimamente ligada aos primórdios do reino de Portugal e à presença dos Templários na Península Ibérica”, lê-se no site do Convento de Cristo. E terá sido a ligação deste monumento à Ordem dos Templários — responsável por expulsar os muçulmanos da Europa — que atraiu o atirador da Nova Zelândia — responsável pela morte de 50 pessoas em duas mesquita, num momento em que decorria uma oração. “Muçulmanos, hoje vou matar-vos”, terá dito antes de começar a disparar.

A origem do castelo de Tomar está intimamente ligada aos primórdios do reino de Portugal e à presença dos Templários na Península Ibérica”, lê-se no site do Convento de Cristo.

Numa altura em que a Península Ibérica estava maioritariamente ocupada pelos reinos islâmicos, os Templários foram os responsáveis por formar novos reinos cristãos neste território, expulsando, para tal, os muçulmanos. Criados no rescaldo da Primeira Cruzada, em 1096, os cavaleiros Templários vieram para Portugal três décadas depois. Mais tarde, já em 1159, são  recompensados por D.Afonso Henriques por terem participado nas conquistas de Santarém e de Lisboa, em 1147. É D. Afonso Henriques quem lhes doa o território onde fundaram o Castelo e vila de Tomar. 

A irmandade que começou por ter como objetivo a proteção dos peregrinos cristãos “nos perigosos caminhos entre o porto de Acre e Jerusalém”, com cada vez mais poder e riqueza, passou a ter outro: defender os estados cristãos da Terra Santa. A Ordem durou cerca de 200 anos e o seu poder “cresceu graças à sua disciplina militar e organização logística”.

Com o tempo, a sua missão mudou e, de defensores de peregrinos, passaram a defensores dos estados cristãos da Terra Santa”, lê-se no site do Convento de Cristo.

A Ordem dos Templários — que ficou conhecida como o terror dos muçulmanos — foi extinta em 1312 pelo Papa Clemente V, tendo o último mestre templário Jacques de Molay morrido em outubro de 1314, queimado numa fogueira. Filipe o Belo, rei de França, ordenou perseguições aos Templários, mas em Portugal, o rei D. Diniz quis manter os cavaleiros e os seus bens e substitui a Ordem dos Templários pela Ordem de Cristo — que viria a ter como sede o Convento de Tomar, hoje classificado como Património Mundial.

Isso fez com que muitos cavaleiros se tivessem refugiado em Portugal e, reza a lenda, terão trazido com eles o Santo Graal — o cálice usado na Última Ceia e que também serviu para recolher o sangue de Jesus Cristo na cruz. O Santo Graal teria sido encontrado no antigo Templo de Salomão, pelos primeiros cavaleiros da Ordem que lá se instalaram. Frederico Duarte Carvalho, autor de “A Mensagem Brown – O Código Dentro do Código Da Vinci”, chegou a defender em declarações ao Correio da Manhã que “o nosso país está presente, em código, no livro”. “Aliás, Portugal é o porto do Graal“, disse. Algo que também é defendido por Vítor Manuel Adrião, presidente da Comunidade Teúrgica Portuguesa.

No documento de doação de Tomar aos Templários, há um sinal rodado, um selo oficial, onde se pode ler ‘Porto Graal’. Ou seja, Portugal, porto do Graal, faz todo o sentido”, disse ainda ao CM.

Brenton Tarrant passou sete anos a passear pelo mundo, com dinheiro que ganhou com um negócio de criptomoedas, passando por Tomar. O suspeito não tinha antecedentes criminais pelo que, na altura, a sua visita ao Convento de Cristo não foi referenciada. Não se sabe quando esteve lá, durante quando tempo, se esteve sozinho ou acompanhado e o que fez exatamente. No entanto, a PJ vai agora investigar a visita do atirador que se encontra agora em prisão preventiva.

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