[ATENÇÃO: este texto tem SPOILERS sobre a oitava temporada da Guerra dos Tronos. Se não quer saber mais, não leia]

Tema 1: Um copo de Starbucks

Vivemos num tempo de bullies. O mundo transformou-se num grande recreio da escola onde estamos todos a ver se quem passa tropeça, prontos para apontar o dedo e rir. Com milhões, e milhões, e milhões de espectadores no mundo inteiro a assistirem semanalmente, ao mesmo tempo, à temporada final da “Guerra dos Tronos”, movidos pelo amor que têm à série, ou pelo simples FOMO, medo de estarem a perder alguma coisa, e, em qualquer caso, perversamente de dedo no gatilho pronto a disparar ao primeiro erro. Depois do quarto episódio, quando se começou a tornar voz corrente que a temporada estava a desiludir, todos nos começamos a sentir confiantes para apontar o dedo. E o dedo esteve dias e dias apontado a um copo de Starbucks esquecido no set duma Idade Média paralela. Bastou isso e não se falou de mais nada.  Um tipo qualquer, no fim do mundo, entre milhões, topou um copo de Starbucks esquecido num frame, e o mundo inteiro ri-se da falha como se fosse grave, como se não houvesse mais nada, como se todos a tivessem notado.

Por tudo isso, meus caros, declaramos oficialmente aberta a época de voltar a defender a “Guerra dos Tronos”, já que agora a moda é atacar. E a verdade é que talvez tenhamos posto as fichas nos episódios errados: no terceiro (porque seria a tão esperada batalha entre vivos e mortos) e no sexto e último (bom, porque é o último).

Afinal, e para já, o episódio que foi do caraças (não sabemos como é que se diz isto em Alto Valiriano) foi este. O quinto. Do caraças. E que alívio é dizê-lo.

Tema 2: Aleijados, bastardos e coisas quebradas

À medida que Varys foi finalmente recuperado nos derradeiros episódios, mais lamentamos que tenha sido esquecido antes. Porquê? Porque abandonou GoT tanto tempo algumas das suas personagens? “Aleijados,  bastardos e coisas quebradas” é o título do quarto episódio da primeira temporada e uma epígrafe à própria série. São palavras saídas de uma frase de Tyrion Lannister, depois de ajudar surpreendentemente Bran Stark: “Tenho um fraco no meu coração por aleijados, bastardos e coisas quebradas”. Durante muito tempo, essa inclinação era das coisas que mais tornava especial “Guerra dos Tronos”. Não torcer pelos heróis óbvios, pelos super-homens, mas pelos aleijados, bastardos e coisas quebradas. Varys foi um deles, um dos melhores. Um escravo vendido a um feiticeiro, que o castrou para usar os genitais numa poção e o abandonar na rua, que teve de pedir e se prostituir para sobreviver, acabou a traficar informação e a tornar-se conselheiro de reis e rainhas. Para ter a sua vingança. E a dado momento a história abandonou esta personagem e não a deixou cumprir-se inteiramente. É pena. Muita. Mas enfim, aqui chegados – à tua, Varys, Mestre dos Segredos.

Tema 3: Daenerys

A viagem de Daenerys a caminho do mal está a consumar-se e é preciso dizer que é um dos grandes triunfos da “Guerra dos Tronos”. Provavelmente, o seu colega do lado agora diz que é óbvio e que ele já estava a ver isto há muito tempo. Yada, yada, yada: salvo prova documental em contrário, ninguém estava a ver isto até ao começo desta temporada. É um grande arco, tão surpreendente quanto consistente. Há muito que escrevemos que GoT é uma série sobre o poder e a família. Ou, por outras palavras: o medo e o amor. Duas forças tremendas. Daenerys queria ser amada. Mas só lhe resta ser temida. Escolheu ser temida.

Tema 4: Drogon is on fire

Em tempos havia uma banda chamada Take That onde militava um rapaz de nome Robbie Williams; a banda era uma banal boys band que se sumiria no tempo; desfez-se e emergiu Robbie, um tipo que é preciso dizer que é uma estrela pop como já há poucas. Drogon é o Robbie Williams dos dragões de GoT, o tipo que vai bem melhor a solo do que em banda. Uma vez mortos Viserion e Rhaegal, sem honra nem glória, finalmente um dragão brilha a grande altura e cumpre tudo quanto deles se escreveu e disse desde que nos foi revelado o mundo de Westeros. A primeira aparição no episódio, sobre a cabeça de Daenerys e depois de esta decretar a palavra que vamos aprendendo a repetir: “Dracarys” (basicamente, o Alto Valiriano para: Fogo!), dificilmente nos sairá alguma vez da cabeça. Depois, Drogon dá bons planos de pelo menos quatro ângulos: ao longe, é elegante; em plano médio, assustador; de frente, medonho; em plano subjectivo ou às costas dele, épico. Ao penúltimo episódio, o dragão cumpre a promessa. Cheio de refluxo.

Tema 5: Os Lannister

Os Lannister começam GoT provavelmente como a família mais odiada ou, pelo menos, certamente a mais temida; mas arriscam-se a terminar como a mais amada. Difícil resistir ao diálogo entre os irmãos Jaime e Tyrion neste penúltimo volume. “Aleijados, bastardos e coisas partidas” – poucos como eles representam tudo isto. Jaime redime-se a partir do momento em que tomba da perfeição física; Tyrion eleva-se à medida que vai sendo amado. Das muitas boas frases que trocam na cena que partilham, fiquemos por esta: “Milhares de vidas inocentes, um anão não muito inocente – parece-me uma troca justa.”

Tema 6: Os irmãos

Os irmãos. Há irmãos por todo o lado na “Guerra dos Tronos”. O bando, a manada, a alcateia. E personificam, melhor do que os casais (quando não coincidem), inteiramente os temas da família e do poder, a aliança perfeita, a única hipótese de ir sobrevivendo ao mundo, de adiar a morte, de porventura a contornar. Pelo amor ou pelo medo. Na extraordinária ópera que é o penúltimo episódio de GoT, caminhamos para o final com dois grandes duetos/duelos em paralelo: Jaime e Cersei, o Cão e o Montanha. Nada mais importa. Nem dum lado nem do outro. Não importa a guerra, não importa o poder, não importa o trono. Importa o amor. Ou o ódio.

Tema 7: A cinza

Sabíamos desde o princípio que o Inverno viria. Sempre pensámos que seria sob a forma de neve. Afinal, agora que a hora está tão próxima, o que cai sobre nós são flocos de cinza. O episódio 8_05 – o final em particular – é do mais belo a que a televisão pode chegar. E é incrível que sequer tenhamos alcançado este ponto, este nível de produção, o privilégio de ver uma “estreia mundial” semana após semana, sem sequer sair de casa.

Acaba para a semana. Se calhar combinamos já: onde nos encontramos às três e meia da manhã? Vamos precisar de conversar.