Crítica de Música

O Terno: o segredo desta costura está nos belos arranjos

A banda de Tim Bernardes atravessou a tempestade de estar vivo, deparou-se com o vazio, e abocanhou a luz das grandes harmonias. O novo é a obra-prima desta geração de bandas brasileiras.

Autor
  • Luís Freitas Branco

A receita é ancestral, de avental arregaçado, o homem recolhe as migalhas da tristeza, entrega-se a uma folha em branco, a um instrumento calado, aproveita o vazio da solidão e decide, uma vez por todas, desenlaçar a inquietação de estar vivo. Esta é a receita, com as suas variantes, a pitada de comiseração irresistível, a fronte cabisbaixa ao piano, a capacidade de tornar este imbróglio existencial apresentável. No ano passado, sozinho, Tim Bernardes deparou-se com esta receita, com amarguras para dar e vender, num surpreendente primeiro álbum a solo. E agora, um instante depois, está acompanhado pelos dois amigos que compõem O Terno, e quem diria, novamente sozinho, novamente de avental arregaçado, com a massa na mão:

“Hoje o nada vai dizer tudo o que pode ser
Silêncio pra cantar, em branco pra escrever
Vontade pra empurrar, tristeza pra esquecer
Sair da fortaleza”

As contradições de “Nada / Tudo”, de atrás e além, profundo e superficial, passado e futuro, são o resultado inconclusivo de Tim Bernardes sozinho em frente a uma folha em branco, sem um final feliz para sentenciar por escrito, ou sequer qualquer desfecho possível.

Ele está dividido, olha-se ao espelho, espreita para fora da janela, cumprimenta os amigos, desespera com o Brasil, e esta desarmonia fica mais aparente. Porém, é neste caminho, a desafiar todas as certezas, a combater o “medo do silêncio, do vazio, a solidão” que O Terno está finalmente no pódio que merece, a sobrevoar todos colegas acomodados nesse tal de roque enrow. <atrás/além> é a obra-prima desta geração imensa de bandas brasileiras, O Terno atravessou a tempestade conflituosa do ser e está com os olhos no prémio:

“Tanto tempo eu procurei chegar
Naquele ponto que eu cheguei
Eu tive tudo, e não parei
Talvez, no fundo, eu goste mais de procurar”

É o gosto pela procura que define <atrás/além>, quarto álbum da banda de São Paulo, povoado pelas contradições que qualquer mergulho existencial incute, esta malta acha que consegue ao mesmo tempo descansar e sair, trabalhar e divertir, começar qualquer coisa e acabar logo. Porém, Tim Bernardes, Biel Basile e Guilherme d’Almeida, apontam uma vontade coerente, e transversal, a todo o disco: “Eu tô pegando leve, tentando descansar/ Meu nível de estresse ainda vai me matar”.

O Terno admite enfim, um cansaço com os modos anteriores em palco, power trio de olhos fechados, pose e solo de guitarra, está nem aí para a pulsação nervosa pop-rock que marcou a discografia até agora, está definitivamente pegando leve. No álbum anterior, Melhor Do Que Parece, era percetível este cansaço, e com o álbum a solo de Tim Bernardes ficou descarado, a banda tinha de apostar nesta prepotência para as grandes canções harmoniosas, meter as fichas todas na melancolia brasileira de cantar alegre a tristeza. Apesar destas garantias, ninguém conseguia adivinhar esta reviravolta chamada <atrás/além>, 50 minutos de maravilhosa lamechice.

Claro, existem pegadas de <atrás/além> no anterior Melhor Do Que Parece, sobretudo no regresso ao refúgio sinfónico de Minas Gerais, a camaradagem pela estrada fora de Milton Nascimento e companhia. Em “Nada / Tudo”, se fecharmos os olhos, podemos ver Wagner Tiso e o Clube da Esquina a dar indicações aos arranjos de Tim Bernardes, um temporal de violinos e contrabaixos a correr atrás de um piano.

A capa de “<atrás/além>”

Os arranjos assombrosos, esvoaçantes, são a presença maior neste disco, que podem suscitar dúvidas quanto às prestações de <atrás/além> em palco, com a prova dos nove no próximo Primavera Sound, dia 8 de junho no Porto. Nesse sentido, este momento da banda não é muito distante dos Arctic Monkeys, da aproximação à chanson, a Scott Walker, às emocionantes despedidas de um momento parado no tempo, que é agora exaltado com pompa e circunstância, trompetes e bombardinos, e aos poucos, despedimo-nos dos defensores da guitarrada, estendidos numa chaise longue a bebericar espumante e decifrar como chegamos aqui.

Se os arranjos são a presença maior deste disco, é inevitável realçar a batuta de Tim Bernardes, rapaz que sem darmos por isso, de calça arregaçada e ar distraído, é capaz de sublinhar estas canções com uma dose extraordinária de delicadeza e estranhamento. Ele conhece as canções como ninguém (são dele), e parece estar em perfeita sintonia com o produtor (é ele), e mesmo assim, não está propriamente sozinho em campo, o compadrio com os dois colegas é a química que compõe O Terno, e mais, “Volta e Meia” conta com as participações surpreendentes de Devendra Banhart e Shintaro Sakamoto, num envolvente arranjo asiático.

Outro momento de roupagem inesperada é “Eu Vou”, uma marcha fúnebre de silêncios, canção de mão cheia, teimosia de comemorar a vida e morte suavemente, leve, solto, e sozinho. Milton Nascimento exprimia esta vontade de estar só numa frase cortante: “Me Deixa em Paz”. O Terno quer estar nesta paz, mesmo que não tenha capacidade de alheamento para esquecer que, “o presidente quer viver dividido”, e que “o tempo passa e as coisas vão piorando”. As canções são um refúgio, ainda insuficiente para escapar da crueza brasileira em 2019, quando sairmos deste bunker de belas melodias, começam de enfiada os questionamentos: “Quem sabe a pátria e o país já não existam mais”.

Quem nos guia é a voz de Tim Bernardes, constante estrela incandescente, sempre no alto, a revelar uma aptidão para vocalizar como poucos na MPB de hoje, não é descabido lembrar-nos de Caetano Veloso quando ouvimos “Pra Sempre Será”, aquelas flutuações vocais e perícia silábica, ou sugerir que tem inspiração na suavidade de Paulinho da Viola, com uma canção do sambista devidamente citada nesta mesma letra (“Talvez tivesse o que chamam ‘Coração Vulgar’”). As inspirações são aparentes, a dylanesca “O Bilhete”, a tornar o íntimo épico, o esplendoroso que é encontrar dois reais “no fundo do bolso do jeans”, sendo esta melodia praticamente calcada de “Negro Amor”, versão de Gal Costa de “It’s All Over Now, Baby Blue”.

E o que dizer de “Bielzinho / Bielzinho”? Uma canção displicente a tentar mimetizar os improvisos samba-rock de Jorge Ben, absolutamente necessária neste disco, prova que estes três miúdos são humanos, passíveis ao erro, ou como cantou o próprio Jorge Ben, “Errare Humanum Est”.

No álbum anterior, o compositor confessava estar “viciado em novidade”, repleto de tédio, e esta imensidão de conteúdo que recebemos todos os dias não abrandou, prossegue a mesma inquietação geracional, uma vontade tremenda de mandar tudo às urtigas, ou então, no outro eixo, rendidos às infinitas novidades, ajoelhados entre as urtigas a catar toda e qualquer informação.

“Triste geração que pode tudo
Quando tudo ficou tão banal?
Se afogou no raso, procurando
Profundo no superficial”

Em 2019, <atrás/além> é um fenómeno único na música popular brasileira. Há 40 anos, ricos anos 70, é certo, este álbum seria um entre tantos, parte do singular desnovelo de tradições brasileiras em volta da canção anglo-saxónica. Que astros alinhados, iemanjás desvairados, permitiram que este génio de outrora perfura-se a fumaça de São Paulo, entra-se no corpo de um “hipster”, “moderno de plantão”, de óculos e bigode malandrinho? Não sei responder amigos, mas este álbum já ninguém nos tira.

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