A notícia é avançada pelo diário The Guardian, que confirma a derrocada do império do célebre chef britânico. Será já esta terça-feira que os destinos da cadeia de restaurantes de Jamie Oliver passarão a a ser geridos pela consultora KPMG, uma vez declarada a insolvência. As fragilidades financeiras acusadas pela cadeia eram conhecidas já há algum tempo, confirmando-se agora o inevitável cenário — segundo o Daily Mail, o grupo detido pelo chef acumulava já uma dívida que ultrapassava os 81 milhões de euros.

Desde logo se previa que a medida, que poderia estender-se a 25 espaços do chef, colocaria em causa centenas de postos de trabalho. Esta tarde, pelas 15h30, os responsáveis pela consultora que conduz o processo confirmaram que serão cortados 1000 empregos e encerrados 22 restaurantes de Oliver.

“Estou profundamente triste com este desfecho”, reagiu Oliver, que fundou o seu famoso Jamie’s Italian em 2008 no coração da high street, o comércio localizado nas principais ruas da cidade, que tem sofrido um impacto negativo extensível a outras cadeias de restauração, e cujo grupo incluía nomes como a steakhouse Barbecoa ou o Jamie Oliver’s Diner.

Apesar de todas as tentativas para escapar à iminente falência, os espaços de Oliver conheceram o mesmo desfecho de outros destinos do chamado mercado do casual dining, que enfrentam uma fase pouco conseguida. Cadeias do mesmo género, como a Carluccio’s, a Byron Burger ou a Gourmet Burger Kitchen viram fechar vários espaços. Quanto a polémicas, esteve especialmente debaixo dos holofotes há cinco anos, depois de uma visita de inspetores sanitários a um reduto de Jamie Oliver: o achado incluiu vários produtos fora de prazo, sujidade, e…ratos.

Foi em janeiro de 2018, depois de larga expetativa, que Jamie estendeu a sua fórmula a Lisboa, com a abertura de mais uma restaurante em pleno Príncipe Real, por onde passou o nosso crítico Sebastião Carolino, que à saída o premiou com quatro estrelas.

Citado pelo jornal Metro, um porta-voz da empresa, que adiantara esta terça-feira que “a administração do grupo Jamie’s Italian Limited nomeou Will Wright e Mark Orton da KPMG para assegurar a gestão dos negócios estabelecidos em solo britânico”, manifestou-se também sobre a restante rede que leva o nome de Oliver, fazendo crer que até prova em contrário os negócios manterão à margem deste cenário. Quanto à Jamie Oliver Holdings, que opera a Jamie Oliver Limited e a Jamie Oliver Licensing Limited, bem como todos os franchisados internacionais, Jamie’s Italian International Limited, “tudo se manterá como está”.

Jamie Oliver agradeceu aos funcionários e ainda aos clientes que apoiaram o seu modelo de negócio na última década. “Foi um verdadeiro prazer servir-vos”, sublinhou o chef que ao longo dos últimos anos nos entrou em casa através de programas na TV e dos seus livros de receitas, e que louvou a “disrupção positiva” que a cadeia Jamie’s conseguiu introduzir no contexto da restauração.

Mudanças, contudo, que não chegaram para contrariar os sinais dos tempos. Em 2017, Jamie comunicava o encerramento de seis dos seus espaços da rede Jamie’s Italian, em Aberdeen, Cheltenham, Exeter, Tunbridge Wells e Ludgate Hill e Richmond, em Londres, mesmo depois de ter injetado do seu próprio bolso uns largos milhões para tentar resgatar a empresa do precipício

Segundo a Reuters, que cita um estudo da Kantar, os serviços em restaurantes desta natureza tinham recuado 6% até março, em comparação com o ano anterior. A agência de notícias aponta ainda para o terreno conquistado pelas aplicações de entrega de comida como a Just Eat ou a Deliveroo. Aos 43 anos, longe parecem ir os anos em que o valor de Jamie no mercado ascendia aos 274 milhões de euros, uma fasquia alcançada durante 20 anos de uma carreira em constante ascensão.

Na sequência das notícias desta manhã, vão sendo conhecidos os destinos de outros pontos, casos dos restaurantes de Glasgow e Edimburgo, que verão já as suas portas fechar. “Não acreditei logo”, desabafou Alin Ciocan, de 28 anos, citado pela mesma Reuters, quando esta manhã se preparava para começar o seu turno no Jamie’s da zona de Victoria, em Londres quando ficou a saber que ia perder o emprego. Um pouco por todo o país, sucedem-se as reações.

Para a história ficam marcas dignas de nota, como os 16 livros de culinária lançados pelo chef que encontrou boa parte da sua inspiração na gastronomia italiana. O seu site oficial é uma montra de receitas, referência a campanhas, e ainda uma plataforma para marcação de mesa num dos até aqui quatro eixos do seu universo: o já referido Barbecoa, o Jamie’s Italian (de raizes italianas), o Fifteen (lançado em 2002, entre a nostalgia a modernidade elegante da cozinha britânica e com um enfoque social, servindo para treinar jovens desempregados), e o Jamie Oliver’s Diner (à base de cachorros quentes, hambúrgueres, saladas e batidos).

Entretanto, nas redes sociais, os comentários dividem-se, entre notas de pesar pelo futuro dos empregados (que algures aqui e ali também se vão manifestando) e fornecedores, muitos dedos dirigidos a um modelo de negócio “overpriced e overrated”, que é como quem diz demasiado caro e valorizado à luz do seu real interesse, e claro, piadas que não poupam o protagonista desta história. Há mesmo quem sugira um episódio especial de “Pesadelo na Cozinha” de Gordon Ramsay para tentar salvar os restaurantes de Jamie Oliver.