Dérbi que é dérbi tem sempre um ambiente escaldante à sua volta e o Sporting-Benfica no futsal não foge em nada a essa regra, até por ser a modalidade de pavilhão onde mais se sente essa rivalidade. No entanto, este jogo 4 da final, também por tudo aquilo que tinha acontecido depois do encontro no domingo na Luz, era notório por parte das forças policiais um especial cuidado até à entrada de todos os adeptos no recinto, até por fenómenos de grupos separados que tentam chegar ao Pavilhão João Rocha fora da caixa de segurança, como aconteceu em novembro na Ronda de Elite da Liga dos Campeões quando 37 adeptos encarnados acabaram por ser intercetados já perto dos arredores do recinto e posteriormente encaminhados para a PSP de Telheiras (um ficaria detido). Nesse particular, tudo correu sem problemas. Pelo menos até ao último minuto de jogo.

Após o 3-2 de Fábio Cecílio, o dérbi parou. Até aí, fora as habituais provocações de parte a parte, não tinha havido grandes confusões nas bancadas (apesar de alguns excessos atrás dos bancos); nesse momento e no final, o cenário foi outro. Primeiro houve uma tocha aberta na bancada onde estavam os adeptos do Benfica, que ficou acesa até chegar um elemento dos bombeiros para apagar; logo a seguir, e na bancada oposta também atrás da baliza, onde se concentram as claques do Sporting, foi levantada a rede de proteção e a polícia fez mesmo um perímetro de segurança no recinto para que o jogo fosse reatado, algo que aconteceu também depois no lado contrário. Só depois de estarem reunidas todas as condições o encontro recomeçou, com Rocha a levar as decisões para tempo extra ao apontar o empate a pouco mais de 30 segundos do final do tempo regulamentar.

O Sporting acabaria por ganhar no prolongamento por 5-3 mas seria após o apito final que se viveria a situação de maior tensão no dérbi: os adeptos leoninos foram-se juntando numa das bancadas centrais que ficavam mais próximas da zona onde estavam os encarnados, houve arremesso de objetos de parte a parte e o forte dispositivo policial montado para separar as duas partes (além da separação física das próprias bancadas) acabou por ter de fazer uma intervenção para dispersar ambos e acalmar de vez os ânimos. Como é habitual, os adeptos visitantes só deixaram o recinto com o resto das bancadas vazias.

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Sobre o jogo, que levou a decisão do título para a quinta e última partida no próximo domingo na Luz, os técnicos mostraram visões diferentes do jogo mas o ponto comum de deixarem muitas críticas à arbitragem.

“Para o futsal em Portugal é muito bom haver quinto jogo mas para o futsal ainda é muito melhor que quem toma decisões não se deixe condicionar pelo que é dito a quente depois dos jogos. Como é hábito recorrente, aconteceu e, mais uma vez, consegue-se tirar dividendos. Hoje fomos muito limitados na organização defensiva, estivemos mais tempo a defender do que com bola. Além das dificuldades que o Sporting foi criando, fomos sendo empurrados para perto da nossa baliza. Tenham coragem de escrever aquilo que viram. O futsal português merece mais e melhor. Que nada nem ninguém se deixe condicionar pelo que quer que seja”, começou por comentar Joel Rocha. “Não falta nada, o Benfica está a competir perante um grande adversário, muito bem trabalhado. Respeitamos imenso o adversário. Nem Benfica, nem Sporting vão conseguir estar por cima os 40 minutos, é a realidade. São duas grandes equipas que têm os seus momentos. Não estamos satisfeitos com o resultado mas nada nem ninguém nos vai retirar a ambição. Temos memória, o Benfica vai lutar por esta reconquista ao último segundo, fiel à sua identidade. Vai acabar como nós queremos, a vencer. Tenho essa convicção. Não tenho essa certeza, tenho essa fé”, acrescentou.

“Não costumo comentar comentários. Se [Joel Rocha] falou da arbitragem, recordo-me já de três lances: mão de Roncaglio fora da área que dava direito a cartão vermelho, penálti sobre João Matos quando leva pontapé na cabeça na primeira parte e mão de André Coelho a cortar a bola que ia para a baliza e que era punível com cartão vermelho. Não me lembro de qual o lance em que o Benfica quer falar do árbitro. A diferença entre o Nuno Dias e o treinador do Benfica é que eu queixei-me de lances mas não deixei de dizer que o Sporting perdeu porque o Benfica foi melhor. Não sei se isso aconteceu hoje, não sei se houve frontalidade para dizer que o Sporting foi melhor”, referiu Nuno Dias. “Considero que este foi o jogo mais desequilibrado das finais, mesmo não tendo sido o resultado mais desequilibrado. Na primeira parte, o nosso adversário fez o golo na grande penalidade e não me lembro de mais ações. Parece-me pouco para uma equipa da qualidade do Benfica, uma equipa de grande qualidade. Depois houve uma reação natural. O Sporting foi melhor do que o Benfica”, completou.

De recordar que, no final do encontro de domingo, que o Benfica venceu por 4-3, os responsáveis dos dois clubes trocaram acusações. “Quando pensávamos que nada mais nos podia surpreender, eis que nos deparamos com mais um ato de vandalismo de um tal grupo de adeptos ilegais, mas organizados, que se deslocaram até ao Estádio José Alvalade e, à entrada do Multidesportivo de Alvalade, tentaram agredir os nossos atletas! (…) Temos de melhorar em campo, mas fora de campo há muitas movimentações para impedir um inédito tetra no mesmo ano que vencemos a Liga dos Campeões”, argumentou Miguel Albuquerque, diretor das modalidades do Sporting, entre outras críticas aos adeptos rivais e à arbitragem do jogo 3. “O Benfica lamenta as acusações feitas pelo diretor geral das modalidades do Sporting, Miguel Albuquerque, relativamente a alegadas tentativas de agressão de adeptos do clube a jogadores do Sporting. O Benfica foi informado pela Polícia de Segurança Pública de que esta desconhece qualquer ocorrência no perímetro do Pavilhão João Rocha entre adeptos do Benfica e atletas do Sporting. Estas acusações são extremamente graves e não podem ficar impunes, até porque poderão incendiar o clima para o jogo 4 da final do Campeonato de futsal, ao contrário daquilo que se deseja para a modalidade”, responderam os encarnados.

Mais tarde, na segunda-feira à noite, em comunicado assinado pelo Conselho Diretivo, o Sporting voltou a reafirmar essas críticas mas falando mesmo em “agressões” (e não tentativas de) e revelando que os atletas e o clube iriam apresentar queixa não só à PSP mas também à própria Federação Portuguesa de Futebol.