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Exploração Espacial

Lindy Tanton: “Ocupar outros planetas só pode servir para aprendermos mais sobre o nosso”

É líder de uma das missões mais ambiciosas da NASA. E vem a Portugal falar sobre o futuro da exploração espacial. Lindy Tanton quer usar asteróides para salvar a Terra. Sair dela não é solução.

Lindy Elkins-Tanton acredita numa exploração espacial mais pacífica do que nos tempos das missões Apollo

A primeira vez que Lindy Elkins-Tanton vem a Portugal coincide com os 500 anos da circum-navegação de Fernão de Magalhães e os 50 da chegada do Homem à Lua. Quando Magalhães deu a volta ao planeta, Lindy era, tal como todos nós, meramente pó cósmico. E quando Neil Armstrong pousou o pé na superfície lunar, tinha apenas três anos. Agora, é uma das líderes dos planos mais vanguardistas da NASA para explorar o espaço. E estará em Lisboa para participar no Global Exploration Summit, uma cimeira que decorre entre 3 e 5 de julho e em que se vai discutir a investigação científica — desde o mais profundo ponto do oceano ao mais afastado mundo interestelar.

Chegar aqui não foi uma tarefa fácil para Lindy, que neste momento coordena a Psyche Mission — uma missão da agência espacial norte-americana que irá explorar a origem dos núcleos planetários em Psique, um asteroide no cinturão que orbita o Sol a meio caminho entre Marte e Júpiter. Em conversa com o Observador, explica que o maior obstáculo foi estudar enquanto se dedicava a outra aventura — ser mãe pela primeira vez. “Quando me comecei a formar tinha um filho pequeno e era mãe solteira. O meu primeiro dia de aulas na licenciatura aconteceu na mesma semana em que o meu filho entrou para o infantário”, recorda.

Trouxe vantagens e desvantagens. As vantagens foram aquelas que a levaram até um dos postos de liderança da NASA: “Saber gerir o tempo e aprender a estudar as prioridades das obrigações”, aponta a cientista. As desvantagens, por outro lado, foram-lhe travando os planos: “Os meus colegas podiam fazer noitadas nos laboratório e eu não, porque não tinha quem ficasse com a criança. Ia ficando para trás nesse tipo de experiência”, admite. Foi assim até ter casado. Pelo caminho, sublinha que nunca foi vítima de qualquer preconceito por ser mulher numa área científica normalmente dominada por homens: “Eu tive a sorte de nunca ter sofrido desse tipo de problemas. Mas foi mesmo pura sorte, porque esse preconceito existe”, acrescenta.

Lindy Elkins-Tanton faz parte de uma geração de ouro que traz nos ombros um dos mais ambiciosos planos que a NASA assumiu: fazer do humano uma espécie interplanetária. “Tenho uma grande esperança sobre isto. Há alguma coisa no espaço que nos dá a oportunidade de pensar como podemos ser melhores como espécie”, confessa a cientista ao Observador. O que a motiva é a forma como a política e a economia mudaram desde os tempos da missão Apollo:

Até agora, a exploração espacial tinha-se centrado muito em construir impérios, comércio e tornar os ricos ainda mais ricos”, descreve. “Agora é diferente porque já não precisa de ser sobre posturas nacionais, já não precisa de ser uma arma de guerra como a missão Apollo 1. Pode ser sobre algo maior e melhor. Penso que temos uma oportunidade neste momento para colocar isso em prática. A exploração espacial já não está dependente apenas de nações, mas de importantes companhias privadas, e isso veio mudar o paradigma”, prossegue.

No entanto, outros problemas se levantaram desde então. Os Estados Unidos e a Rússia já não se consideram inimigos da exploração espacial — até dividem quarto na Estação Espacial Internacional –, mas a China ergueu-se como nova potência nessa área. Além disso, as companhias privadas apareceram com uma capacidade económica que, pelo menos em proporção, as agências governamentais já não têm.

Isso não assusta Lindy: “A exploração espacial não pode ser algo que uma agência governamental ou uma empresa privada possa fazer sozinha. Tem de ser economicamente viável e tem que unir muitas capacidades. Isso dá-nos uma maior oportunidade de colaborar entre nações, mas também entre organizações”, opina. “Eu sei que estou a pintar um quadro um pouco utópico desta realidade. Mas não é que eu seja ingénua. Só que, se temos uma oportunidade para descrever as coisas desta maneira e temos uma oportunidade de fazer desta a nossa narrativa. Não se pode perder algo assim só porque temos a tendência para sermos cínicos ou negativos”, conclui.

Ainda assim, Lindy Elkins-Tanton torce o nariz à crença de que ocupar outros corpos celestes será a salvação da humanidade num planeta cada vez mais fustigado pelas alterações climáticas:

Este planeta é incrivelmente belo. É o único planeta incrivelmente belo que temos. Falamos de salvar a humanidade se nos tornarmos interplanetários, mas nunca teremos um sítio mais bonito do que a Terra. E é este o planeta que queremos proteger. Ocupar outros planetas só pode servir para aprendermos mais sobre o nosso”, apelou.

Para a cientista, uma das mais importantes ferramentas para “salvar o planeta” num futuro próximo será a exploração de recursos minerais em asteroides — mundos por vezes totalmente feitos de materiais valiosos e ricos em água, um dos recursos que pode escassear em breve na Terra: “É fundamental explorar os recursos minerais dos asteroides”, acredita. E parte do seu trabalho pode mesmo ser o primeiro passo para essa solução. É que, neste momento, Lindy Elkins-Tanton tem uma sonda espacial a caminho de um corpo que pode ser o núcleo de ferro exposto de um protoplaneta.

Na teoria de Lindy, Psique pode ser  o remanescente de uma colisão violenta com outro objeto que destruiu a superfície de um planeta em formação. “Em 2011, identificámos Psique como o melhor lugar no nosso Sistema Solar para compreender os passos que levam à formação de um planeta. Queremos entender o que acontece nos primeiros milhões de anos do nosso Sistema Solar que levou ao nascimento de um planeta como a terra, com núcleo e com um campo magnético”, justifica a cientista.

Psique é o único grande corpo celeste metálico que conhecemos na nossa vizinhança que nos permite olhar diretamente para o núcleo de um planeta. É uma janela aberta. Fazê-lo na Terra, na Lua ou em Marte seria “impossível”, adjetiva Lindy, “porque há demasiada pressão e temperaturas demasiado altas” para aquilo que a tecnologia pode suportar.

A missão de Lindy Elkins-Tanton foi oficializada a 4 de janeiro de 2017 após uma longa e burocrática caminhada para convencer a NASA do potencial de uma missão como esta. “Nós demorámos seis anos a convencê-los e isso é o mais rápido que poderia ser. Tivemos de escrever um documento com 250 páginas para justificar o motivo da nossa missão. Depois ainda tivemos de escrever outro com mil páginas”, recorda a cientista. Depois de tanto trabalho, Lindy e a equipa decidiram celebrar. Como? Cada um deles fez uma tatuagem alusiva à missão.

Lindy Elkins-Tanton vem a Portugal para a conferência “New Frontiers and Discoveries in Space Exploration” — em português, Novas Fronteiras e Descobertas na Exploração Espacial. Ao seu lado estarão Alan Stern, líder da missão New Horizons para Plutão da NASA, e Zita Martins, astrobióloga portuguesa e professora associada no Instituto Superior Técnico. Vai acontecer a 3 de julho de manhã, na Fundação Champalimaud.

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