Rádio Observador

NOS Alive

Thom Yorke e um amor que nunca mais acaba. Este sábado o NOS Alive dançou uma distopia

Houve quem lhe vaticinasse uma reforma a médio prazo quando os Radiohead abrandaram, mas continua tão inquieto e vanguardista como sempre. O passado traz-lhe público, mas é o futuro que ocupa Yorke.

Não houve nenhum concerto como o dele. Este sábado, no palco Sagres (o secundário) do NOS Alive, Thom Yorke fez o que aqueles que não o conhecem bem não esperavam. É verdade que foi o vocalista e líder dos Radiohead, mas não seria por isso que iria dar um concerto best-of de carreira, com todos os hits no lugar certo. JohnnyMarr, o antigo guitarrista dos TheSmiths, tinha-o feito na véspera e com uma eficácia tremenda, mas Thom Yorke é, e sempre foi, diferente. Mesmo quando lhe vaticinavam um futuro de irrelevância, habitualmente destinado a estrelas caídas em desuso, reinventou-se, fez diferente, criou caminhos novos. Hoje, é sobretudo o passado que lhe traz notoriedade ,mas é o presente e futuro que o preocupa e lhe ocupa tempo.

A tenda do palco secundário estava quase cheia quando ele chegou (e ficou mesmo cheia uns minutos depois). Sem grandes palavras, excluindo os “thank you” repetidos de tempos a tempos, Thom Yorke dividiu-se entre teclado, piano, guitarra e maquinaria eletrónica para mostrar a sua música que ora se espraia para paragens mais dançantes (na senda de um Aphex Twin ou de um Four Tet) ora se apresenta mais atmosférica, quase ambiental, com os agudos e falsetes de Yorke a acrescentarem dramatismo às suas distopias e pesadelos.

Todo o concerto teve uma vertente performativa natural: Thom Yorke ia andando de um lado para o outro do palco, fazendo gestos para o público com as mãos, balançando o corpo como numa dança lânguida. A iluminação, quase sempre escura, ia tendo algumas luzes a brilhar, brancas e vermelhas — e Yorke ia servindo ora de MC (cantando sobre batidas eletrónicas, como num género muito distinto daquele que habitualmente ocupa os MC), ora de músico: as teclas, a guitarra que nos seus braços não chora, os incontáveis botões e fios com que ia gerindo os ritmos de dança. Até uma maçã tinha em palco, não lhe tendo contudo dado uso visível.

De t-shirt preta, apoiado por dois elementos que o apoiaram na produção eletrónica, chegou mesmo a saltitar, primeiro, e saltar mesmo, depois, perante as ovações de palmas que cresciam com o final de cada canção. “Amok”, tema dos Atom For Peace (grupo de que fez parte e que incluía, por exemplo, Flea, dos Red Hot Chili Peppers), foi um dos pontos alto, mas foram “Not The News” e a belíssima “Dawn Chorus” (esta última interpretada ao piano no início de um encore de três canções, adicionando ao espetáculo uma intimidade acústica até aí por explorar) a elevar a atuação aos píncaros. Curiosamente, duas canções que lançou no álbum que acaba de editar, AMINA, mais um passo à frente nas explorações de outro mundo de um músico que continua tão inquieto quanto vanguardista.

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