O novo primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, já afastou mais de metade dos ministros de Theresa May e chamou para junto de si veteranos defensores do Brexit, segundo o The Guardian. As escolhas de Johnson mostram que não vai desistir do divórcio com a União Europeia. O jornal The Times descreve o despedimento de 11 ministros de Theresa May como uma “tarde de carnificina” e “o mais brutal purgatório do governo na história política moderna”. Johnson vai estar esta quinta-feira à tarde no Parlamento, depois de reunir de manhã com o novo governo.

Entre as escolhas do novo primeiro-ministro está o próprio irmão: Jo Johnson vai desempenhar o cargo de secretário de Estado em dois ministérios, Economia e Educação.

O cargo de ministra do Interior foi entregue a Priti Patel, que, em 2011, defendeu o regresso da pena de morte. Em 2017, quando tinha a pasta do Desenvolvimento Internacional, a então governante tinha sido obrigada a demitir-se depois de vir a público que se tinha reunido com elementos do executivo israelita durante umas férias no país, violando o protocolo diplomático. Ultra-eurocética, foi muito crítica quanto à condução do processo do Brexit por Theresa May.

A pasta das Finanças foi entregue, por sua vez, a Sajid Javid, ex-banqueiro e um “discípulo” da antiga primeira-ministra Margaret Thatcher. Vai ocupar o lugar que pertencia a Philip Hammond, que se demitiu ainda antes de May anunciar a sua própria saída. Já tinha sido ministro do Interior no governo de May.

Dominic Raab, advogado de 45 anos que fez manchetes ao garantir que não é feminista, será o ministro dos Negócios Estrangeiros. Será o principal representante de Boris Johnson, substituindo Jeremy Hunt, o candidato derrotado a líder do Partido Conservador. Segundo já disse Hunt, a decisão de deixar o governo surge depois de o novo primeiro-ministro lhe ter sugerido trocar de ministério — para o da Defesa — o que recusou. Raab já tinha sido o ministro do Brexit de Theresa May, mas demitiu-se por estar contra o acordo assinado por May com a União Europeia.

Já Jacob Rees-Mogg, presidente do Grupo de Pesquisa Europeu Pró-Brexit e um dos defensores da saída de May, é o novo líder da Câmara dos Comuns. É um eurocético que conspirou uma moção de censura interna a Theresa May e se opôs energicamente ao acordo de saída da UE negociado pelo anterior governo.

Já Michael Gove ganhou o lugar de número dois de Johnson.

O novo primeiro-ministro decidiu manter o eurocético Stephen Barclay, o ministro do “Brexit”. O político conservador chegou ao cargo em novembro do ano passado, após as demissões de David Davis e Dominic Raab, que saíram em divergência com os planos do governo de May para o Brexit.

Boris Johnson manteve no executivo alguns conservadores pró-europeus, mas em pastas consideradas menos críticas para o processo do ‘Brexit’, como a ministra do Trabalho, Amber Rudd, e o ministro da Saúde, Matt Hancock.

Há, porém, alguns novos ministros que fizeram campanha pela permanência na União Europeia: é o caso de Ben Wallace, nomeado para a Defesa, em substituição de Penny Mordaunt, que apoiou Jeremy Hunt. Wallace apoiou a candidatura de Boris Johnson, mas é um dos poucos que não se assumem como eurocéticos e pró-Brexit (por exemplo, Sajid Javid começou por ser um defensor da manutenção do Reino Unido na União Europeia, mas durante a eleição para a liderança do Partido Conservador tornou-se num defensor de um “Brexit” sem acordo).

No processo de escolha da nova equipa, Johnson cercou-se de apoiantes do Brexit, como Raab, Patel, Theresa Villiers, a nova ministra do Ambiente, e Andrea Leadsom, que será a nova ministra da Economia, Energia e Estratégia Industrial. Tendo em contas as demissões e as renúncias, foram afastados 17 detentores de cargos ministeriais — a grande maioria apoiantes de Jeremy Hunt — é o caso de Liam Fox (Comércio) ou o próprio Hunt (Negócios Estrangeiros) .

O ex-secretário de Defesa Gavin Williamson será ministro da Educação, apesar de ter sido demitido em maio por suspeita de divulgar segredos de segurança.

A imprensa britânica refere que para assessores, Boris Johnson recrutou muitos dos operacionais da campanha “Vote Leave” [Vota Sair], que promoveu o ‘Brexit’ no referendo de 2016 que ditou a saída britânica da UE, incluindo o diretor Dominic Cummings para chefe de gabinete.

Boris Johnson foi eleito o novo líder do Partido Conservador esta terça-feira. O antigo ministro dos Negócios Estrangeiros foi o mais votado as eleições internas, com 92.153 votos — quase o dobro dos 46.656 votos assegurados por Jeremy Hunt.

Chegou a vez do “Show Boris”. Fará alguma diferença para o Brexit, depois da saída de May?

No discurso de estreia enquanto primeiro-ministro, depois de ter sido indigitado esta quarta-feira pela rainha Isabel II, Boris Johnson disse que “sem ‘ses’ nem ‘mas’”, o Reino Unido sairá da União Europeia dentro de 99 dias. “Faremos um novo acordo, um acordo melhor que maximizará as oportunidades do Brexit, ao mesmo tempo que nos permitirá desenvolver uma nova e empolgante parceria com a restante Europa, baseada no comércio livre e no apoio mútuo”, sublinhou.

Primeiro discurso de Boris Johnson: há de tudo para todos e o Reino Unido será grandioso de novo

Boris Johnson vai esta quinta-feira fazer uma declaração ao parlamento, depois da reunião que decorre esta manhã com o novo governo, resultado de uma remodelação, considerada esta quinta-feira pela imprensa como uma carnificina.

O Daily Telegraph qualificou a remodelação governamental de “massacre político” e uma “transição de perder o fôlego”. Por sua vez, o Daily Mail fala de um “massacre” e um “banho de sangue de Boris”, enquanto que o Daily Express afirma que o primeiro-ministro fez uma “limpeza histórica” e iniciou uma “nova era” no Reino Unido.

“Johnson implacável vinga-se” é a manchete do The Guardian, que descreve a saída de alguns dos ministros como uma “limpeza impiedosa” dos detratores, do novo primeiro-ministro, no gabinete da Sra. May.

O Financial Times considera que Boris Johnson “rasgou” o executivo anterior e colocou no seu lugar uma formação “hardcore” de ‘brexiteers’, o nome dado aos defensores da saída do Reino Unido da União Europeia (UE).

[Milhares protestam em Londres contra Boris Johnson:]