O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, inicia quarta-feira uma visita oficial a Berlim e a Rostock, a convite do seu homólogo, Frank-Walter Steinmeier, visando consolidar as relações entre os dois países.

Segundo a Presidência da República, “esta visita pretende consolidar as relações bilaterais entre Portugal e a Alemanha, dando continuidade ao nível de excelência que caracteriza o relacionamento entre os dois países em todas as dimensões, seja a nível institucional, académico, cultural, científico e económico”.

A visita, a segunda do Presidente da República à Alemanha, será ainda “uma oportunidade para abordar um conjunto de temas relevantes nos planos europeu e multilateral”.

De acordo com o programa da visita, que termina na sexta-feira, o chefe de Estado participa quarta-feira na inauguração da exposição “Entre a Imaginação e a Memória”, de Paula Rego, a primeira individual da pintora na Alemanha, no Centro Cultural da Embaixada de Portugal em Berlim, seguindo para uma receção à comunidade portuguesa, na residência do Embaixador de Portugal em Berlim, João Mira Gomes.

Na quinta-feira, Marcelo Rebelo de Sousa será recebido pelo Presidente da República Federal da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, no Palácio Bellevue, e terá um breve encontro com alunos de escolas portuguesas.

À tarde, Marcelo Rebelo de Sousa parte para Rostock, no nordeste da Alemanha, onde participará numa cerimónia na câmara municipal daquela cidade, que assinala nesse dia a nova designação de Cidade Hanseática e Universitária de Rostock.

A convite do seu homólogo alemão, Marcelo Rebelo de Sousa participa em seguida na cerimónia de abertura oficial do Festival Marítimo “Hanse Sail 2019” de Rostock, que se realiza anualmente naquela cidade, parcialmente banhada pelo mar Báltico.

A cerimónia de abertura incluirá um salto de helicóptero de quatro paraquedistas que transportam as bandeiras alemã, portuguesa, letã (a Letónia é o país convidado da edição de 2019 do festival marítimo) e da cidade de Rostock. À noite, está previsto um concerto da fadista portuguesa Carminho oferecido à cidade por Portugal.

No último dia, o chefe de Estado português e o seu homólogo alemão encerram a visita com um encontro e almoço a bordo da escuna Johann Smidt.

Marcelo Rebelo de Sousa visitou a República Federal da Alemanha logo no primeiro ano do seu mandato, entre 29 e 30 de maio de 2016, e teve encontros em Berlim com o então chefe de Estado alemão, Joachim Gauck, com o então presidente do parlamento federal, Norbert Lammert, e com a chanceler Angela Merkel.

Na altura, na agenda europeia e nacional estava a possibilidade de serem aplicadas sanções a Portugal por défice excessivo, uma “ameaça” que não se concretizou, com a Comissão Europeia a decidir, em julho desse ano, suspender oficialmente a multa. O país sairia um ano depois do procedimento por défice excessivo, em junho de 2017.

Na visita, Marcelo Rebelo de Sousa expôs à chanceler alemã as razões pelas quais considerava que seria “injusta” a aplicação de sanções a Portugal devido ao défice excessivo. A gestão os fluxos migratórios e a crise dos refugiados foram outros temas em cima da mesa na primeira visita oficial do presidente português à Alemanha.

Frank-Walter Steinmeier, doutor em direito, de 63 anos, do Partido Social Democrata (SPD), foi eleito Presidente da Alemanha fevereiro de 2017 – esta eleição é feita por um colégio eleitoral composto por deputados federais e delegados indicados pelas assembleias dos diferentes estados – para um mandato de cinco anos, renovável uma vez, e tomou posse em março desse ano.

Em 2018, Marcelo Rebelo de Sousa recebeu Steinmeier em visita oficial a Portugal, dividida entre Lisboa e Porto, nos dias 01 e 02 de março. Seguiu-se, entre 30 e 31 de maio do mesmo ano, uma visita oficial da chanceler alemã, Angela Merkel, que também foi recebida no Palácio de Belém.

Marcelo encontra comunidade portuguesa “mais consolidada”

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa vai encontrar uma comunidade portuguesa “muito diversa” e “mais consolidada”, admite Alfredo Stoffel, conselheiro das comunidades.

É a segunda visita de Marcelo Rebelo de Sousa à Alemanha, enquanto chefe de Estado, e, tal como em 2016, terá novamente um encontro com a comunidade portuguesa. Mas, de acordo com Alfredo Stoffel, não há “grandes diferenças” nos últimos três anos.

“Vem menos gente para a Alemanha e temos uma comunidade mais consolidada. Quem veio, e procurou sítio para trabalhar, conseguiu-o. Este é um país que, embora tendo algum desemprego, tem falta de mão de obra, sobretudo qualificada. O mercado de trabalho está apto a receber pessoas bem formadas, quadros médios e superiores e, para quem procura isso, a Alemanha continua a ser um país atrativo”, revelou o conselheiro das comunidades portugueses, em declarações à agência Lusa.

A emigração portuguesa para a Alemanha registou, este ano, o valor mais baixo desde 2011. Segundo o Observatório da Emigração, 7200 portugueses fixaram-se na Alemanha, em 2018, um valor que confirma a tendência de decréscimo dos últimos anos.

“Temos uma comunidade muito diversa e que varia consoante as regiões. Em Berlim, por exemplo, estão os novos emigrantes. Há também uma comunidade ‘mais clássica’, na segunda e terceira geração, que se adaptou à região onde vive, e com filhos que já são luso-alemães. É uma comunidade muito variada e enquadrada na sociedade”, destaca Alfredo Stoffel.

Entre os pontos da agenda do Presidente português, está uma receção à comunidade portuguesa na residência do embaixador de Portugal na Alemanha, João Mira Gomes, durante a qual Alfredo Stoffel espera poder abordar alguns temas.

“Penso que o Estado português tem de dar atenção à situação dos reformados e dos que se querem reformar, temos de ter uma boa justiça fiscal, perceber porque é que existem ainda casos de dupla tributação (…), valorizar ainda mais o português como língua estrangeira e também como língua curricular nas escolas alemãs”, sustenta.

Alfredo Stoffel mostra-se satisfeito com o trabalho que tem sido levado a cabo pelo governo português em relação às comunidades portuguesas no estrangeiro, sublinhando a importância de o valorizar e de o tentar melhorar quando não corre tão bem.

“Acho que este governo olhou para as comunidades com olhos de ver, apesar de sabermos que não podem fazer tudo. Além disso há uma boa sintonia entre o Presidente da República e o primeiro-ministro”, sublinhou.

“É importante ver os que saem como uma mais-valia para Portugal. Nós, apesar de não estarmos no país, trabalhamos e fazemos muito por Portugal, não somos piores nem melhores que os que decidiram ficar, e que sofrem na pele problemas como o desemprego ou os baixos ordenados. A comunidade é algo vivo, um prolongamento do país”, defendeu Alfredo Stoffel.

Representantes da comunidade portuguesa na Alemanha vão pedir quarta-feira ao Presidente da República que Portugal reforce a aposta no ensino da língua portuguesa e no associativismo, visando manter a ligação dos lusodescentes ao país de origem.

“Apostar e desenvolver mais o ensino da língua materna para manter a ligação dos nossos jovens a Portugal” e “dar mais valor e apoio ao associativismo para manter e divulgar a cultura portuguesa na Alemanha” são as duas mensagens que Vítor Estradas, presidente de um dos ranchos folclóricos portugueses mais conhecidos da Alemanha, tem para transmitir ao Presidente da República.

Contactado pela Lusa, o ex-presidente da Federação das Associações Portuguesas na Alemanha (FAPA), que deixou de existir por falta de novos corpos diretivos, lamentou que nos últimos anos “muitos problemas tenham sido apresentados e discutidos, muito tenha sido prometido, mas pouco tenha sido cumprido”.

“Devíamos falar menos e agir mais (…) muitas vezes só se lembram da comunidade quando existe um interesse próprio. Acho bastante lamentável”, comenta, sublinhando a necessidade de existir “uma maior participação na vida política, pois quem não vota, não conta”, considerou.

“Como comunidade, não podemos estar sempre a protestar contra o Governo, o Presidente da República e os políticos quando não os votamos. Esse incentivo para votar tem de vir também de Portugal, tal como a distância até aos locais de voto deveria ser encurtada”, defendeu por seu lado o presidente da Casa de Portugal em Bremerhaven, Daniel de Oliveira Soares.

O responsável elogiou o Presidente da República, afirmando que “muitas coisas têm mudado” desde que é chefe de Estado, “muitas para melhor”, como por exemplo haver mais “permanências consulares”.

Contudo, defendeu a diminuição dos tempos de espera nos atendimentos telefónicos e presenciais no consulado ou a realização de conferências direcionadas às comunidades.

A Associação de Pós-Graduados Portugueses na Alemanha (ASPPA) também estará representada no encontro entre a comunidade portuguesa e o Presidente da República, marcado para quarta-feira, com a expetativa de transmitir ao chefe do Estado português a necessidade de o país fortalecer “as suas redes na diáspora científica”.

“Isto permitirá a criação de sinergias entre os dois países, não só na indústria, como também na academia, e permitirá um fluxo mais dinâmico de conhecimento e informação, podendo voltar a atrair portugueses na Alemanha de volta a Portugal”, considerou a presidente da ASPPA, Sofia Figueiredo, destacando que aquele país continua a ser “um destino profissional atrativo para os portugueses”.

“Considero que as políticas que o governo dinamiza em relação à diáspora, como por exemplo, o congresso mundial de redes da diáspora portuguesa, que teve lugar em julho, no Porto, de extrema importância para conhecer a comunidade emigrante, as suas forças e onde precisa de apoio”, declarou.