Um jogo entre uma equipa espanhola e uma equipa italiana, em Estocolmo, a capital da Suécia, onde as principais estrelas dos dois conjuntos são dois portugueses. Podia ser esta a sinopse do último teste de pré-temporada do Atl. Madrid e da Juventus, que este sábado se encontraram para o derradeiro encontro da International Champions Cup, a competição de pré-época que o Benfica até já havia conquistado. Pormenores à parte, João Félix e Cristiano Ronaldo eram os principais destaques de um jogo entre duas das melhores equipas do mundo neste momento.

No fim de semana em que arranca a Primeira Liga, a Premier League e ainda a liga francesa, o Atl. Madrid de Simeone realizava o último jogo de preparação, a uma semana do início da liga espanhola, e a Juventus de Sarri fazia também os últimos ajustes, a duas semanas do começo da liga italiana. O encontro entre espanhóis e italianos era também um encontro entre duas das equipas que melhor se movimentaram no mercado de verão, ainda que de forma distinta: se o Atl. Madrid se destacou pela quantidade (Félix, Lodi, Trippier, Herrera, Felipe, Hermoso e Llorente, citando apenas os mais relevantes), a Juventus superiorizou-se ao assegurar jogadores muito pretendidos e que atuam em posições nevrálgicas (De Ligt, Rabiot e Ramsey).

Cristiano Ronaldo e João Félix: as duas grandes estrelas de Juventus e Atl. Madrid foram titulares no último jogo da pré-temporada

Simeone optou por deixar Diego Costa, que foi o melhor marcador dos colchoneros na pré-temporada, no banco de suplentes, lançando Morata no onze: a presença do avançado espanhol permitiu a João Félix atuar em terrenos mais semelhantes àqueles que cobria quando estava no Benfica, a apoiar Seferovic, e deu ao jovem português uma liberdade tática, técnica e posicional que este ainda não tinha tido desde que chegou a Madrid. Do outro lado, Cristiano Ronaldo tinha Douglas Costa e Higuaín como companhia na frente de ataque — Mandzukic e Dybala, dois dos nomes mais mencionados no último dia de mercado em Inglaterra (o primeiro por interessar ao Manchester United, o segundo por ter estado praticamente certo no Tottenham), perderam espaço com Maurizio Sarri e assistiam à titularidade de Higuaín, que o treinador italiano já conhecia do Chelsea, a partir do banco de suplentes.

Depois de um primeiro susto provocado por Chiellini ao segundo poste no seguimento de um canto de Pjanic, que obrigou a uma grande intervenção de Oblak (10′), João Félix inaugurou o marcador com um grande remate de primeira depois de um cruzamento de Trippier a partir da direita (24′) — ainda que a organização do torneio tenha, de forma algo explicável, atribuído o golo a Lemar porque a bola ainda desviou no francês. Khedira empatou a partida pouco depois, com um remate de fora de área que surgiu de uma jogada de insistência (29′), mas o jovem avançado português bisou e repôs a vantagem do Atl. Madrid com mais um golo de primeira, ao aparecer praticamente isolado na cara de Szcsesny depois de um passe longo de Lemar (33′).

Félix até esteve bastante discreto durante os primeiros 20 minutos, algo escondido junto ao corredor direito e sem possibilidade de pegar no jogo e avançar. A subida de rendimento do português surgiu através de uma alteração de Simeone, que o trocou com Lemar e o colocou a povoar mais a faixa central, onde se tornou um quase vagabundo que não tinha um espaço físico definido e tanto avançava pelo corredor interior como surgia nas alas para desequilibrar e abrir linhas de passe. Do outro lado, a exibição de Cristiano Ronaldo acabou por ser ofuscada pelos dois golos de João Félix, mas a verdade é que o avançado da Juventus acabou por não ter muitas oportunidades de fazer a diferença num primeiro tempo em que a equipa de Maurizio Sarri teve mais bola mas não soube materializar essa posse em oportunidades.

Numa segunda parte bem mais tranquila, com um ritmo menos intenso e onde tanto Simeone como Sarri aproveitaram para fazer várias substituições — entraram Herrera, Felipe, Partey e Correa no Atl. Madrid, entre muitos outros, e Dybala, Bernardeschi, Buffon e Mandzukic também estiveram entre o lote de jogadores que entrou na Juventus na segunda parte –, nem João Félix nem Cristiano Ronaldo conseguiram ser protagonistas de ocasiões de golo ou situações perigosas (o primeiro saiu logo aos 55 minutos, o segundo ficou em campo mais um quarto de hora). Os italianos estiveram muito perto de empatar, com um grande remate de Rabiot de fora de área que bateu com estrondo no poste, mas não conseguiram anular a desvantagem até ao final e o Atl. Madrid acabou por vencer mesmo o último jogo da pré-temporada dos dois conjuntos.

No derradeiro teste de espanhóis e italianos, fica principalmente visível que Atl. Madrid e Juventus têm nesta altura dois dos melhores plantéis da Europa, não só no que toca à qualidade como à quantidade dessa qualidade, que se estende por todos os setores e praticamente todas as posições. Depois de um mercado particularmente generoso, Diego Simeone tem todas as condições para ir atrás de todas as competições em que estiver inserido, não partindo atrás de ninguém; do outro lado, Sarri tem nas mãos a óbvia favorita à conquista da liga italiana e também, como sempre, uma enorme candidata à vitória da Liga dos Campeões.

Num plano mais particular, este encontro entre Atl. Madrid e Juventus deu não só uma fotografia que vai ficar para a história do futebol português e internacional — em que Félix toca na cabeça de Ronaldo, como se os papéis de experiente e muito jovem se tivessem invertido — mas também a certeza cada vez maior de que o novo menino bonito de Espanha, de Madrid e de Portugal não está a desiludir ninguém. Depois do golo e das duas assistências na goleada perante o Real Madrid, João Félix bisou frente à Juventus e desbloqueou um jogo que estava algo preso. E fê-lo com tanta naturalidade que ter de esperar mais uma semana para ver o jogador português a atuar na liga espanhola já parece uma eternidade.