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Vodafone Paredes de Coura

Spiritualized: um concerto do outro mundo em Paredes de Coura

Ofuscaram tudo: foram a banda certa (o legado é portentoso) no sítio certo (o festival dos 'indies') e no momento certo (pico de forma). Em Coura, viu-se um concerto transcendente a roçar a perfeição.

Jason Pierce, o fundador dos Spiritualized. O grupo deu um dos concertos da 27ª edição do festival Vodafone Paredes de Coura esta sexta-feira, dia 16 de agosto

Hugo Lima

Subitamente, os pelos dos braços levantam-se. De repente, tudo parece pequeno por comparação. Até o concerto dos New Order, que conjugou como nenhum outro revelância musical com deleite de uma multidão (tanta gente estava ali por eles — e quem não estava aderiu rapidamente…), pareceu reduzir-se a uma atuação muito mais insignificante do que na verdade foi. A culpa é dos Spiritualized, a banda de um dos grandes heróis da música das últimas décadas, o inglês Jason Pierce, que é também antigo líder da trupe musical Spacemen 3. No final, lá à frente (claro), ouvíamos ao nosso lado alguém gritar “Deus” e fazer-lhe uma vénia. Estranhamente pareceu mais cognome do que heresia.

Parecia aliás que os relógios tinham parado, que nunca se tinha chegado tão perto do céu como naquela hora e meia com que os Spiritualized brindaram o público de Coura esta sexta-feira, no terceiro dia de atuações da 27ª edição do festival. No final, ouvíamos também “só me apetece dizer obrigado” e compreendíamos perfeitamente. Não temamos as palavras (temamos a dificuldade em encontrar as que descrevam tudo isto com acerto), na colina minhota viu-se um concerto que roçou tanto a perfeição quanto uma banda pode almejar, canções magníficas tocadas como ainda não as tínhamos ouvido, com engenho e coração, com técnica e espírito.

O cenário inicial ainda não deixava antever o que aí viria. Num canto do palco, à direita para quem estava de frente para este, estava Pierce, óculos escuros, cabelo desalinhado, ar e humor (nem um “obrigado” nem nada, foi só música) de quem não perdeu o alheamento, sentado com uma guitarra nos braços e um microfone por perto. À sua direita, muito próximo, um coro gospel feminino (habitual nos concertos dos Spiritualized) que ajudaria a dar às canções um tom ainda mais transcendente e sobrenatural. Do lado oposto de Pierce, a banda toda estava pronta para acompanhar à distância, ora descarregando psicadelismo torrencial com volts no máximo ora pontuando com notas discretas e solitárias o canto frágil, quase desamparado, de um homem com aura de génio.

Em certa medida, toda a música dos Spiritualized parece uma busca — ora mais revolta, ora mais apaziguada, ora quase desesperada — por uma redenção qualquer. A religião é só um caminho, a companhia humana é a sobrevivência possível, a arte é só uma ferramenta. Isso é logo notório na primeira canção “Come Together”, rock comunhal que banda e coro tornam épico. É notório também no segundo tema que se ouviu em Coura, “Shine a Light”, quando Jason Pierce, cantando só com o som de um teclado atrás, pede que o Senhor o ilumine nos momentos em que está “cansado e completamente sozinho, tão solitário quanto se pode estar”. Isto antes do coro e a banda acelerarem o ritmo e subirem o volume, tornando o pedido de “Come Together” um desejo coletivo que é cantado como mantra no fim. De repente é desejo do público também, as angústias e a procura do consolo possível são partilhadas, estamos todos num barco do qual não é possível saltar, é melhor aproveitar que a viagem é bonita.

A belíssima “Soul On Fire”, com um “baby, set my soul on fire” exultado a plenos pulmões, antecedeu “She Kissed Me (It Felt Like a Hit)”, comboio rock a prosseguir a alta velocidade, luzes intensas a tremer por todo o lado, banda inteira a rasgar como se a música fosse vingança e descarga (não é, também?).  E foi a partir daqui que o concerto dos Spiritualized no belo cenário noturno de Coura deixou de ser só mais um grande, magnífico concerto de uma banda mítica, para se tornar algo mais. De súbito, graças a uma sucessão de canções do último álbum da banda, intitulado And Nothing Hurt e aclamado um pouco por todo o lado (também no Observador), uma atuação de uma das grandes bandas rock das últimas décadas passou a ser o concerto que precisávamos de ver em 2019.

Ouviu-se “A Perfect Miracle”, com Pierce a começar a cantar sozinho com aquela voz que estranhamente tanto parece vir de quem está em paz como de quem já não tem grande coisa a perder — a cantar o que começa como declaração esperançosa de amor e acaba com fracasso das expectativas, “conheci alguém, também o devias fazer, portanto querida, não ligues, não ligues”. Ouve-se “I’m Your Man”, tema pouco palavroso, canto que parece arrancado quase a custo de Pierce, mas os arranjos são arrebatadores até àqueles riffs diabólicos de guitarra na segunda metade da canção. Ouviu-se “Let’s Dance”, “a canção mais bonita do mundo” como nos sugeriu um fã por mensagem escrita. Talvez a tenha enviado quando Pierce sugeria que há “coisas melhores, sabes, que um rapaz e uma rapariga solitários podem fazer” ou “que um rock and roller solitário pode fazer”. Talvez tenhado enviado antes quando o coro gospel reduzia toda a gente à sua insignificância com a força com que ressoava o “I’ll say a little prayer for this girl” que se cantava, sabemos lá nós a esta hora.

E o que dizer de “On The Sunshine”, outro tema novo inatacável, delicioso desvario de rock elétrico com um “State of Mind” como mantra, Pierce e comparsas de guitarra com os dedos frenéticos a testar os limites dos instrumentos, luzes a disparar para todo o lado? E o que dizer da intimidade criada com “Damaged”, ou do coro que ali brilhou novamente? E o que dizer ainda de “Sail On Through”, a canção que encerra o último álbum dos Spiritualized, mais uma de tom espiritual, mais uma a oscilar entre os coros transcendentais, arranjos grandiosos e a voz frágil do último dos duros?

À nossa esquerda diziam-nos que o que era bom era ficarmos oito horas naquilo, um dia inteiro de festival só com os Spiritualized a tocarem o repertório de praticamente 30 anos de existência. Não sendo possível, ainda haveria tempo, porém, para ouvirmos outra coisa do palco, uma versão de “Oh! Happy Day” que começou deprimida mas ainda foi a tempo de resgatar esperança via coro, tema soul a tornar-se rock feliz. Víamos gente a chorar convulsivamente a poucos metros de nós, víamos Pierce agradecer discretamente e sair sem dar grande cavaco a ninguém, vimos uma banda com quase 30 anos de carreira que conseguiu dar um concerto em que mais de metade das canções tocadas só apareceu no ano passado e ainda assim sair com estatuto de lendas rock inatacáveis. Foi a banda certa no sítio certo perante o público certo e no pico de forma ideal. Foi tão especial que quase nos fez declarar aqui com mais certezas que os Spiritualized são a melhor banda do mundo, mas quem somos nós para isso?

É claro que neste terceiro dia de atuações houve muitos outros concertos a reter. Houve, desde logo, uns Deerhunter que, voltados para o passado e com palavras simpáticas de Bradford Cox — sempre naquele estilo displicente cool, a deambular pelo palco com calças largueironas, tira casaco veste casaco, toca guitarra e tira microfone do suporte, oferece baquetas e setlists e acende cigarros — para a música portuguesa experimental de Rafael Toral, provaram que são não apenas uma das bandas mais relevantes do indie dos últimos 15 anos. São, também, uma das mais espantosas desse campeonato ao vivo, conseguindo estender canções e engrancendê-las em palco como muito poucos, usar o feedback como ele deve ser usado, insistir tocar as notas  bem alto e andar em deliciosas voltas em busca de um riff que nunca mais se repetirá.

Houve, também, uns Black Midi que mostraram que são banda rock promessa que se agiganta ao vivo e uns portugueses First Breath After Coma que provaram que também para eles cada concerto é uma festa e uma luta, com Noiserv como convidado e com o último álbum NU como trunfo para conquistar festivaleiros-banhistas ao fim da tarde. E houve, claro, um Jonathan Wilson em modo virtuoso da guitarra e fã do flower power e um Father John Misty que regressou ao palco principal deste festival, onde já tinha estado, para mostrar que está hoje com os dois pés firmes na notoriedade pop sem ter mudado muito de identidade desde I Love You, Honeybear, disco que editou em 2015 e que teve já dois sucessores.

Tillman, assim se chama o barbudo que ainda faz suspirar fãs depois de tantos concertos em Portugal, esteve espirituoso e sarcástico como habitual, levou a Coura aquelas canções de arranjos épicos e globalmente certeiros que as suas letras e a voz foram capazes de tornar populares. Houve tudo isso, é certo, mas ao fim de uma hora e meia a ouvir Jason Pierce e companhia não restou nada que não tivesse passado a parecer  esforço inglório de competir com o que está fora do domínio comum. Este sábado, o festival termina com concertos de Patti Smith, Freddie Gibbs & Madlib e Suede, entre outros.

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