Tinha o maxilar e o pescoço partidos e o sangue escorria-lhe pelas orelhas – o cenário era horrendo. Foi assim que um médico local encontrou aquela mulher, atropelada pelas rodas da viatura a vapor onde viajava, a 31 de Agosto de 1869. Os ferimentos eram demasiado graves e não houve nada que o especialista pudesse fazer por Mary Ward que morreu durante aquele passeio em Birr, na Irlanda, tornando-se na primeira morte registada por um acidente de automóvel.

Mary tinha 42 anos, e se a maioria das fontes faz crer que a tarde se tratava de lazer, há quem aponte num sentido em tudo irónico: Mary estaria a caminho do serviço fúnebre de um familiar. Certo é que passava pouco das três da tarde e circulava numa autêntica novidade da altura, uma locomotiva movida a três rodas (uma à frente e duas atrás) com o marido, que é como quem diz um pioneiro carro movido a vapor, uma invenção atribuída ao seu primo William Parson, e mais tarde desenvolvida pelo filho deste, Charles. O passeio decorria tranquilamente até ao momento em que encontraram uma curva apertada. Foi aí que se desequilibrou e caiu, sendo depois atropelada pelas pesadas e grandes rodas do veículo. Foi um acidente trágico e chocante que fez notícia nos jornais locais: nas páginas falou-se sobre a abertura de um inquérito para averiguar o que tinha acontecido mas acabou por se declarar morte acidental. O veículo não viajava a mais do que seis quilómetros hora, mas convém referir que à luz dos padrões e regras então vigentes excedia os limites de velocidade, que nas cidades não deveria ir além dos dois quilómetros por hora.

Mas aquela que se popularizou como a primeira vítima de uma das invenções mais fantásticas do homem teve uma vida preenchida que, inclusive, reúne mais curiosidades do que a morte improvável. Mary era uma estudiosa da natureza, fascinada pelos astros, uma curiosa que se tornou uma cientista de renome, admirada pelos pares.

Uma ilustração do tipo de veículo em que Mary seguia e cuja roda se terá revelado fatal

Nascida em 1827 em Farbane, no Condado de Ofally, no centro da Irlanda, cresceu numa família abastada. Mary King era a mais nova de quatro irmãos: três raparigas e um rapaz que, de acordo com os costumes da época, receberam educações muito diferentes. Se à ala feminina foram ensinados alguns princípios básicos em casa – como a leitura e escrita – coube ao único rapaz, John, o privilégio de ir para a universidade, um grau académico considerado praticamente impossível de atingir para as mulheres que, naquela altura, ambicionavam pouco mais do que uma tranquila vida doméstica. Mas, para Mary, a falta de oportunidade foi claramente compensada pelo seu carácter curioso que a levou mais longe.

Interessada pela natureza e vida animal, desde os três anos que caçava pequenos bichos e insetos para os poder estudar de perto. Usava lupas para os conhecer ao detalhe – um passatempo que deixava familiares e amigos intrigados. Foi, aliás, um amigo do pai, o astrónomo James South (fundador da Royal Astronomical Society de Londres) que o convenceu a oferecer um microscópio à filha. Aquele que foi um presente improvável e dispendioso – terá custado o equivalente a 4,200 dólares (perto de 4 mil euros) nos dias de hoje, adianta a norte-americana The Atlantic – foi também uma rampa de lançamento para Mary. Finalmente podia observar a fauna e flora com a precisão que tanto desejava.

Natureza ilustrada

Se é verdade que o contexto da época lhe barrou algumas oportunidades também há que referir que o ambiente familiar lhe abriu portas. Mary era prima direita de William Parsons, também ele astrónomo. Tinham uma relação próxima e passavam muito tempo juntos. Terá sido em casa do primo, aliás, que desenvolveu o interesse por outros corpos, os celestes. É que Parsons foi o construtor do maior telescópio da altura: o Parsonstown Leviathan, como era conhecido (Parsonstown era o nome dado à cidade de Birr na época), um gigante instrumento com praticamente dois metros de diâmetro. Ironicamente, as invenções do primo que lhe permitiram estudar e saber mais seriam a sua fatalidade (é que a locomotiva que a matou era propriedade e criação dele).

Os serões em casa de William Parsons, terceiro conde de Rosse, possibilitaram-lhe cruzar-se com intelectuais da época que, gradualmente, foram apreciando o seu interesse e conhecimento na área. Mary estudou cometas e fez ilustrações de corpos celestes utilizadas por estudiosos, nos anos que se seguiram e foi a primeira de três mulheres a receber o boletim mensal da Royal Astronomical Society (Sociedade Real Astronómica). É algo curioso no olhar de Mary: o seu entusiasmo pelo mundo era completo, total. Era capaz de se apaixonar, de igual forma, pelas asas de um inseto como pela forma de um cometa.

Mas, apesar do sucesso na astronomia, as suas publicações sobre a fauna e flora tiveram igual (ou até maior) reconhecimento. O seu primeiro livro foi publicado em 1858. Inicialmente Mary fez uma publicação independente, com poucos exemplares, mas rapidamente o livro se tornou um sucesso que as editoras agarraram: “A World of Wonders Revealed by the Microscope” seria reeditado oito vezes.

Naquele livro, tanto as palavras como os desenhos são de Ward, que usa palavras simples que transparecem ingenuidade. “As asas das libelinhas, que nunca precisam de se dobrar ou reduzir em tamanho, são feitas para serem fortes e leves e também belas, claro. O Prato 2, Fig. 1, representa uma das pequenas libelinhas, tão comuns durante grande parte do Verão, com corpos azuis claros ou vermelhos, os mais comuns. As suas asas são belíssimas, transparentes, consistindo de uma delicada membrana que esticada mostra uma espécie de rede de trabalho ornamental.”

O livro está escrito em forma de carta a uma amiga, Emily Filgate. Nele, a estudiosa entra noutros detalhes curiosos. Um dos capítulos é dedicado aos pelos dos animais que apresenta também em desenhos detalhados: os exemplares de um rato branco, de um rato comum e de um coelho. Compara ainda pelos de gatos, lontras, cavalos e veados. Mary apresenta a estrutura de pernas e olhos de diversos animais e disserta ainda sobre pétalas e pólen – as descrições e ilustrações oscilam, delicadamente, entre a ciência e a poesia.

De King para Ward

Publicaria outros livros – como “Microscope Teachings” e “Telescope Teachings” – com dicas práticas sobre a utilização dos instrumentos mas também outros pensamentos sobre os animais, o espaço e os corpos celestes. Livros que se tornaram, entretanto, referências. Mary tornou-se uma figura de destaque no seu meio e país. Aliás, para assinalar os 150 anos da morte da astrónoma, a cidade de Birr vai ter um programa especial este sábado, 31 de Agosto. O tour vai consistir na passagem por locais marcantes: como o percurso da sua última e trágica viagem, passagem pela gráfica que fez as primeiras (e poucas) impressões do seu primeiro livro e, ainda, uma sessão de (re)lançamento do mesmo.

George R. R. Martin, o autor do épico de fantasia “A Song of Ice and Fire”, a semente de “A Guerra dos Tronos”, junto do fictício Castelo Winterfell, que em bom rigor se trata do Castelo Ward, no norte da Irlanda (Liam McBurney/PA Images via Getty Images)

Para saber mais sobre a vida da naturalista e astrónoma é preciso, realmente, dar um salto à Irlanda. É perto da vila de Strangford que se encontra o Castle Ward, castelo do século XVIII, que hoje acolhe visitantes para conhecer esta e outras figuras irlandesas que marcaram a história. Por lá se encontra o microscópio original de Mary, que a ajudou a estudar cada pedaço e camada de borboletas ou libelinhas. Era com a ajuda dos pequenos slides – feitos de mármore e não de vidro, que na altura era um material mais caro – que Mary analisava o seu meio.

Foi em 1854 que mudou de apelido, deixando de lado o King e tornando-se Mary Ward, ao casar-se com Henry Ward. Foi com o capitão das forças armadas que constituiu uma família grande, de oito filhos, uma vida doméstica que terá sido atarefada mas que, ainda assim, não a impediu de prosseguir os seus estudos já que a publicação do primeiro livro aconteceu quatro anos depois do casamento. É esse primeiro livro que apresenta uma Mary diferente: não é a astrónoma, não é a mãe de oito filhos, não é a morte trágica. Ali é, apenas, uma menina fascinada com o mundo lá fora: “A razão pela qual a libelinha (assim como outros insetos) tem tantos olhos, é a seguinte: os seus olhos não se podem mover, como os nossos, mas ao terem este prodigioso número, não sofrem nenhuma inconveniência por os terem fixos e imóveis, dado que lhes é possível ver, de uma vez, em quase todas as direções.”