A atuação do Banco Central Europeu (BCE) deve ser “ágil” e, apesar de não ser “orientada” pelos mercados financeiros, estes devem ser “ouvidos e compreendidos” pela autoridade monetária. Esta foi a principal mensagem transmitida em Bruxelas por Christine Lagarde, que se prepara para dentro de algumas semanas assumir a presidência do BCE.

Num discurso perante os eurodeputados em Bruxelas, Lagarde sublinhou que é preciso ter presentes os riscos da política de estímulos seguida há vários anos pelo BCE — e que deverá continuar nos próximos anos — o que implica ouvir com atenção os avisos de quem critica as medidas do banco central. Mas a francesa não quis deixar margem para dúvidas: “uma política altamente acomodatícia é necessária, por um período de tempo alargado”, afirmou Lagarde, colando-se às palavras-chave que têm sido enunciadas pelo banco central nos últimos meses.

“Os desafios que justificam a política atual do BCE não desapareceram”, disse Lagarde num discurso na Comissão de Assuntos Económicos e Monetários do Parlamento Europeu antes da sua confirmação para o cargo.

No entanto, frisou que a política monetária não pode substituir as políticas orçamentais, nem ser sobrecarregada por estas, e, em resposta a uma questão do eurodeputado socialista português Pedro Marques, disse esperar nunca ter de fazer um anúncio como o de Draghi em 2012, quando o ainda líder do BCE anunciou que a instituição faria “o que for preciso para preservar o euro”.

Apontando que essa intervenção de Draghi foi “absolutamente essencial para travar os ataques à dívida soberana”, ainda que tenha chegado “tarde”, pelo menos do ponto de vista de países como Portugal, Pedro Marques perguntou a Lagarde se também se comprometia a fazer o que fosse preciso. “Espero nunca ter de dizer algo do género, porque tal significaria que os outros decisores de política económica não estão a fazer o que deveriam”, respondeu a ex-diretora-geral do Fundo Monetário Internacional.

“Portanto, estou de acordo com a opinião do conselho de governo de que uma política altamente acomodatícia está justificada por um prolongado período de tempo a fim de levar a inflação a (uma quota) abaixo mas próxima de 2%”, disse em referência ao objetivo de inflação que o BCE deve assegurar segundo os tratados.

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Lagarde acrescentou, no entanto, que há “questões no horizonte que terão que ser abordadas” e, neste sentido, ressaltou a necessidade de estar “consciente sobre os potenciais efeitos colaterais” da política monetária acomodatícia.

A ex-diretora-geral do FMI e ex-ministra francesa de Economia afirmou que, caso se confirme o seu cargo à frente do BCE, combinará o seu “compromisso com o mandato” que o emissor tem segundo os tratados europeus “com agilidade para se adaptar consoante o mundo muda”.

Lagarde acrescentou que vai trabalhar pela inclusividade e diversidade na instituição.

Os chefes de Estado e de Governo da União Europeia nomearam Lagarde em julho para suceder a Mario Draghi à frente do BCE quando o mandato do italiano expire, a 31 de outubro.

Tanto o Parlamento Europeu como o BCE já se pronunciaram sobre as nomeações dos membros da direção executiva do emissor europeu, embora a sua opinião não seja vinculativa, com o que na prática não podem vetar a eleição dos países.

O BCE já deu o seu sinal verde à candidatura de Lagarde em julho, enquanto a comissão parlamentar irá votá-la esta tarde a partir das 18h00 (hora de Lisboa).

A francesa vai assumir o cargo a 1 de novembro por um período de oito anos, tornando-se na primeira mulher à frente do BCE após ter sido também a primeira chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI).