Jerónimo de Sousa ainda não completou os três desafios a que muitos se propõem ao longo da vida: plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho. Mas este sábado ficou mais próximo: o sobreiro que plantou na Quinta da Atalaia, em pleno recinto da Festa do Avante foi mais um passo nesse caminho. Quanto ao livro, a existir, Jerónimo garantiu que não será um livro de memórias  — em jeito de despedida — até porque nem tem nos planos mais próximos despedir-se da vida política.

Mas vamos por partes, antes de plantar o sobreiro, Jerónimo de Sousa fez uma visita guiada pela exposição “Cortiça, do montado ao cosmos”. Além do discurso de abertura e de encerramento da festa, a presença de Jerónimo no pavilhão central ao segundo dia do Avante é também um marco no programa. Acompanhado durante alguns minutos pelos curiosos que estavam mais empenhados em conseguir tirar uma fotografia com o secretário-geral do partido do que em conhecer a história da indústria corticeira, Jerónimo lá foi acenando simpaticamente aos mais novos e cumprimentando os “camaradas” mais graúdos.

À semelhança das últimas edições do Avante, o pavilhão central acolhe exposições que são representativas do traço mais histórico e cultural da tradição portuguesa e também símbolos da luta dos trabalhadores por melhores condições, que neste caso aconteceu durante vários séculos. Das grandes greves no século XVIII, à luta mais recente pelas oito horas de trabalho diário, Jerónimo de Sousa escutou atento o exemplo da luta de uma classe que, espera, sirva de guião para todos os trabalhadores. Não saiu da exposição sem passar o olhar pelos painéis onde estão ilustradas as iniciativas legislativas do PCP na Assembleia da República, para proteção do montado.

E cortiça porquê? A resposta veio do próprio secretário-geral do PCP depois de plantar um sobreiro. Uma tentativa de alertar para o aumento da produção nacional sem “ofender nem agredir a natureza” e um bom pretexto para poder criticar o planeamento florestal português. A música de fundo era um jazz, discreto e calmo, e o secretário-geral aproveitou o tom para falar da “quase nenhuma aprendizagem” com os incêndios dos últimos anos e da necessidade de substituir “designadamente o eucalipto” por plantas autóctones. A plantação do sobreiro não era afinal para aumentar apenas a consciencialização em torno dos cuidados com o planeta e das alterações climáticas, era também uma deixa para poder criticar as políticas que regulam a floresta em Portugal e a ação dos últimos governos.

E podia ter ficado por aí, mas Jerónimo foi ainda mais longe —afinal estamos já em período de pré-campanha eleitoral e todos os votos contam para derrotar a maioria absoluta do PS — e aproveitou a ocasião para dizer que “estranha” que “alguns para quem o ambiente era zero sejam agora campeões do ambiente”. E quem são esses “alguns”? Jerónimo de Sousa não quis dizer, escapando à questão entre sorrisos e algumas palmas tímidas de quem entretanto se tinha aglomerado em torno da ação de plantação da árvore.

As palmas aliás, só aumentaram mesmo em som e em número quando Jerónimo explicou que estava na liderança do partido “na plenitude das capacidades e convicções”. “Continuo com coragem política, física e anímica. Aconselho aos apressados e com discurso fúnebre a ter paciência”, afirmou Jerónimo para alegria da pequena plateia entretanto formada.

No recinto da festa do Avante! notam-se aqui e ali, as preocupações com o ambiente, mas continua a ser possível ver muito plástico descartável, garrafas de água ou pratos de plástico nos espaços de restauração, por exemplo. Nada que pareça incomodar muito aqueles que se deslocam à Quinta da Atalaia que esgotaram os parques de estacionamento e preencheram quase na totalidade os passeios nas ruas mais próximas às entradas controladas pela organização.