Depois de todas as desistências e críticas no final da maratona feminina, que decorreu no primeiro dia do Mundial de atletismo em Doha, a prova de 50km marcha era tida como mais um provável foco de mais manifestações contra a decisão de levar uma prova para um país com temperaturas e humidade demasiado altas – o que até pode mesmo acontecer. No entanto, a madrugada deste domingo ficará na história do atletismo português e, em especial, da carreira de João Vieira, referência na especialidade que teve o seu maior momento de glória aos 43 anos.

Depois de um início de prova bastante discreto, onde parecia até ter descolado em definitivo dos lugares com acesso ao pódio (21.º lugar aos 5km a 49 segundos do líder, 16.º aos 10km a 1.14 minutos, 15.º aos 15km a 2.05 minutos, 13.º aos 20km a 3.14 minutos, 13.º aos 25km a 4.25 minutos), o marchador nacional conseguiu uma fantástica recuperação na segunda metade do percurso, saltando para a sétima posição aos 30km e para o quarto lugar aos 35km. A dez quilómetros do final, João Vieira já estava em posição de medalhas mas conseguiria ainda superar o chinês Wenbiu Niu, passando de 1.10 minutos de desvantagem aos 40km para 37 segundos de avanço no final da competição – com o asiático a ficar mesmo fora do pódio.

O japonês Yusuke Suzuki, que dominou toda a prova, garantiu mesmo a medalha de ouro com 39 segundos de avanço sobre o português naquela que foi a principal vitória da carreira depois da prata nos Jogos da Ásia em 2014 nos 20km marcha e do bronze nos Mundiais de Juniores em 2006 nos 10km marcha, sendo que a terceira posição e respetivo bronze acabou por cair para o canadiano Evan Dunfee, que aproveitou a quebra de Niu para resgatar ainda um lugar no pódio. Yohan Diniz, campeão mundial em 2017, acabou por desistir numa prova que voltou a ter mais desistências do que é normal nestas competições: 14 em 46 participantes (mais quatro desqualificações).

O feito de Vieira ganha ainda um maior relevo por ter surgido após 11 participações consecutivas em Mundiais de atletismo desde 1999: desistiu nos 20km de Sevilha, em 1999; desistiu nos 20km de Edmonton, em 2001; ficou no 17.º lugar nos 20km de Paris, em 2003; desistiu nos 20km de Helsínquia, em 2005; acabou em 25.º os 20km de Osaka, em 2007; terminou na décima posição nos 20km de Berlim, em 2009; fez 25.º nos 20km de Daegu, 2011; fez quarto lugar nos 20km de Moscovo, em 2013 (apesar de ter ganho este ano a medalha de bronze na prova, após a desqualificação do russo Alexander Ivanov por doping); foi 36.º nos 20km de Pequim, em 2015; e conseguiu o 11.º posto nos 50km de Londres, em 2017. Agora, aos 43 anos, chegou a prata.

Além das participações em Mundiais, João Vieira conseguiu outros resultados de relevo na já longa carreira, como a medalha de prata em Barcelona (2010) e de bronze em Gotemburgo (2006) nos 20km marcha dos Europeus. Tão ou mais relevante do que isso, o atleta português tornou-se o mais velho de sempre a conquistar uma medalha em Campeonatos do Mundo. “Foi muito bom, uma prova de grande nível. Foi horrível,mas adaptei-me bem. Foi uma medalha de carreira desportiva e fica marcada para muitos anos. Próximo passo? Tóquio 2020”, referiu o atleta no final da prova masculina dos 50km marcha que terminou já de madrugada em Portugal.

Já na prova feminina, as duas atletas nacionais presentes acabaram por não ter as mesmas razões para festejar: Inês Henriques, campeã mundial (2017) e europeia (2018) nos 50km marcha, acabou por desistir entre os 35km e os 40km, depois de ter andado entre o segundo e o quarto lugar no 30km iniciais, ao passo que Mara Ribeiro acabou no 15.º lugar a pouco mais de meia hora da vencedora, a chinesa Rui Liang (4.23.26). A também chinesa Maocuo Li ficou com a prata (4.26.40), ao passo que a italiana Eleonora Anna Giorgi garantiu o bronze (4.29.13).