“Estão a ouvir bem aí ao fundo?”. Nem que não quisessem. Lá ao fundo ouvia-se bem Jorge Coelho, até do lado de lá da praça do Rossio, em Viseu, se ouvia o homem conhecido por estourar os níveis de som de qualquer comício. Até entrou controlado, mas foi em crescendo e acabou a pedir respostas aos que ouviam lá atrás, ao presidente da sua Junta (Santiago de Cassurrães e Póvoa de Cervães), enfim, a todos quantos ali estavam. Jorge Coelho entrou ao seu estilo festivaleiro pela campanha de Costa adentro e pelas canelas de Rui Rio também.

Reportagem do comício em Viseu

E tudo porque o social-democrata tinha estado no dia anterior no distrito e Coelho sentiu-se “insultado” quando o ouviu falar no renascimento do cavaquistão. “Não há cá cazaquistão nenhum, não há cá cavaquistão nenhum, nós somos de Viseu. E quem vem para cá, como ontem o líder do PSD veio dizer que o seu objetivo político é que Viseu volte a ser o cavaquistão… eu sinto-me insultado por estas palavras”. Um tropeção no país que inspirou o trocadilho para dizer a Rio: “Não nos chamem nomes, nós somos viseenses”.

“Nós temos memória e sabemos o que significa essa questão para a vida de todos vós e dos interesses e qualidade de vida de todos vós. Não nos esquecemos do que foi o passado, do que passámos todos relativamente a esse tempo”, disse referindo-se às maiorias de Cavaco Silva, tempo em que Viseu ganhou esta alcunha dado o domínio laranja do distrito.

João Azevedo, o cabeça de lista, também se juntou a essa festa quando clamou que “não há cavaquistão, o distrito de Viseu é das pessoas e não é de ninguém”. E antes de todos eles já o líder do PS Viseu, António Borges, tinha dito que o objetivo por ali é “enterrar de vez o cavaquistão”.

O comício ao ar livre aquecia (foi um dos mais participados até agora), certo é que a noite também não estava tão fria assim, aliás, para o entusiasta Coelho estava mesmo tudo “magnífico” ao ponto até de fundar novas crenças populares: “Hoje somos bafejados por uma noite magnífica que prenuncia que vamos ter um domingo magnífico”. Se Jorge Coelho acredita, não há socialista que se atreva a negá-lo. 

E Coelho usa mesmo a sua autoridade perante o povo socialista para pedir — bom, para exigir — que até domingo se faça o trabalho de casa no apelo ao voto. “Todos os que aqui estão têm de ligar aos amigos e tu também”, disse dirigindo-se a Rui Valério, o presidente da sua junta no concelho. Até porque ele controla: “Hoje fiz o teste e liguei a um amigo e perguntei: o Rui Valério ligou-te?“. A plateia riu-se e, nessa altura, Coelho já ia tão lançado e gritou lá para trás: “Estão a ouvir bem aí ao fundo?”.  “Siiiiiim”.

É dramatização total no apelo ao voto, a quatro dias das eleições, com os socialistas a verem as sondagens dos últimos dias a comerem algumas das intenções de voto que julgavam ter. António Costa vai no mesmo sentido e, embalado pelo tom de Jorge Coelho (e também do cabeça de lista João Azevedo), mal subiu ao palco também tentou a tática de falar com o auditório. “Boa noite a todos”. E o público respondeu. “Boa noite”, insistiu com a mão atrás do ouvido a pedir mais força do lado de lá. Lá veio uma repetição mais encorpada e Costa continuou num discurso centrado na mobilização.

A D. Fernanda, de Viseu, que mudou de ideias, e os faits divers da campanha

Costa até contou a história de “dona Fernanda”, a mulher que há cinco anos em Viseu o fez ver que podia não ganhar as eleições, ao dizer-lhe que gostava do que ele dizia mas que não votaria no PS por medo de perder o que tinha recuperado — — um episódio já referido pelo Observador –, e que agora vê “numa gravação” do partido a admitir que o país melhorou.

“O que as pessoas querem saber na rua muitas raras vezes tem a ver com o que os políticos dizem uns aos outros nessa bolha mediática“, atirou indiretamente aos casos que têm marcado esta campanha. E Jorge Coelho já tinha dado uma ajuda nesse sentido, ao falar em “faits divers que não interessam para nada à vida de cada um de vós, da vossa família e dos vossos filhos”.

Além do apelo ao voto, o comício fez-se de ataques ao PSD, sobretudo dos de Jorge Coelho, que voltou a atirar a Rio por este ter dito, numa visita a Lamego, que estava pouca gente na rua “porque se calhar acharam que era o António Costa que vinha aí”, como o Observador relatou aqui. “Era para ter graça, mas denota arrogância que não fica bem a quem dirige um partido como o PSD”, disse Coelho que levantou outra “hipótese”: “Se calhar não foram porque sabiam que ia lá o Rui Rio. Há essa hipótese”.

Para Coelho não é o “momento de voltar atrás”, nem de “meter em aventuras” ou “magias”. É assim que classifica o discurso de Rio: “Sim, porque prometer tudo a todos é fácil”, atira apontando às propostas do PSD que os socialistas têm atacado por considerarem impossíveis de cumprir.