O Rocha já tinha acabado as palavras cruzadas e passado ao Sudoku. Estava numa ponta do Pérola e a televisão na outra, mas os oito por seis metros de parede de pedra deixavam ressoar o som de fundo: começavam as previsões para a noite eleitoral que guardava “um cantinho” para Tino de Rans no parlamento.

– “O Costa vai ganhar por maioria absoluta. Era melhor que ganhasse”, chuta Artur Rodrigues, com um gole de cerveja.
-“Tu foge das maiorias…”, pegou Nelo, o dono daquele café da freguesia de Rans.

Ali toda a gente apoia o Vitorino Silva, o cabeça de lista pelo partido RIR – Renovar, Incluir, Reciclar -, mas Artur votou CDU. “Tenho o cartão desde os 13 anos, menina”. Com mais de 60, já é muito hábito acumulado com eleições para estar agora a mudar o rumo da cruzinha. “Mas de resto, lá em casa tudo votou Tino”.

[Começa agora a prova dos nove. O filme da noite eleitoral]

Corre o rumor naquela ponta da aldeia de que a abstenção já falada àquela hora não se tinha feito notar em Rans. E pelo menos ali, o candidato não tinha de se preocupar em não ser votado em massa. O RIR foi um dos partidos que as últimas sondagens faziam acreditar passível de eleger pelo menos um deputado. Tino de Rans estava confiante.

A hora que marcou com os jornalistas para se encontrarem no café Pérola já tinha passado há muito. Talvez só chegasse pelas 20h, hora a que começariam a soltar-se as primeiras previsões de resultados. Na falta do candidato, estava presente o irmão.

José Manuel Silva veio de propósito da Bélgica para votar, porque “era o que mais faltava o meu irmão não ser eleito pela falta do meu voto”. Passagem curta, no dia seguinte voa logo às 11h20 da manhã para o centro da Europa – pelo menos é isso que diz o bilhete eletrónico de avião que mostrou ao Observador. Só não chegou um dia antes das eleições porque os chefes belgas entenderam o motivo e foram flexíveis nas abébias. Mas a conversa é sol de pouca dura. Quando bate o quarto de hora para as oito da noite, também José vai embora do café. “Gosto de estar sossegado em casa com o comando na mão”.

Por essa hora, no café Pérola, se quiséssemos medir a percentagem de apreciação das eleições legislativas, era um empate de cavalheiros. Dois homens estão coladas nas sondagens que passam na televisão, mas outro dois ignoram-nas. Tino nem vê-lo: nem nas sondagens, nem no café. Ao telefone, mesmo com uma distância de 100 metros a separar-nos dele – ou não muito mais que isso – diz estar convencido de que ainda vai eleger deputados.

Depois do jantar, quando Nelo começa a despejar “é café?” pelos clientes, adivinhando-lhes já o pedido, chega o cunhado de Joaquim Rocha, Avelino da Cruz – ainda com o jornal na mão mas já sem o sudoku. “Isto devia ser como no Brasil… Obrigatório”, comentou, mas rapidamente a tónica se pôs no candidato da terra.

-“Ele já subiu nas sondagens?”
-“Do Tino não vi nada”, respondeu-lhe Joaquim, fitando a televisão.
-“Eles estão todos a festejar, mas com 45% de não-votantes não deviam…”
E ao fundo alguém grita: “Já chegou o homem da funerária. Veio levantar as urnas”.

Às nove é hora de ponta no Pérola. Nelo não tem mãos a medir. Veio tudo a tempo de ver o discurso de Assunção Cristas, capaz de calar o café. Tino ainda não chegou, “só pode estar a gozar”, desconversa Avelino da Cruz. Mas percebe-se. Olhando para a televisão, “rir é zero”. Chegou-lhe a filha para o colo com os números exatos daquela freguesia: Tino (282 votos) tinha perdido para o Partido Socialista por cinco votos. No concelho de Penafiel, destacou-se em quarto lugar, com 5,56% dos votos, atrás do PS, do PSD e do BE.

Estava a perder-se a esperança pelo candidato que foi uma das grandes surpresa das eleições presidenciais de 2016, ganhas por Marcelo Rebelo de Sousa. Por essa altura, Tino de Rans atingiu 3,29% com mais de 150 mil votos.

“Chiu!”, grita-se perto da televisão. O pivot da SIC falou no Tino para noticiar o feito de nem na sua própria terra ter ganho.

-“Até na televisão falam dele e ele não aparece…”
-“Eu a vestir as minhas melhores calças porque o Tino ia falar para a televisão e agora ele não vem?”

Mas Tino sempre apareceu, de blazer preparado mas com pressa, ainda assim, para agradecer à dezena de pessoas que o esperaram e convidar a comunicação social a subir ao “quartel general”. Lá tinha a comitiva do partido à mesa e o conforto da casa de todos os dias.

Pela presença parasítica dos jornalistas, começa-se rapidamente a arrumar a mesa e a comer as últimas fatias de bolo, para que uma faixa grande do partido possa ser posta em cima da mesa para adorno. “A minha camisola, Céu?”, pergunta Tino à mulher.

Sob as palmas da comitiva, para quem o resultado foi uma vitória, Tino de Rans prometeu não esperar pelas próximas eleições legislativas para voltar a concorrer, até porque “há eleições autárquicas” pelo meio e, na opinião do candidato, “olhando para a competição da bancada, não há dúvidas de que podemos ir a eleições legislativas mais cedo”. O RIR não morreu hoje, para Tino. Podem mandar o homem da funerária embora.