Escolher um par de ténis, sabemos, é um exercício de gosto e de personalidade. Que o digam os quatro sócios da Diverge, marca portuguesa que há cerca de seis meses nasceu sob a forma de plataforma online. O forte é a personalização ao detalhe. Componente a componente, o design e as ferramentas de produção são postas ao inteiro dispor do cliente, permitindo-lhe escolher desde a cor da sola ao material de que são feitos os atacadores. Resultado? Milhares de combinações possíveis e todas elas apreciáveis através de um realista simulador 3D.

Os objetivos são ambiciosos mas sustentados — a marca quer inverter a lógica que, há décadas, pauta a lei da oferta e da procura. Sem stocks e numa guerra declarada ao desperdício, cada par é produzido sob encomenda. “A maioria das marcas funciona com grandes quantidades e pouca variedade de produto. As pessoas consomem o que a indústria decide produzir, mas nós acreditamos que, no futuro, será ao contrário”, afirma João Esteves, um dos quatro empresários à frente da marca. Em vez de consumidores passivos, querem cultivar um ideal de cidadão responsável por ditar o que quer e como quer comprar, em quanto tempo a indústria produz e com que materiais o faz.

Minimal, os ténis de design limpo da Diverge

Um desafio que não facilitou a vida a ninguém durante os últimos meses. No caso de Maria Neves e de Inês Pinto de Almeida, outras duas intervenientes, foi um ano e meio de uma busca árdua. Afinal, numa indústria maioritariamente formatada para produzir em massa, nem sempre é fácil encontrar quem faça um par de ténis diferente todos os dias. Em Felgueiras, descobriram uma fábrica disposta a laborar em sintonia com esta metodologia. Em dez dias úteis, os ténis ficam prontos e seguem para qualquer parte do mundo. Em armazém, o volume de matéria-prima é também ele reduzido ao mínimo indispensável. Aqui, a filosofia de uma compra consciente começa a montante, segundo explica Maria, responsável por trazer para o negócio uma longa experiência em e-commerce, determinada contornar os vícios dos grandes stocks.

Já Inês, a quem coube desenhar os seis modelos que agora apresentam a Diverge ao mundo, teve de pensar estes ténis para serem uma tela em branco, mas também nas diferentes formas de personalizá-los. Depois de sete anos em Itália, onde trabalhava para a Kering (grupo que detém marcas como Gucci, Yves Saint Laurent, Balenciaga, Alexander McQueen e Bottega Veneta), regressou e surpreendeu-se com a qualidade da produção portuguesa.

Os Landscape são um desafio à personalização

Foi ao transpor a fotografia de uma paisagem para uma forma de calçado que desenhou os Landscape, modelo recortado que pode ir do mais minimal dos exemplares em lona aos statement sneakers que combinam pele e camurça. Para os próximos meses, a meta é desenvolver um modelo totalmente reciclável. “Em breve, vamos começar também a trabalhar com borracha reciclada. Para já, continuamos a usar materiais de origem animal. O couro sintético é uma alternativa, mais ainda é produzido com recurso a vários produtos tóxicos”, assinala a designer.

A restante oferta pretende encontrar uma solução para outros perfis de cliente. Os Minimal surgem como resposta aos apreciadores de uma estética mais limpa — feitos em pele, quase sem costuras e com uma pala sobre os ilhoses –, também disponível numa versão bota. Seguindo o mesmo registo, os Slip-on trocam os atacadores por elásticos. Os Ziggy, à semelhança dos Landscape, assumem-se como os mais recentes chunky trainers portugueses, misturando, neste caso, materiais técnicos.

João Esteves e Maria Neves, dois dos quatro sócios da Diverge

Atualmente, João, o homem que já passou pelo marketing e pela gestão de empresas como a Unilever, a Super Bock Group e a Lego, Maria e Inês estão dedicados em exclusivo ao desenvolvimento da marca. Sobra Ricardo Caupers, a viver em Londres, depois de uma carreira construída na área da consultoria financeira e de um MBA em Harvard. Para lançar a Diverge no mercado, o investimento rondou os 400.000 euros, capital reunido pelos quatro sócios, assim que perceberam que os ténis eram um gosto partilhado. Os ténis e a vontade de erguer o próprio negócio.

A ideia de terem um negócio próprio nasceu, contudo, há 20 anos. João e Ricardo foram colegas no curso de Gestão de Empresas na Universidade Católica e no último ano trabalharam juntos num projeto empresarial para uma das cadeiras. Na altura, focaram-se em máquinas de venda automática de produtos alimentares, mas rapidamente perceberam que não tinha o potencial que gostavam. Estava dado o primeiro passo. Apesar de, depois, terem ido viver para continentes diferentes, os dois amigos nunca perderam a ambição de avançar com um projeto seu. Conseguiram-no duas décadas depois, já com Maria e Inês a seu lado.

Entretanto, as encomendas da Diverge já seguiram caminhos tão longínquos como os que levam à Austrália, à Indonésia e às Filipinas. Ainda assim, a estratégia de comunicação prepara-se agora para apontar a mira aos mercados que a equipa considera decisivos para a progressão da marca — Reino Unido, Norte da Europa e Estados Unidos.

O crescimento passará, necessariamente, pela angariação de novos investidores, bem como pelo aperfeiçoamento das ferramentas virtuais. Depois das milhares de combinações possíveis e da imediata visualização do produto personalizado, a equipa já pensa em apostar em tecnologia que permita, à distância e a partir do telemóvel, adaptar o calçado à morfologia de cada pé. Por outro lado, sem coleções sazonais, a marca quer concentrar-se em lançamentos pontuais e parece que há mesmo um novo modelo a vir cá para fora em breve. Agora, é internacionalizar o produto. A primeira campanha vai arrancar em Londres, palco privilegiado para o made to order costumizável português.

Os ténis são produzidos em Felgueiras, sem stocks e apenas sob encomenda

Nome: Diverge
Data: 2019
Pontos de venda: loja online
Preços: de 150 a 240 euros

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