As forças curdas na Síria apelaram este sábado aos EUA para assumirem “as suas responsabilidades morais” e para “respeitarem as suas promessas”, depois de terem abandonado os seus aliados à mercê das ofensivas turcas.

O Presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou no domingo a retirada das forças militares da Síria, que lutavam ao lado das milícias curdas contra o Estado Islâmico, permitindo uma ofensiva militar da Turquia no nordeste sírio, que dura há quatro dias. “Os nossos aliados garantiram-nos a sua proteção (…) mas de repente (…) abandonaram-nos com a decisão injusta de retirar as suas tropas da fronteira turca”, disseram este sábado as Forças Democráticas da Síria, num comunicado.

Este mesmo argumento está a ser usado contra o Governo de Donald Trump, por vários países da comunidade internacional, bem como pelas forças políticas nos Estados Unidos, incluindo o próprio Partido Republicano, que apoia o Presidente norte-americano.

Ainda este sábado, a Liga Árabe, que reúne 22 países da região, alertou para os riscos de uma vaga de deslocados e para a ameaça de retrocesso no combate contra o Estado Islâmico, apelando ao fim da ofensiva turca.

O apelo das milícias curdas acontece no dia em que o Crescente Vermelho Curdo anunciou que os ataques da Turquia, iniciados na quarta-feira, já provocaram a deslocação de cerca de 200 mil pessoas e que o número de mortos civis subiu para 34.

O diretor de saúde daquela organização não-governamental, Sherwan Bery, acrescentou que também já há 71 feridos, entre a população civil afetada pela ofensiva turca, atingidos por bombardeamentos e disparos de artilharia.

Bery disse ainda que um dos ataques do exército turco atingiu diretamente um dos postos de assistência do Crescente Vermelho Curdo, a sul da cidade de Ras al Ain, na fronteira entre a Síria e a Turquia, ferindo dois funcionários da organização e destruindo duas ambulâncias.

MSF dizem que não é ainda possível quantificar violência, mas falam em situação “incrivelmente frágil”

O Diretor de Emergência para a Síria dos Médicos Sem Fronteiras, Robert Onus, diz que não é possível quantificar a violência resultante do ataque da Turquia contra os curdos, mas fala num cenário de medo: “É muito delicado. Não consigo precisar qual o nível de violência deste conflito. O que sabemos é que as pessoas estão com medo e a abandonar as suas cidades e vilas e acho que isso é um indício suficiente”, afirmou à Rádio Observador, destacando que esta é uma situação que se está a tornar “incrivelmente frágil” à medida que o tempo passa.

“Para um grupo de pessoas que tiveram de sobreviver a oito anos de guerra, este é mais um momento em que sofrem por causa do conflito…”, lamenta-se o dirigente da ONG Médicos Sem Fronteiras, que destaca a situação dos curdos e sírios que estão em campos de refugiados e que, portanto, estão numa situação ainda mais frágil.

Os ataques turcos têm-se centrado na zona fronteiriça, durante este sábado, sendo a cidade de Ras al Ain um importante ponto de entrada para as tropas da Turquia no território sírio.

O ministério da Defesa turco escreveu este sábado, na sua página da rede social Twitter, que a cidade de Ras al Ain foi hoje tomada, “como resultado de ações bem sucedidas na operação Fonte da Paz”.

O ministério turco acrescentou ainda que assumiu o controlo de uma estrada entre Qamishli e Manbech, duas das mais importantes cidades do nordeste da Síria, uma via que cobre cerca de 500 quilómetros ao longo da fronteira que Ancara aspira controlar para criar uma “zona segura”, livre de milícias curdas.

Será nessa região que a Turquia quer realojar os refugiados sírios que neste momento se encontram em território turco.