A última noite em Barcelona teve barricadas incendiadas, lançamentos de pedras e vandalismo, acompanhadas de cargas policiais e balas de borracha. Mas podia ter sido pior. O jornal La Vanguardia destacou esta madrugada o papel dos cordões humanos, pacíficos, que terão impedido mais investidas radicais.

Os grupos de voluntários, de várias entidades independentistas, estiveram bem organizados, segundo o La Vanguardia, colocando-se na cabeça dos protestos para evitar confrontos violentos entre os manifestantes mais radicais e a polícia — como se pode ver no vídeo filmado pelo jornal. Sem essa salvaguarda, diz ainda, a violência poderia ter voltado aos níveis que teve noutras noites.

A Via Laietana, uma das mais importantes avenidas de Barcelona, que liga a marina (Port Vell) à praça Urquinaona, foi o palco desta estratégia de catalães que defendem a independência de forma pacífica.

Pouco depois das 17 horas (18h locais), grupos de Organizações Não Governamentais como En Peu de PauBombers per la RepúblicaSanitaris per la RepúblicaAgents Rurals per la República, Open Arms, entre outros, estiveram dispostos “de forma algo irregular” num primeiro momento, mas, com o passar do tempo, “mantiveram-se firmes, dando os braços” e sentaram-se, de acordo com o jornal.

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A manifestação foi controlada por um forte aparato de segurança, com a polícia catalã — Mossos d’Esquadra — a fazer revistas a quem se aproximasse daquelas ruas centrais de Barcelona.

Ainda houve um momento de tensão, quando várias carrinhas da polícia chegaram ao local com reforços, mas “um grupo que parecia estar já muito preparado” sentou-se e “evitou o choque”, de acordo com o La Vanguardia.

A manifestação inicial foi convocada pela Arran — organização de jovens que defende a independência da Catalunha — para as 17 horas (18h locais) na praça Urquinaona, onde já se tinham verificado episódios de grande violência na noite anterior. Mais tarde juntaram-se ao apelo os Comitès de Defensa de la República (CDR), que têm estado muito ativos também nos protestos desta semana.

E foi para esse local — mas meia hora antes — que foram convocados os moderados. Gabriel Rufián, político e ativista do partido catalão independentista Esquerra Republicana de Catalunya (ERC), que tem 15 deputados e 13 senadores em Espanha, apelou a uma manifestação pacífica com o objetivo de criar uma “barreira humana da sociedade civil”. Era importante, dizia, fazer face à “violência de bastão e barricada”.

Está em causa “uma convocatória a todas as organizações, entidades e gente de paz” para “defender o direito legítimo ao protesto e baixar a tensão destes dias”, podia ler-se no Twitter.

A manifestação pacífica acabou por evitar males maiores. Terá sido sol de pouca dura? O La Vanguardia admite que possamos estar perante “um sintoma de mudança de estratégia nas ruas”, mas também reconhece que o cordão humano desta noite possa ser “apenas uma flor no deserto”.

Sexta noite de violência, fomentada por 2 mil radicais

Ainda assim, apesar do cordão humano, houve violência naquela zona, com manifestantes a lançarem pedras à polícia e a queimarem caixotes do lixo. O número acumulado de fogueiras feitas no espaço público foi tal nos últimos dias que o jornal catalão chega a dizer que “já resta pouco material nas ruas que possa servir de combustível”.

No total, segundo o El País, que cita a polícia espanhola, são dois mil os jovens radicais que fomentam os distúrbios na capital da Catalunha. As autoridades dizem que o grupo se divide sobretudo entre militantes revolucionários, que querem a independência da região, mas também anarquistas. Este é considerado o núcleo duro, mas há mais: conta com um reforço de outros 1.500 manifestantes, muitos deles estudantes, para espalhar a violência, de acordo com o jornal. Grande parte serão espanhóis, mas também há estrangeiros, nomeadamente de Itália e Grécia.

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O El País lembra que só os canhões de água travaram, na última sexta-feira, uma batalha campal que durou mais de sete horas. Foram lançados cocktails molotov, berlindes (através de fisgas), garrafas com ácido e pirotecnia. Foram ainda queimados mil contentores de lixo. Como resposta tiveram balas de borracha e gás lacrimogéneo da polícia, que não os conseguiu desmobilizar.

Munidos de máscaras, e por vezes capacetes e cotoveleiras, esses manifestantes — que o El País diz serem “anti-sistema” — estão bem organizados, comunicando por rádio e tendo divisão de tarefas durante os protestos.

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“Estão treinados”, de acordo com a polícia, que dá o exemplo de quando uma carrinha dos Mossos foi encurralada. Os manifestantes terão tentado forçar a porta traseira e perfuraram o depósito de gasolina com uma picareta, deitando-lhe fogo de seguida, segundo fontes policiais citadas pelo El País.

O jornal espanhol, que fala na “pior crise de segurança com que alguma vez os Mossos tiveram de lidar”, nota que houve, nos diferentes protestos desta semana, “uma primeira linha, em que mais de 2 mil pessoas tiveram uma atitude muito violenta” contra a polícia e só depois uma segunda linha, “que se calcula poderem chegar às 10 mil pessoas, quase todos estudantes, que conversam e bebem algo” a 300 metros de distância.

O cenário também foi mudando. O jornal lembra que, na segunda-feira, os protestos centraram-se no aeroporto; na terça-feira já mudaram para a Delegação do Governo; na quarta-feira estiveram em frente ao Departamento do Interior da Generalitat; na quinta-feira houve dois protestos em simultâneo; e tanto na sexta-feira como neste sábado os palcos dos protestos foram a praça de Urquinaona e o Tribunal Superior de Justiça.

A polícia catalã terá sido apanhada de surpresa com o nível de violência e, de acordo com o El País, teme que esta guerrilha urbana atraia mais militantes do estrangeiro.