O documentário foi emitido no domingo à noite pela ITV e começou por chamar as atenções quando, nos últimos dias, foram revelados alguns excertos da entrevista a Meghan Markle. Em “Harry and Meghan: An African Journey” — o documentário que acompanhou o casal durante os dez dias em que este viajou pelo continente africano —, a duquesa de Sussex surgia a falar sobre a pressão da maternidade e da imprensa, num discurso que rapidamente se condensou na frase: “Não, não está tudo bem”.

Agora a surpresa vem também das palavras do príncipe Harry, tornadas públicas com a emissão do documentário completo. Entrevistado também pelo jornalista John Bradby, Harry fala das eventuais desavenças com o irmão, William. “Faz parte deste papel, deste trabalho, desta família. Quando se está debaixo desta pressão, algumas coisas acontecem, inevitavelmente”, respondeu o príncipe Harry, quando questionado pelo jornalista Tom Bradby sobre a veracidade das notícias sobre uma possível desavença com o irmão.

“Mas repare, somos irmãos, vamos ser sempre irmãos. Neste momento, estamos em caminhos diferentes, mas vou estar sempre lá para ele e sei que ele vai estar sempre lá para mim. Não nos vemos tantas vezes como costumávamos porque andamos muito ocupados, mas eu amo-o. A maioria destas coisas [na imprensa] é criada do nada, mas, como irmãos, temos dias bons e dias maus”, concluiu o príncipe, de 35 anos.

Kate Middleton, William, Harry e Meghan © Getty Images

Mais de dois anos depois de ter falado pela primeira vez sobre as dificuldades em lidar com a exposição pública — o que aconteceu durante uma entrevista para um podcast do The Telegraph –, Harry voltou a abordar o tema. “É uma gestão constante”, admitiu. “Faz parte deste trabalho, como faz parte de qualquer trabalho, para toda a gente, assumir uma atitude corajosa e virar a cara a muitas destas coisas. Mas é claro que, para mim e para a minha mulher, muitas destas coisas magoam”, continuou.

Harry: “Não me vão obrigar a entrar no jogo que matou a minha mãe”

“Não me vão obrigar a entrar no jogo que matou a minha mãe”, confessou também o príncipe, depois de, numa versão mais curta do documentário transmitida na semana passada, ter feito referência à morte da mãe como uma “ferida que alastra” e que lhe traz recordações cada vez que vê uma câmara. “Claramente, a minha mãe ensinou-me um determinado conjunto de valores que vou sempre defender. Sempre pensei que tinha de proteger a minha família e agora tenho uma família para proteger”, declarou na entrevista. “E qualquer um que soubesse o que sei — sendo pai, sendo marido — teria feito exatamente o que estou a fazer”, concluiu.

Questionado sobre a postura do casal durante a viagem ao continente africano, considerada por muitos como “uma nova forma de fazer as coisas” dentro da família real, o príncipe respondeu que, na sua opinião, não existe uma nova forma nem uma velha forma. “Estamos a tentar fazer o que é natural para nós, estamos a ser autênticos”, referiu.

Archie, o filho de cinco meses de Meghan e Harry © Getty Images

Sobre a possibilidade de prolongarem a estadia em África, de passarem a residir em permanência no continente ou de se mudarem para os Estados Unidos, Harry e Meghan dissipam os rumores. A Cidade do Cabo seria um “ótimo sítio” para ficarem, segundo afirmou o príncipe, mas as questões logísticas e os problemas que a região atravessa inviabilizam a mudança, sobretudo com Archie, um bebé de cinco meses.

A família real: “Acho que eles vão ficar bastante horrorizados”

Transmitido no domingo à noite, o documentário já suscitou reações por parte da família real britânica. À BBC, uma fonte do Palácio de Kensington, que não emitiu comentários oficiais, afirmou que William está “preocupado” com o irmão mais novo e que, dentro do palácio, predomina a ideia de que o casal Sussex se encontra “numa posição de fragilidade”.

Citado pelo Daily Mail, o comentador real Phil Dampier já veio dizer que vários membros da família real, “da Rainha para baixo”, consideram “muito sérias” as declarações de Harry no documentário. “Eles estão a ser mal aconselhados ou então a ignorar os conselhos que lhes dão”, acrescenta o comentador, referindo-se ao casal Sussex. Outro comentador, Penny Junor, define as declarações do casal como um “erro enorme”. “Isto começa a soar um bocado a queixume. Este não é o Harry que conhecemos e que amamos”, referiu ainda o especialista. Já Jonny Dymond, correspondente real da BBC, já veio também sublinhar a mensagem — “Acho que eles [a família real] vão ficar bastante horrorizados, na verdade”.

Meghan: “Não faças isso porque os tabloides britânicos vão destruir-te a vida”

Para a avaliação da casa real contarão também as declarações de Meghan no mesmo documentário. Os excertos avançados nos últimos dias já deixavam antecipar uma conversa explosiva, mas agora, com a transmissão da entrevista na íntegra, as confissões do casal parecem ter subido de tom.

A entrevista foi transmitida cerca de duas semanas depois da notícia que dava conta de ações legais movidas pelo casal contra jornais, entre eles o Mail on Sunday. A relação com a imprensa britânica, em particular com os tabloides, voltou agora a ser tema de conversa, com Meghan a admitir ter sido avisada sobre o impacto que estes poderiam vir a ter na sua vida, após o casamento com Harry. “Quando conheci o meu atual marido, o meus amigos ficaram muito felizes, porque eu esteva muito feliz. Mas os meus amigos britânicos disseram: ‘Ele é fantástico, de certeza, mas não faças isso porque os tabloides britânicos vão destruir-te a vida'”, revelou, após ter hesitado em frente à câmara. “E eu inocentemente — sou americana, não sentimos isso lá — questionei o que estavam a dizer. Não fazia sentido, não percebia. Por isso, sim, tem sido complicado”, completou.

Harry e Meghan durante um evento na semana passada em Londres © Getty Images

“Nunca achei que ia ser fácil. Mas achei que seria justo. E essa parte é mesmo difícil de conciliar”, disse a duquesa. “Eu tentei mesmo adotar esta inabalável sensibilidade britânica. Tentei, tentei mesmo. Mas agora acredito que o efeito disso, cá dentro, é realmente destruidor”, afirmou ao jornalista Tom Bradby. “Durante todo este tempo, tenho dito ao H — é como lhe chamo — sobreviver a algo não é suficiente, certo? Não estamos nessa fase da nossa vida. Tens de crescer, tens de ser feliz”, desabafou. Quanto ao futuro, Markle, de 38 anos, acrescentou: “Não sei. Apenas vives um dia de cada vez”.

Os privilégios de fazer parte da família real britânica foram outro dos aspetos que transformaram o casal num alvo de escrutínio público. Polémicas como a dos jatos privados e a das obras em Frogmore Cottage colocaram a nome e a imagem de Markle no centro de um ataque. “Quando faço uma coisa errada, sou a primeira a dizer: ‘Ó meu Deus, peço desculpa, nunca mais volto a fazer isto’. Quando as pessoas dizem coisas que, simplesmente, não são verdade — foi-lhes dito que não era verdade e elas continuaram a poder dizê-las… Não conheço ninguém no mundo que convivesse bem com isso”, recordou. “Isto é diferente do simples escrutínio. É… o que é que lhe vou chamar? É outro monstro, é claramente um monstro diferente”, referiu, sem especificar, no entanto, histórias ou casos mediáticos.

Meghan: “Antes de fazer parte desta família, era assim que me identificava”

Sobre o discurso feito na África do Sul, quando se apresentou “como mãe, como esposa, como mulher e como mulher de cor”, Meghan afirmou, em primeiro lugar, que contou com o apoio do marido. A opção de se dirigir às ouvintes como “vossa irmã” terá sido uma decisão de última hora. “Porque é verdade: antes de fazer parte desta família, era assim que me identificava”, reafirmou.

Meghan Markle durante a viagem a África © Getty Images

Ao mesmo documentário, Markle revelou ter tido a esperança de que o seu casamento com Harry não fosse visto de uma perspetiva racial. “Esperava que o mundo já tivesse chegado a um ponto em que nos veria apenas como um casal apaixonado. Quando acordo de manhã, vejo-nos como o que sempre fomos. Sou a Meghan e sou casada com este homem incrível. Para mim, isso faz parte da nossa história de amor”, rematou.

Depois de algumas declarações de Meghan Markle divulgadas antes da transmissão integral da entrevista, o documentário “Harry and Meghan: An African Journey”, exibido na noite do último domingo, na ITV, trouxe novas confissões do casal Sussex. Até então, os desabafos de Markle limitavam-se a fazer referência à fragilidade inerente à gravidez e à nova experiência como mãe, agravada pela pressão da imprensa. Agora, no decorrer da entrevista, surgem afirmações sobre a adaptação à família real, ao constante escrutínio público e ao futuro do casal e do bebé Archie.