Diz não gostar de seguir modas na investigação, não o incomoda não ter um doutoramento como grande parte dos investigadores e garante que não se vai “reformar” tão cedo nem “fazer um caminho só de vitórias”. Peter J. Ratcliffe foi um dos três vencedores do Prémio Nobel da Medicina de 2019 e acredita que muito na sua área “vai mudar” depois deste prémio, especialmente em termos de visibilidade. Mas há uma coisa que diz não se alterar: a vontade em continuar o trabalho que começou há quase 30 anos.

Juntamente com William G. Kaelin e Gregg L. Semenza, o britânico foi reconhecido pelas descobertas sobre como as células sentem e se adaptam à disponibilidade de oxigénio, algo que veio abrir portas a novas estratégias no combate a doenças como a anemia e o cancro. Peter J. Ratcliffe esteve em Lisboa, na 11.ª edição da iMed Conference, organizada pela Associação de Estudantes da Nova Medical School, para explicar como chegou até este resultado. E esteve à conversa com o Observador.

“O metabolismo do oxigénio é utilizado para fazer quase tudo o que o corpo precisa para construir novas células, para se mexer, para crescer. Todos os processos estão dependentes do oxigénio e é preciso levá-lo até às nossas células na quantidade correta, de forma muito precisa”, começa por explicar o nefrologista ao Observador. O seu trabalho ajudou a perceber de que forma é que as células se adaptam aos diferentes níveis de oxigénio e que influência têm estas mudanças nos processos fisiológicos, algo que até então não era propriamente conhecido. “A maior parte das doenças são complicadas pela falta de oxigénio em várias formas”, explica, acrescentando que, no caso da anemia, os investigadores conseguiram perceber que a produção de glóbulos vermelhos está diretamente relacionada com os níveis de oxigénio.

Tudo isto, explica, pode contribuir para a evolução no desenvolvimento de medicamentos para problemas que envolvem mecanismos mediados pela resposta do oxigénio. “O que os medicamentos para este sistema podem fazer é levar a que a célula pense que tem hipóxia [baixo nível de oxigénio] e que produza as respostas certas para proteger contra a hipóxia, incluindo produzir mais células para compensar esta falta de oxigénio. Esperamos que isto possa ser eficiente e seguro no tratamento da anemia em determinados pacientes”, acrescenta o investigador.

O caminho para chegar a estes resultados, explica Peter J. Ratcliffe, não foi fácil e envolveu várias tentativas falhadas, incluindo avaliações diárias que o grupo de trabalho fazia, sendo que “a maior parte delas estava errada”. E não só: como esta era uma área nova, havia também alguma dificuldade em conseguir publicar o trabalho em revistas. Um exemplo disso aconteceu em 1992, quando a revista Nature rejeitou a publicação de um artigo sobre esta investigação e salientou a falta de críticos especializados que pudessem avaliar o trabalho.

“Na altura não existia este campo de investigação. O mais habitual num artigo científico é enviá-lo para outras pessoas que estão a trabalhar no mesmo e perguntar se acham que está correto e se é importante. Neste caso, tiveram algumas dificuldades em encontrar alguém para fazer isso”, explica. Mas o investigador considerou que isto seria também um sinal de que estaria a fazer algo bem: “Se alguma vez receberem uma carta destas, estão no bom caminho, porque é sinal de que estão a entrar numa nova área”.

Agora, 27 anos depois, a investigação recebeu o prémio Nobel. Foi a meio de uma reunião no seu laboratório, e depois de ser avisado pela secretária de que tinha uma “chamada vinda de Estocolmo”, que Peter J. Ratcliffe soube que era um dos três vencedores do Nobel da Medicina. Primeiro confirmou que não se tratava de uma partida —  “Temos de garantir que não é um dos nossos amigos a querer causar sarilhos e ouvir muito cuidadosamente o sotaque deles” –, depois continuou calmamente a sua reunião e só no final partilhou a notícia de que tinha sido premiado pela Academia.

Peter J. Ratcliffe, que é atualmente professor na Universidade de Oxford e diretor do departamento de investigação clínica no Instituto Francis Crick, em Londres, admite, no entanto, que o facto de estar a trabalhar numa área nova trouxe consigo alguns entraves, como a falta de vontade em ouvir a sua investigação e a dificuldade em conseguir publicar algo sobre os temas estudados. “Aquilo de que um investigador precisa é de uma nova área, mas a grande dificuldade é fugir da moda, encontrar algo novo que ninguém ache que é importante, que ninguém quer publicar, ninguém quer ouvir e ao fim de 20, 30 anos perceber que as coisas mudaram”, conta ao Observador.

Todos nos copiamos uns aos outros, somos muito preconceituosos com o que interessa e os cientistas não são diferentes do resto. Copiamos a moda. Analisamos a hipóxia e agora a hipóxia pode ser muito moderna e depois vem outra coisa. A grande dificuldade é sair disto”, explicou ainda o nefrologista ao Observador.

O Prémio Nobel, conta, vem “trazer mais pessoas à área e ao próprio mundo científico” que podem ter um papel essencial, até porque “a medicina por detrás disto tudo continua por completar”. Trabalhar com mais dois colegas de áreas diferentes foi, nas palavras do nefrologista, desafiante, mas positivo: “Somos concorrentes, somos cientistas, estamos a competir neste campo, publicamos o nosso trabalho e alguém pega nessa publicação, dá o passo seguinte e assim sucessivamente. Mas tenho o prazer de dizer que somos amigos, colegas e concorrentes”.

“Não posso dizer que daqui a 10 anos vamos vender milhões de dólares com um medicamento e uma cura”

No final da palestra que deu num auditório do Teatro Camões preenchido essencialmente por estudantes de Medicina, Peter J. Ratcliffe quis enviar uma mensagem aos jovens, encorajando-os a não terem medo de entrar em território desconhecido da ciência e a arriscarem, colocando novas perguntas. Ao Observador, o investigador explica que é essa a principal mensagem que quer passar, tendo em conta a sua experiência. “Tentem livrar-se dos vosso medos, das vossas ansiedades, tentem ser corajosos. O ambiente em que trabalham é de cientistas descobridores, não é muito perigoso. Tudo o que podem fazer é falhar e o preço a pagar é pequeno”.

Peter J. Ratcliffe esteve em Lisboa, na 11.ª edição do iMed Conference, organizada pela Associação de Estudantes da Nova Medical School (Claudio Noy Fotografia)

Questionado sobre quais as preocupações que tem atualmente no mundo científico, Ratcliffe explica quase de imediato que há “uma obsessão com a utilidade do pensamento” e que tanto políticos como investidores exigem que todo o conhecimento criado tenha já uma utilidade estimável no momento da sua criação. “Quem é que iria adivinhar o que é que a eletricidade iria trazer quando foi descoberta há vários anos? E, de facto, quem sabe o que é que esta investigação sobre o oxigénio vai trazer? O que posso dizer é que foi descoberta, não posso dizer é que daqui a 10 anos vamos vender milhões de dólares com um medicamento e cura. Não sei mesmo”, refere.

Para o investigador, “a utilidade da maior parte das coisas que foram descobertas não foi um parâmetro no momento da descoberta e não foi a força condutora por detrás dessa descoberta”. E termina: “Percebo a dificuldade das pessoas em entender isto, mas confiem: tem de ser assim”.