Lembra-se do polícia sinaleiro a orientar o trânsito nos cruzamentos, dos pregões das padeiras, do clique do alicate dos picas dos elétricos e dos vendedores ambulantes de gravatas? O jornalista e investigador Germano Silva recorda-os num livro, onde apelida o Porto como “a capital do trabalho”.

Num dos passeios que orienta, organizados pela Confraria dos Clérigos e pelo Museu e Igreja da Misericórdia do Porto, sugeriram-lhe escrever sobre os antigos ofícios evocados nas ruas por onde passava. “Como a Rua dos Mercadores, a lembrar os homens de negócios, ou a Rua dos Caldeireiros, que homenageia os que trabalhavam o ferro e a chapa.”

Habituado a estudar a história da Invicta, Germano Silva esteve o último ano a pesquisar a fundo sobre as profissões desaparecidas ou em vias de extinção. Dos engraxadores de sapatos às apanhadeiras de malhas dos anos 50, “mulheres que apanhavam as malhas das meias de vidro, feitas em nylon”, o autor confessa que a profissão que sente “mais saudade e nostalgia” são os tipógrafos. “Eram homens cultos, sabiam ler e escrever, muitos próximos dos jornalistas, eram os primeiros a ter acesso a poemas inéditos e a livros científicos”, recorda, em entrevista ao Observador.

Os polícias sinaleiros que regulavam o trânsito da cidade tinham uma ocupação mais exposta e eram considerados autênticas figuras públicas. “As pessoas tinham uma grande estima por eles, pois consideravam que faziam um verdadeiro serviço público. No Natal até lhes deixavam presentes em determinados locais.”

Mas se umas profissões deixam saudades outras nem tanto. É o caso das carvoeiras, que carregavam cestos de carvão dos barcos, ou das carquejeiras, que subiam a Calçada da Corticeira com molhos de carqueja às costas. Apesar de serem tarefas fisicamente muito duras, que “nunca deviam ter existido”, fazem parte da história da cidade e, por isso, estão também registadas neste livro.

Germano Silva acredita que “muitas pessoas se vão rever” neste seu trabalho, onde distingue, por exemplo, a faceta das lavandeiras que chegavam de Matosinhos, Leça do Balio ou de S. Mamede de Infesta ao Porto, levantarem trouxas de roupa das famílias para depois as lavarem à mão no rio Leça.

De todas os ofícios que integram o seu nono livro para a Porto Editora, o autor destaca o pica do elétrico. “O meu pai era condutor de elétricos e deixou-me o alicate dele. Era uma profissão muito cansativa, passavam horas de pé e cambalear de um lado para o outro.” A profissão do pai não é, no entanto, que mais o fascina, prefere os malabarismos coloridos dos vendedores ambulantes de gravatas.

“Tinham uma tábua com gravatas de todas as cores e feitios penduradas e nunca ocupavam ruas com lojas de gravatas, por isso, andavam pelos cafés ou na Estação de S. Bento. Tinham um gesto quase de malabarismo que fazia com que as gravatas ondulassem, era um festival de cores, um elemento quase decorativo de certas ruas na cidade”, conta ao Observador.

“As pessoas são o melhor património de uma cidade”

Apesar de ter nascido em Penafiel, mudou-se para o Porto com apenas um ano de idade, onde permaneceu a trabalhar e a viver. Aos 88 anos é considerado um dos maiores conhecedores da história da cidade e numa altura em que o turismo abunda e a transformação urbana está à vista de todos, o jornalista olha-a “com otimismo”.

“O boom turístico que estamos a passar trouxe muitos benefícios. Existiam ruas histórias, como a Rua das Flores ou de Mouzinho da Silveira, completamente degradas, com prédios devolutos e abandonados. Hoje vemos tudo recuperado e eu sou a favor dessa renovação.”

No entanto, o jornalista considera que se está a dar “demasiada importância aos turistas e a esquecer os moradores”, dando mesmo um exemplo concreto. “Passo na Ribeira e já não vejo roupa a secar nas janelas porque já não mora lá ninguém, está tudo transformado em alojamento local. Isso entristece-me.”

Para Germano Silva, “as pessoas são o melhor património de uma cidade” e no Porto estão a ser “retiradas dos seus habitats naturais”. Se nos anos 50 os bancos compravam cafés para os transformar em agências, o investigador espera que os hotéis que vê “pegados uns aos outros na mesma rua”, um dia se transformem noutra coisa qualquer, pois “já não terão tanta utilidade como agora”.

Apaixonado e fascinado pela Invicta, Germano promete continuar a caminhar e a descobrir. “O Porto tem uma história única que nunca termina, estamos sempre a encontrar documentos novos que nos revelam novas facetas da cidade.” O próximo passeio guiado pelo cronista está marcado para o dia 3 de novembro, a partir das 10h, junto à Igreja dos Clérigos, cujo tema é a pegada judaica na cidade.