Título: Casa São Roque: o gestor e o arquitecto
Textos: Domingos Tavares e Teresa Portela Marques
Fotografias: André Cepeda
Desenhos: Daniel Duarte Pereira
Editores: Dafne Editora e FAUP
Páginas: 144, ilustradas
Preço: 15 €

Com um luminoso amarelo-açafrão pintado de fresco e um restauro integral, a Casa São Roque, em Lameira de Cima (Porto), abriu há dias as suas portas como centro de arte exibindo parte da colecção contemporânea do banqueiro Pedro Torcato Álvares Pereira, dando vida nova a um edifício pertencente à Câmara Municipal do Porto que de 1978 a 2016 o foi deixando decair até um tão miserável estado que a recuperação agora concluída parecia inverosímil — e desde já posiciona-se como forte candidata a prémios de arquitectura e reabilitação urbana, atendendo à magnífica envolvência de jardim público com invulgar colecção de japoneiras centenárias e, até, à sua posição numa parte da cidade actualmente em ousado processo de reinvenção urbanística. E com notável sentido de oportunidade, ou da mais conveniente celebração, que é a do conhecimento, a editora portuense Dafne dá-nos agora mesmo este livro — também ele fresco de tinta, portanto… — que, em linha com outras monografias de Domingos Tavares, fixa a pequena grande história da “serena residência” (p. 14) de António Ramos Pinto (1854-1947), irmão de Adriano e o gestor da conhecida companhia vinícola, uma velha moradia de periferia urbana modernizada por José Marques da Silva (1854-1944), o mesmo é dizer: adiciona nova, pequena peça ao puzzle da historiografia arquitectural do Porto, também ela uma construção em processo mas numa campanha reiterada (já aqui a acompanhámos algumas vezes) e sem equivalentes no panorama nacional, aliás bem carecido delas.

De facto, antes de focar a casa e respectiva quinta — uma construção vernacular típica do Noroeste português adaptada a habitação unifamiliar de classe média-alta, “exemplo discreto, até simpático, dessa arquitectura ostensiva de burguês rico” (p. 18) —, Tavares percorre, na Introdução e no capítulo inicial, “Para lá do Bonfim”, a história longa de “uma cidade montada peça a peça ao longo dos séculos” (p. 25), fortemente influenciada pela colónia de britânicos com interesses no controlo efectivo da exportação de vinhos da região, mas também pelo “internacionalismo voluntarista dos [seus] homens de negócios” e pelo exibicionismo de afortunados “brasileiros” de torna-viagem.

Não foram apenas a iluminação eléctrica, o telefone, o macadame e o automóvel os progressos da vida moderna. Tavares realça a chegada ao Porto da arquitectura do ferro, que no Palácio de Cristal (Thomas Dillen Jones, 1861), no telhado envidraçado do pátio do Palácio da Bolsa (Thomaz Soller, c. 1880) mas também nos Grandes Amazéns Hermínios, de directa inspiração parisiense (Joel Pereira da Silva, 1893), deixaram as suas expressões mais memoráveis. Foi, portanto, muito por via dos negociantes da Associação Comercial do Porto e destes seus dois arquitectos que um novo campo se abriu na “cultura construtiva” portuense, a que foram sensíveis as “forças dinâmicas da cidade”, apostadas em fixar e valorizar novas centralidades urbanas e construir as suas “exuberantes moradias privadas nas novas periferias” (p. 27): a Foz do Douro sem dúvida, mas também “o oriente rural”, onde à vista da estação ferroviária do Pinheiro de Campanhã e dos palácios setecentistas do Freixo e de Bonjóia, obras de Nazoni, pontuavam velhos solares de veraneio entre férteis quintas agrícolas e matas de caça. Forte declive garantia boa exposição solar a sul e vistas deslumbrantes sobre paisagem agrossilvícola em que o Douro serpenteia. Numa dessas quintas, a de Salgueiros, às Antas, com “fontes e tanques em esplêndidos jardins” (p. 29), estufas e viveiros de ar livre bem estimados pela “mão verde” do horticultor Jacinto de Matos (1864-1948) ajudariam-no a alcançar projecção ibérica, ele que também foi responsável pelos jardins da Casa São Roque, hoje parque municipal.

António Ramos Pinto foi um dos primeiros clientes do arquitecto Marques da Silva desde que regressou de Paris em 1897 — Raul Brandão, também: a sua Casa do Alto em Nespereira… —, pois encomendou-lhe um chalet na praia da Granja, a Vila Eugénia (1902-5), e arranjos nos armazéns da empresa em Gaia (p. 41), mas as intervenções deste na casa da Rua de São Roque da Lameira, que decorreram em 1900-12 (com a ampliação), são já uma consequência do casamento do gestor com Maria Virgínia de Castro, “bela viúva, culta e elegante” (p. 31), órfã prematura e neta herdeira do destacado “brasileiro” José Caetano Coelho Lousada, que antes tomara matrimónio com Narciso Leitão, joalheiro da Leitão & Irmão, com loja na Rua das Flores, do Porto, fábrica em Lisboa e sucursais em Paris e Londres. Virgínia ocupou a casa de família após a morte de Narciso em 1881 (algumas tias viviam na mesma rua), dedicando-se à floricultura em estufas aquecidas, que mandou construir. A fama das suas orquídeas “correu a cidade” (pp. 37, 129).

António também estava nos promissores negócios da fotografia, com loja na rua de Santa Catarina, 221, quando trocou alianças com ela em 1885, mas foi seguramente o boom comercial da exportação de vinho do Porto — em 1906, a Ramos Pinto ofereceria à cidade do Rio de Janeiro uma graciosa fonte em mármore esculpida por António Teixeira Lopes… — que proporcionou a transformação da casa em palacete “de dignificação dos seus utentes” (p. 43), “construindo urbanidade” (p. 38) é certo, mas sobretudo, afirma Tavares, assumindo — nesse “exercício de arquitectura”, e “operação dinâmica” a dois — o “sentido de modernidade e internacionalismo que se vinha impondo no quotidiano da comunidade burguesa portuense” (p. 39). Nada poderia comparar-se ao diálogo entre o dono “ilustrado no ambiente artístico da burguesia portuense” (p. 38), alguém que “conservava a alma de artista” (p. 39) e se distinguia como “personalidade forte e altamente interveniente” (p. 42), e o arquitecto — quinze anos mais novo que ele, note-se — que aprendera o método beaux-arts de pensar desenhando intensamente, até que decisões se fixem em esquissos rigorosos, sombreados e aguarelados com esmero artístico.

Domingos Tavares eleva a Casa São Roque a “caso paradigmático da síntese arquitectónica entre o desejo, com a sua componente de ambição e sonho, e a capacidade profissional do artista-arquitecto para entender os objectivos mais explícitos do dono da obra” e “as exigências e estilo de vida do agregado familiar residente” (p. 43). Nessa “parceria muito produtiva e carregada de soluções imaginativas, entre o arquitecto e o dono da obra” (p. 49), a “preocupação funcionalista do arquitecto” deu o braço à “sensibilidade moderna do chefe de família” (p. 52), tudo avançando passo a passo, em “gestão directa”, “condução da obra à vista, sem projecto global”, com “decisões sobre desenhos de ocasião” (p. 44), todo “um processo contínuo de autocorrecção” (p. 47) em que sobressai a “habilidade profunda do arquitecto” (p. 53), que Tavares admite ter tido a intervenção de José Teixeira Lopes no desenho das janelas na parte nova do edifício, como arquitecto muito próximo tanto de Ramos Pinto como de Marques da Silva.

Outras colaborações locais de máxima valia técnica foram chamadas a São Roque da Lameira. Além do estucador portuense Luís Pinto Meira, responsável pelos coloridos estuques revivalistas do Salão Nobre do Palácio da Bolsa, artistas de marchetaria criaram soalhos com mosaicos de “madeira de origem, coloração e texturas variadas” de “alguma complexidade e riqueza artística” (pp. 63-64), enquanto a famosa Fábrica de Cerâmica das Devesas forneceu belo mosaico hidráulico para a varanda-terraço, marquise, banhos e cozinha e a Fábrica do Cavalinho uma primeira série de painéis para rodapés exteriores com desenhos arte nova da mão do próprio Marques da Silva. E para fazer o pleno na agregação de talentos portuenses, António Ramos Pinto chamou o já referido Jacinto de Matos, reputado projectista de parques e jardins públicos e privados (“casas na cidade ou em quintas de recreio fora da urbe para a burguesia do Porto”, p. 125), entre os quais o do Palácio da Brejoeira, perto de Melgaço, e o da Quinta de Serralves, e que Teresa Portela Marques considera poder ter sido co-autor, com Marques da Silva, do pequeno jardim de inverno (p. 128) que é uma das originalidades e maravilhas desta Casa.

Mais ainda: como fundamenta no seu texto a autora da tese de doutoramento Dos Jardineiros Paisagistas e Horticultores do Porto ao Modernismo na Arquitectura Paisagista em Portugal (2009) — ainda inédita, por incrível que pareça, mostrando até onde vai a desatenção dos editores que temos… —, António Ramos Pinto e sobretudo Maria Virgínia de Castro, pelo ramo da família Lousada, tinham “relações especiais” com outro horticultor de nomeada, José Pedro da Costa, um dos fundadores da Sociedade Nacional de Horticultura de Portugal, em 1898, a quem o gestor cedeu em 1906-8 terrenos seus, no outro lado da rua, para horto e residência deste, a quem são atribuídos trabalhos no socalco do roseiral e das estufas para orquídeas.

Cem anos depois, muita coisa mudou para pior na Quinta de São Roque, mas o parque municipal, com as suas 72 “camélias centenárias notáveis” (v. pp. 138-39), é sem dúvida um encantador recanto de cidade, agora valorizado por um centro de arte de iniciativa de um coleccionador privado que quer “contribuir para que a oferta cultural do Porto tenha cada vez mais qualidade e seja cada vez mais aberta ao mundo” (Álvares Ribeiro, p. 9). De alguma forma, esta é também uma homenagem a António Ramos Pinto, “um cidadão da modernidade” (Tavares, p. 66).

A primeira exposição da Casa São Roque, Centro de Arte, é da artista Ana Jotta, e está patente até 8 de Março de 2020.