Trabalhadores dos transportes, professores, magistrados e médicos iniciam na terça-feira uma greve generalizada contra a reforma do sistema de pensões em França, numa altura em que se debate a provável paralisia do país em época de festas.

A mobilização será um sinal de alerta para o governo, mas todos os sindicatos pediram aos trabalhadores que representam que façam uma “greve decisiva” e uma grande manifestação na terça-feira.

A reforma do sistema de pensões em França tem causado muita contestação, com uma greve de transportes a cumprir esta segunda-feira o seu 12.º dia consecutivo e sem solução à vista, com governo e sindicatos a acusarem-se mutuamente por uma possível paralisia do país durante as festas.

Os transportes públicos em Paris e noutras grandes cidades francesas, nomeadamente os comboios, registam grandes perturbações ou estão mesmo interrompidos, na véspera de uma nova manifestação nacional contra a reforma do sistema de pensões apresentada pelo Presidente Emmanuel Macron.

Esta segunda-feira de manhã, pouco antes das 8h, registavam-se engarrafamentos de vários quilómetros em todas as entradas de Paris e o ambiente era crispado, com carros, bicicletas, motocicletas e trotinetas a disputar estradas e passeios com os peões em pleno dia de chuva abundante.

Apesar do ambiente e de o cenário de uma manutenção da greve durante as festas até final do ano se mostrar cada vez mais provável, não há sinais de aproximação entre governo e sindicatos. “O governo está a cometer um erro grave em termos de justiça social e também um erro político profundo se continuar a insistir na sua posição”, avisou esta segunda-feira o secretário-geral do sindicato CFDT, Laurent Berger.

O CFDT é o maior sindicato francês e único grande sindicato que apoiava, até à semana passada, o objetivo do governo de criar um sistema universal de pensões. A situação mudou quando o sindicato ficou a saber que o executivo defende uma idade equilíbrio de 64 anos, que permitirá a majoração da pensão de quem decidir deixar de trabalhar mais tarde.

Apesar de Laurent Berger ter pedido uma “trégua” na greve dos transportes durante o Natal, o seu colega e sindicalista da CGT, Philippe Martinez, já avisou que a paralisação continuará se o projeto não for retirado. “Se o governo retirar seu projeto e pudermos discutir seriamente uma forma de melhorar o sistema (…), tudo ficará bem. Caso contrário, os grevistas decidirão o que devem fazer na quinta ou na sexta-feira”, afirmou o líder da CGT, sindicato que representa a maioria dos trabalhadores do setor ferroviário.

Fazer greve é legítimo, mas podemos respeitar momentos como as férias de fim de ano, quando toda a gente quer voltar para casa e para perto da sua família”, apelou esta segunda-feira a ministra da Transição Ecológica, Elisabeth Borne, em declarações feitas à França 2, considerando “irresponsável estragar as férias dos franceses”.

A oposição comunista e a esquerda radical acusaram, por seu lado, o governo de estar a “fazer chantagem” emocional para conseguirem travar a greve numa altura em que se prevê maior necessidade de utilização de transportes.

Esta segunda-feira, os camionistas começaram a organizar bloqueios e marchas lentas em várias cidades para exigir melhores condições de trabalho e salários. Ao mesmo tempo, várias universidades anunciaram que vão adiar os exames de final de ano devido às dificuldades de transporte.

O novo sistema universal de pensões, que vem substituir os 42 sistemas de pensões que existem no país, vai começar a ser discutido na Assembleia Nacional a partir fevereiro e deverá entrar em vigor em 2022 para os trabalhadores mais jovens e em 2025 para as gerações nascidas a partir de 1975.