Num dia em que se votou quem votava o voto (parece confuso? Também o foi para os congressistas, já explicamos), houve gritos, apelos à calma, aplausos e também apupos. O Livre entrou dividido e saiu dividido. Motivo? Numa palavra: Joacine. Resultado: a decisão relativa à ratificação da decisão da Assembleia — que defendia a retirada da confiança política à deputada — foi empurrada uma vez mais. A Assembleia decidiu que a confiança devia ser tirada à deputada, mas pediu ao Congresso que ratificasse essa decisão. O Congresso ouviu ambas as partes, em declarações bastante exaltadas de um dos lados, e optou por deixar a decisão nas mãos de outros.

Não que “outros” queira significar pessoas novas, porque as listas únicas candidatas ao Conselho de Jurisdição e Grupo de Contacto não sofrem muitas alterações nas personagens principais. Fica a faltar conhecer a composição final da nova Assembleia. Há 66 candidatos a 50 lugares, serão 25 homens e 25 mulheres, mantendo a paridade exigida pelo partido. E até na apresentação das candidaturas ao Congresso, os membros se mostraram divididos em relação à crise que está a afetar o partido. Depois da exaltação que marcou a manhã, Joacine manteve-se na primeira fila, a escutar, impávida e serena as intervenções de cada candidato.

Há quem fale em “grave crise”, como é o caso de Sá Fernandes — que defendeu a criação de um grupo para acompanhar e mediar a comunicação entre Katar Moreira e o Grupo de Contacto, a direção do partido —, há quem defenda que é possível “chegar a acordo” e que o caminho a seguir passa por serenar as relações entre Joacine e o Grupo de Contacto. Nem isso parece ter resultado. Joacine Katar Moreira abandonou o primeiro dia do congresso confiante que lhe tinha sido dado um “voto de confiança”, mas nem cinco minutos depois o Grupo de Contacto contrariava essa ideia: “Não se tratou de um voto de confiança. Sentimos que o que o Congresso quis foi dar a garantia de que não há dúvidas absolutamente nenhuma da justiça ou injustiça da decisão”.

Mas será mesmo isso? Depois de alguma confusão sobre quem devia votar o quê e quando, com a mesa da Assembleia a considerar que todos os congressistas (membros e apoiantes) podiam participar na votação — que decidiria se a resolução da Assembleia seria votada este sábado ou remetida para os novos órgãos do partido — e os membros do partido a discordarem da decisão da mesa, acabou por ser colocado à votação dos congressistas se votariam todos ou não. Resultado? Apenas membros puderam pronunciar-se sobre o ponto cinco da ordem de trabalhos, a resolução da Assembleia do partido.

Partindo dessa decisão, o voto em alternativa: tomar a decisão sobre a ratificação ou não da resolução da Assembleia ou “reenviar para os órgãos eleitos a continuação de todo o processo”. Os membros do partido optaram por enviar para os novos órgãos eleitos o processo, com uma diferença de apenas dois votos (50/52), aquilo que Joacine entendeu ser um voto de confiança e o Grupo de Contacto do partido um sinal de que o partido não quer pontas soltas na resolução deste conflito com a deputada única — que permanece sem sinais de poder ser resolvido.

Antes da votação, o momento mais quente do dia

Depois de uma intervenção inicial que até começou num tom bastante moderado, Joacine começou por dizer que todo este processo se tratava apenas de “normalidade democrática”, mas sem “ética e a verdade” nunca “estaremos numa verdadeira normalidade”. E a partir desse momento o tom do discurso só conheceu uma trajetória ascendente. Joacine Katar Moreira disse que a decisão da Assembleia surge apenas “dois meses e pouco depois do empossamento” e que a decisão foi tomada apenas por 22 membros da Assembleia (composta atualmente por 41 elementos). “É um relatório cheio de algumas mentiras e de manipulação e omissão”, disse Joacine antes de questionar o motivo que estaria por trás do relatório e recebendo aplausos do Congresso.

Depois da exposição inicial de Joacine, Patrícia Robalo, da Assembleia do partido tomou da palavra no púlpito para ler as conclusões da recomendação da Assembleia, recebendo alguns aplausos de apoio dos congressistas, mas o desacordo total de Joacine.

Numa resposta de poucos minutos Joacine protagonizou, de longe, o momento mais tenso do dia: subiu ao púlpito para gritar que era uma “vergonha” aquilo que tinha sido apresentado por Patrícia Robalo, acusando mesmo de ser “ilegal”, ideia que reforçou já depois de regressar ao lugar na plateia do Congresso, numa troca acesa de argumentos.

Antes Joacine insinuava que os congressistas “não sabiam da missa a metade”, lamentando a perseguição e intimidação da direção do partido. “Elegeram uma mulher negra que gagueja muito bem e que deu jeito para a subvenção”, atirou ainda recebendo o apoio efusivo do assessor Rafael Esteves Martins.

Antes da entrada no Congresso já se sabia que Ricardo Sá Fernandes, membro do Conselho de Jurisdição e recandidato ao mesmo órgão, era contra o procedimento seguido pela Assembleia do partido, que havia uma moção de apoio à deputada. O tema estava longe de ser consensual e as intervenções ao longo do dia mostraram-no. Ainda que reconheçam que possa haver falhas de ambas as partes, os congressistas dividem-se na solução. É irremediável ou há espaço para fazer caminho?

Já a figura mais conhecida do partido, Rui Tavares, ainda apelou, na sua intervenção, a que o Congresso não se resumisse ao tema único. “Somos todos teimosos neste partido”, começou num tom ligeiro, aproveitando ainda para deixar uma crítica “aos partidos que se dizem verdes, mas que fazem congressos à porta fechada”. Rui Tavares repetiu uma ideia que já tinha deixado aos jornalistas: “Não haja a mínima duvida que o Livre prefere ser fiel aos seus princípios que manter um cargo político”, apesar de ter votado para que a resolução da Assembleia passasse para os próximos órgãos eleitos do partido. E aquilo que parece ser o receio de muitos, o desaparecimento do partido da cena política caso seja retirada a confiança à deputada única, não assusta Rui Tavares: “O país distingue o Livre se a defesa dos princípios for defendida”.

Para já não há respostas. Joacine não apresentou nenhuma lista aos órgãos do partido e o Observador sabe que também não exerceu o direito de voto no congresso para eleger os novos órgãos. Ficará fora dos órgãos nacionais do partido, pelo menos nos próximos dois anos, e caberá a estes órgãos decidir como será tratada a partir de domingo a mediação de relações entre a deputada única e o partido.