Hillary Clinton e Bernie Sanders nunca foram grandes amigos. As divergências ideológicas são grandes e a animosidade entre os dois não só é antiga como foi especialmente notória quando se enfrentaram em 2016, nas eleições primárias do Partido Democrata para as presidenciais de 2016. Ainda hoje Clinton e Sanders andam às turras e esta terça-feira a imprensa norte-americana revela palavras duras da antiga primeira-dama e secretária de Estado, derrotada por Trump em 2016, sobre o antigo rival democrata.

O novo capítulo da saga que é a guerra de palavras entre os dois — Hillary Clinton proveniente do centro-esquerda, Bernie Sanders da esquerda mais extremada — é um conjunto de declarações de Hillary Clinton para um documentário dividido em quatro episódios, que vai estrear-se no festival de cinema de Sundance e que chegará à plataforma de streaming Hulu em março.

A opinião de Clinton sobre Sanders não foi dada agora, mas foi agora revelada e foi também reafirmada por Hillary em entrevista à revista The Hollywood Reporter, publicada esta terça-feira:

Esteve no Congresso durante anos. Só um senador o apoiava. Ninguém gosta dele, ninguém quer trabalhar com ele, não consegue com que nada seja feito. Era um político de carreira. É tudo uma tolice e tenho penas que as pessoas tenham sido sugadas para aquilo [as suas ideias]”, referiu Hillary. Agora, à The Hollywood Reporter, questionada sobre se esta posição se mantém válida e atual, apontou: “Sim, mantém-se”.

Hillary Clinton foi ainda questionada, na entrevista publicada esta terça-feira pela The Hollywood Reporter, sobre a altercação entre Bernie Sanders e Elizabeth Warren, concorrente do democrata nas eleições primárias do partido para as presidenciais deste ano. Warren acusou Sanders de lhe ter dito que achava que nenhuma mulher conseguia ser eleita presidente, algo que o visado negou.

Lembrando que conseguiu “mais votos” do que Bernie Sanders nas primárias de 2016, Hillary Clinton acrescentou que “a imprensa e o público têm de responsabilizar todos os candidatos por aquilo que dizem e por aquilo que as suas campanhas dizem e fazem” — e notou que há um “ataque bastante pessoal” de Sanders a Warren.

Quanto à possibilidade de apoiar Sanders contra Trump caso Bernie vença as primárias democratas, Clinton preferiu não responder. Não invocou, mas poderia, um treinador romeno que passou pelo futebol português, que um dia cunhou a expressão “não colocar os bois à frente da carroça”. Disse simplesmente que não irá já discutir essa hipótese, porque “ainda estamos numa altura muito enérgica de primárias”.

Esta questão sobre ele ter dito ou não ter dito que uma mulher não poderia ser eleita, é parte de um padrão. Se só acontecesse uma vez, podíamos dizer: ok, tudo bem. Mas ele disse que eu não tinha qualificações [para ser presidente]. Tinha muito mais experiência do que ele mas esse foi o ataque que ele me fez”, mencionou ainda.

Ainda sobre o alegado machismo de Bernie Sanders, a antiga primeira-dama dos EUA referiu à revista The Hollywood Reporter: “Não é só ele, é a cultura em torno dele. É a sua equipa de líderes. São os seus apoiantes mais proeminentes. São os seus Bernie Bros [termo pejorativo para descrever os seus apoiantes] e os seus ataques implacáveis a muitos dos seus concorrentes, particularmente mulheres. E espero mesmo que as pessoas estejam a prestar atenção a isso porque deveria ser preocupante que ele tenha permitido essa cultura instalar-se — aliás, não apenas permitido mas realmente apoiado”.

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A animosidade entre Hillary Clinton e Bernie Sanders tem sido constante ao longo dos últimos anos, até porque Clinton responsabiliza parcialmente o antigo concorrente nas primárias pela derrota que teve depois contra Donald Trump.

Muito recentemente, numa entrevista exibida já este mês, Clinton lembrou que Bernie Sanders demorou muito tempo a anunciar que a iria apoiar depois de o ter derrotado nas primárias: “Magoou-me, sem dúvida. E espero que não o faça a quem quer que consiga a nomeação desta vez. Uma vez é suficiente”, disse, presumindo desde logo que Sanders vai voltar a perder as primárias do partido. Bernie respondeu: “Lamento que a Hillary Clinton esteja a reavivar 2016. Poderia mostrar uma carta sua dizendo: obrigada, Bernie, por trabalhares tanto para me ajudares a tornar-me presidente dos EUA”.

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No mês anterior, em novembro deste ano, Hillary Clinton tinha também criticado os planos de taxação de fortunas propostos por dois candidatos às primárias democratas, Elizabeth Warren e Bernie Sanders — considerou-os “incrivelmente disruptivos” e “impraticáveis”. Antes disso, questionado sobre se planeava encontrar-se com Clinton, Bernie Sanders referiu “suspeitar que não” e lembrou as “diferenças fundamentais” que existem entre os dois.