O sétimo debate entre os candidatos democratas à presidência dos Estados Unidos foi marcado por um conflito entre Bernie Sanders e Elizabeth Warren, após o senador ter negado acreditar que nenhuma mulher conseguiria ganhar as eleições norte-americanas de novembro e derrubar Donald Trump na Casa Branca.

A afirmação de Bernie Sanders, supostamente feita durante uma reunião privada em 2018 com Elizabeth Warren, foi noticiada na CNN e confirmada pela senadora: “Eu disse que achava que uma mulher podia ganhar, ele discordou”. Questionado sobre o tema, o candidato respondeu: “Na verdade, não disse isso e não quero passar muito tempo nisto porque talvez seja isto que Donald Trump, e talvez a imprensa, queiram”.

À margem desta reunião, durante uma campanha dos republicanos em Wisconsin, o presidente dos Estados Unidos defendeu Bernie Sanders: “Não acredito que ele tenha dito isso. Realmente não acredito. Não é o tipo de coisa que ele diria”, argumentou. É uma tomada de posição que pode beneficiar Trump, explica a Reuters, que com Sanders na corrida pode assumir-se como símbolo da oposição a uma América socialista.

Donald Trump defendeu Bernie Sanders numa campanha em Wisconsin. Créditos: Kyle Mazza/Anadolu Agency via Getty Images

Em resposta às negações de Bernie Sanders durante o debate democrata, Elizabeth Warren insistiu em que a discussão sobre a possibilidade ou não de uma mulher vir a ser presidente dos Estados Unidos em 2020 deve ser “encarada de frente”. A discussão pendeu depois para as questões de igualdade de género e feminismo, com Warren a amainar o confronto: “O Bernie é meu amigo e não estou aqui para tentar lutar com ele”.

Certo é que o conflito reacendeu sobretudo no final do debate, quando a senadora se recusou a apertar a mão do “amigo”, levantando uma tensão evidente entre os dois. O confronto foi interrompido pelo candidato Tom Steyer, que embora não tenha revelado o conteúdo da discussão entre Sanders e Warren, confirmou à CNN o ambiente de cortar à faca entre os dois: “Senti, tipo… Ok, está alguma coisa a acontecer aqui. Boa noite, vou saltar fora. Foi um daqueles momentos estranhos em que me senti, tipo… Ok, preciso de ir embora o mais rápido possível”.

Elizabeth Warren (esq.) e Bernie Sanders (dir.) entram em conflito. Tom Seyner (cen.) intervém. Créditos: ROBYN BECK/AFP via Getty Images

Sanders vs. Biden: tensão no Médio Oriente e comércio

Apesar do desfecho do debate, Elizabeth Warren e Bernie Sanders, os candidatos mais progressistas, aproximaram-se nos pontos de vista sobre a tensão no Médio Oriente, que se adensou depois de os Estados Unidos terem assassinado o general iraniano Qassem Soleimani e de uma retaliação com mísseis iranianos. Ambos concordaramm que, perante a situação com o Irão, os militares têm de “regressar a casa”.

“O nosso exército é o melhor exército do mundo. Eles [militares] farão os sacrifícios que lhes pedirmos. Mas devemos parar de lhes pedir que resolvam problemas que não podem ser resolvidos militarmente”, afirmou Warren, que está em terceiro lugar  nas sondagens. Nesta batalha, foi Biden quem mais foi criticado.

Bernie Sanders recordou as votações para o desencadeamento da guerra no Iraque em 2002 e lembrou como tem estado sempre contra os conflitos armados no Médio Oriente, mas “o Joe pensava de forma diferente”. Biden fez mea culpa e disse-se arrependido pela decisão que tomou durante a administração Bush: “Foi um erro, foi uma votação errada, mas acho que o meu histórico geral de tudo o que temos feito diz que estou preparado para comparar isto com qualquer pessoa neste palco”.

Aliás, o ex-vice-Presidente Joe Biden e a senadora Amy Klobuchar, mais moderados, defenderam a manutenção das tropas norte-americanas em algun países. Biden quere-as no Médio Oriente para “patrulhar” o Golfo Pérsico e continuar a luta contra o grupo extremista Estado Islâmico, presente na Síria e no Iraque e Klobuchar quere-as fora do Afeganistão, mas manteria uma certa presença na fronteira entre a Síria e a Turquia.

Pete Buttigieg, autarca de South Bend, no estado do Indiana, o único com experiência militar, não esclareceu a sua posição, mas assegurou que consultaria o Congresso antes de uma intervenção militar no exterior, numa crítica a Trump por não ter consultado os congressistas antes do ataque em Bagdade que matou o general iraniano Qassem Soleimani.

Joe Biden e Bernie Sanders durante o sétimo debate dos democratas. Créditos: Scott Olson/Getty Images

Sanders e Biden também divergiram nas opiniões sobre o mercado. Sanders opõs-se aos pactos de livre comércio e isso, assim como os planos para um seguro governamental que quase eliminaria os seguros privados, foi alvo de críticas por Biden: “Não sei se existe algum acordo comercial que o senador ache que faça algum sentido”, rematou.

Joe Biden referia-se ao facto de Sanders ter-se assumido tanto contra o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA) como contra o Acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA). “O Joe e eu temos uma discordância fundamental, caso não tenham reparado”, disse Sanders dirigindo-se ao público, que se riu.

Ainda no tema das relações diplomáticas delicadas, Bernie Sanders e Joe Biden estiveram de acordo no que toca à Coreia do Norte. “Na ausência de pré-condições, não me encontraria com o líder supremo que disse que Joe Biden é um cão raivoso e que devia ser espancado até a morte com um pau”, disse Sanders. Biden interrompeu-o com humor: “Para além disso, até gostas dele”. E Sanders correspondeu: “Depois disso até recebeu uma carta de amor do Trump”.