Tomás Correia vai “fazer falta” no Montepio mas “fez muitíssimo bem” em abandonar a liderança da mutualista, porque existia “esse ruído todo” e deu-se algum desgaste da sua imagem. Esta é a visão do padre Vítor Melícias, presidente da mesa da assembleia-geral do Montepio, que, em entrevista ao jornal i, reconhece que Tomás Correia “tinha os problemas de ser arguido ou de ser suspeito disto ou daquilo — coisas que não sei e, se houver alguma coisa, deve ser julgado, primeiro, pela sua consciência, segundo, pela história e, se for caso disso, pelos tribunais”. Porque, diz Melícias, tal como na Igreja, “um padre, quando faz asneira, afeta a Igreja toda, até o próprio Papa”.

Entrevistado poucos dias depois das buscas que foram realizadas ao Banco Montepio e à associação mutualista, Vítor Melícias argumenta que essas notícias — que envolvem a administração de Tomás Correia, concretamente — “já não afetam com a mesma força” a imagem do Montepio. “Ele já não está lá, não comanda, não tem nada a ver com aquilo”, defende Melícias, que garante não estar “absolutamente nada” arrependido de o ter convidado para o Montepio.

Os ataques foram tão fortes que [Tomás Correia] se fartou e foi-se embora. E é um homem que faz falta na área da economia social. Mas face a todo o clima que se criou, no lugar dele faria o mesmo. Vai fazer outras coisas”

“Fez um bom trabalho. Na fase final, já com esta instabilidade toda, foi mais complicado e, ainda por cima, teve de lidar com uma situação de crise financeira mundial”, afirma Melícias, convencido de que se Tomás Correia “tivesse saído mais cedo era capaz de não ter sido mau para a sua imagem”. Ainda assim, Vítor Melícias garante que não conhece a relação de Tomás Correia com o construtor José Guilherme — que está na génese das buscas — “li nos jornais, não conheço o senhor, nunca falei com ele, nem nunca falei sobre isto com Tomás Correia. Não sei nem quero saber”, atira.

Uma coisa é certa, na cabeça de Vítor Melícias, porém: só por “incompreensão” alguém pode pensar que “o que aconteceu ao BES iria acontecer ao Montepio”. “Isso não seria possível porque o BES e a família do grupo BES são duas realidades da economia privada, da economia lucrativa, que podem fazer, efetivamente, determinado tipo de negócios”, defende Melícias, acrescentando que “num banco de economia social, como é o caso da caixa económica [Banco Montepio], não há esse perigo, não há essa possibilidade”.

As duas instituições estão bem clarificadas, o grupo Montepio foi muito alargado, tem muito mais capacidade e vai encontrando hoje as coisas já definidas. O banco criou, entretanto, um banco de empresas, tem um funcionamento normal, mas para chegarmos aqui foi preciso nomear pessoas, eleger pessoas, e depois, aquela serve, a outra não serve. A meu ver, há um excesso de controlo da finança sobre a atividade da sociedade em geral”

Este é um raciocínio já manifestado por Vítor Melícias quando o Observador o entrevistou, em março de 2019, uma entrevista feita depois de Melícias ter dito que não seria um qualquer “secretariozeco” a afastar Tomás Correia do Montepio.

Vítor Melícias diz que, “no meio de toda esta transformação, o Montepio sempre foi uma coisa perfeitamente apetecível, como é evidente”. Do ponto de vista dos associados, o padre rejeita que se possa dizer que eles podem perder o seu capital: “não perdem o seu capital porque os associados não têm capital. Não há propriedade privada. Uma pessoa paga quotas numa associação mutualista, mas não é dono daquele capital. Se morrer, não fica para os herdeiros porque aquilo não é dele. Trata-se de uma associação de pessoas, não uma associação de capitais”.

O antigo presidente da mutualista (e do banco, quando eram a mesma coisa) e, hoje, presidente da mesa da AG, acrescenta, também, que “só quando fui presidente da administração é que recebi um salário. Agora há uma compensação de pertença — e quando há”.

Melícias garante que não tem automóvel, nem bicicleta”, nem quer ter: “se quisesse ter, não estava aqui, estava a fazer render as minhas capacidades noutras áreas”. O dinheiro de pensões que recebe diz: “não é meu, é dos frades” — os valores caem numa conta bancária em seu nome e no nome de outro frade, os dois têm autorização para mobilizar.

Então, só por ser padre ou ser franciscano — os outros têm direito e muito bem a levar o seu dinheiro para casa e para a família –, não tenho direito a trazer para tratar dos pobres, para tratar dos frades velhos e para tratar dos estudantes? Ninguém anda a roubar pensões”.

“Eu preciso de me mexer, tenho de pôr gasóleo no carro, que não é meu, mas tenho de abastecer, tenho de ir ao médico”, diz Melícias. Garante que recebe, “no máximo dos máximos, 3.900 ou 4.000 euros. E dessa conta, automaticamente, vão 3 mil para os frades. Ficam para aí 900 para ir gerindo a minha vida, para ajudar pobres”.

O padre Vítor Melícias diz que é um “mito” dizer que é uma pessoa influente junto do poder político. Diz ter “é muitos e grandes amigos em todas essas áreas e em todos os setores. É uma alegria, dou-me com todos. Não tenho partido nem interesses. Só tenho interesse em que as pessoas sejam felizes e ajudem a construir uma paz e uma fraternidade neste mundo todo”.