O proprietário de um terreno de cultivo de milho, que foi invadido por toneladas de areia e outros detritos aquando do colapso de um dique durante as cheias do Mondego, critica o silêncio das autoridades do Ambiente.

António Arnaut, dono do terreno agrícola com 19 hectares no Baixo Mondego, adjacente ao dique direito do leito principal do Mondego que colapsou nas cheias de dezembro de 2019, afirma que pediu uma reunião à Agência Portuguesa do Ambiente (APA) através da Associação de Beneficiários da Obra Hidroagrícola do Baixo Mondego e que até ao momento, mais de um mês depois, ainda está “à espera” de resposta.

“Até hoje ninguém me disse nada, nem um pedido de desculpas. Nada, só silêncio. Tenho oito a dez hectares cheios de areia e um buraco cheio de água [com vários metros de profundidade], nada disto é da minha responsabilidade, está tudo assoreado e não sei como resolver a situação”, disse António Arnaut, perante a reportagem da Lusa, na zona onde já foi construído o aterro provisório que impede a entrada de água do Mondego, enquanto olhava os campos de milho desaparecidos debaixo da areia.

Para além dos sedimentos a perder de vista depositados no terreno de cultivo (e que, segundo os seus cálculos, afetarão outros cinco proprietários confinantes), o agricultor aponta os pedaços de laje de betão, parte do revestimento do canal de rega “que partiu e anda aí todo espalhado”, pedras de várias dimensões e pedaços de barro dos taludes do mesmo canal, uma árvore com vários metros de tronco e respetiva raiz ou bocados de carrinhos de supermercado “daqueles que a malta das Queima das Fitas em Coimbra lança ao rio”, entre os detritos ali colocados pela enxurrada pós-colapso do dique.

Residente em Coimbra e com casa de família em Formoselha, concelho de Montemor-o-Velho, o também engenheiro civil e engenheiro mecânico já tinha feito a colheita do milho, mas afirma que ainda não tem um orçamento dos prejuízos, nem sequer sabe se pode mexer na areia arrastada pelo caudal do Mondego e ali depositada.

“Eu não tenho seguro do dique, o dique não é meu, é da Agência Portuguesa do Ambiente, que é quem tem de resolver o problema. Não há seguro para uma situação destas e mesmo para as colheitas também não existe. Eu fiz, faço todos os anos, mas deixa de funcionar a partir de 31 de outubro, a partir dessa data as seguradoras põem-se de fora”, explicou António Arnaut.

Mesmo se antecipa “umas dezenas de milhar de euros só em movimentação de terras”, avisa que o solo “ficará empobrecido” depois disso: “É impossível retirar com exatidão a areia que está por cima e não tocar na terra que está por baixo, vai ser preciso remover tudo”, lamentou.

Profundo conhecedor do vale e da obra hidroagrícola, António Arnaut nota que falta “um verdadeiro plano de emergência” para situações de inundação no Mondego, com regras e disposições “concretas” sobre o que fazer, que juntem agricultores e outros beneficiários do canal condutor do Mondego e autoridades do Ambiente.

Desde logo, aponta a alegada falta de funcionamento dos quatro descarregadores existentes no leito principal do Mondego – três sifões a montante daquela zona, junto às povoações de Ameal, Taveiro e Casais e um dique fusível no Choupal, Coimbra – projetados para abrir em caudais entre os 1.200 e os 2.000 metros cúbicos por segundo (m3/s), direcionando a água para os campos agrícolas, “o que não sucedeu” na última cheia.

Por outro lado, naquela zona do Mondego, que ali corre em cinco ou seis curvas largas e sucessivas, por cerca de 15 quilómetros de extensão, entre as zonas de Pereira e Ereira – canal inexistente antes das obras de regularização e construído de propósito – foram projetados leitos de cheia em vários locais que hoje, assinala António Arnaut, dificilmente cumprem a sua função, concretamente na margem esquerda, por estarem “atulhados de árvores e arbustos, mais parecendo uma floresta à beira-rio”.

Outra barreira no rio Mondego, que, defende, devia ser “desmantelada de vez”, é a represa existente junto à ponte de Formoselha, “que era provisória, foi ficando e passou a definitiva”, diz António Arnaut.

Para montante, o leito do rio está cerca de metro e meio acima do existente abaixo da represa, situação visível a olho nu. O empresário agrícola explica que a barreira foi construída numa altura em que o canal de rega – que serve a agricultura, a indústria de celulose e o fornecimento público de água – “só existia rio abaixo, em direção à Figueira da Foz”, para permitir o seu abastecimento, mas que a diferença de cota e a rapidez que o caudal ganha na represa “põe em causa a segurança da ponte, como já aconteceu, mais do que uma vez”, alerta.