Primo Levi é um daqueles casos em que a vida dá um significado completamente diferente à obra. Seria sempre interessante ler as reflexões de um cientista tornado escritor, em quem a falta de escola literária é uma virtude e capaz de fazer da curiosidade um tema livresco; no entanto, é a passagem por Auschwitz que transforma verdadeiramente a obra de Primo Levi.

Levi chega a Auschwitz já na fase final da guerra, quando Mussolini já foi preso e libertado por Hitler e, talvez por deveres de gratidão, aproxima o seu governo do anti-semitismo Hitleriano. A história da sua passagem por Auschwitz é contada naquele que se tornou o seu livro mais famoso, Se Isto é um Homem e, embora o século XX tenha nobelizado uma série de sobreviventes do Holocausto e se tenha comovido com centenas de descrições dos horrores concentracionários, nenhum relato teve o impacto de Se Isto é um Homem.

O livro de Primo Levi não é apenas uma descrição; na tradição Ocidental está, aliás, mais próximo da Consolação da Filosofia ou da Apologia de Sócrates do que de qualquer crónica bélica ou autobiografia tribulada. Levi está interessado na baixeza e na crueldade, mas apenas na medida em que uma e outra modelam o Homem. É, por isso, curioso comparar a obra de Levi com a de outros homens na sua situação, interessados pelos mesmos temas.

“Se Isto é um Homem”, de Primo Levi, na edição mais recente da Dom Quixote

Boécio é preso a pretexto de uma conspiração contra o rei, conspiração essa em que, a fazer fé na sua palavra e na de muitos académicos, não tinha tomado parte. É condenado à morte e, enquanto sofre na prisão, escreve aquele que se tornará o tratado clássico sobre a Fortuna: a Consolação da Filosofia. Boécio é visitado por uma mulher, a Filosofia, que lhe mostra a possibilidade da “vitória de uma morte injusta”. Introduz uma galeria de personagens que farão eco por toda a Idade Média – da Fortuna, que se apresenta pela primeira vez no Ocidente com a sua famosa Roda, à Fama e à Riqueza, que tentam renhir com a filosofia e acabam vencidas. A grande questão de Boécio, no entanto, é bastante simples: o que é que o mundo nos pode dar?

Ora, todo o livro é um mapa das várias hipóteses — poder, fama, glória — e a demonstração de que nada disso dá uma resposta satisfatória àquilo que o Homem quer. Todo o valor do mundo é dado pelo ponto de vista do Homem, pelo que o mundo não tem verdadeiramente poder para o afetar.

A obra de Primo Levi, por outro lado, parte do princípio contrário. Enquanto em Boécio o que há é uma consolação, isto é, a filosofia surge para alterar o estado em que Boécio se encontra, com Primo Levi o ponto de partida é precisamente a ideia de que o mundo nos afeta. Estarmos cercados pela maldade faz-nos adotar a maldade, o instinto de sobrevivência torna-nos mais cruéis, de tal modo que a distinção que se tornou clássica a partir de Boécio — a distinção entre o mal natural, aqueles que nos acontece e de que não temos culpa, e o mal moral, aquele que fazemos – parece insuficiente: Primo Levi mostra que o mal nos acontece tende a puxar o mal moral: o horror traz consigo a culpa porque a resistência ao que nos acontece é muitas vezes culpada. Implica ser conivente, cobarde, servil ou até mesmo traiçoeiro, para que sejamos capazes de aguentar a Fortuna.

Boécio tem noção das dificuldades que há em aguentar a Fortuna; ele, aliás, será morto. Também ele acha que o mal nos puxa para o mal; no entanto, há na sua Consolação um pormenor que torna a sua ideia completamente diferente da de Primo Levi. Para Boécio o mal natural também nos puxa para o mal moral; no entanto, também denuncia a arbitrariedade do destino. O facto de ao Homem bom acontecerem coisas más desperta-o para o centro das suas ações. Ele age em nome da consequência ou do princípio? O mal natural tem a vantagem sobre o Bem de funcionar como castigo de quem o merece e despertador para quem não o merece. Se, de facto, não são as consequências mas sim o princípio que interessa na nossa ação, então consequência nenhuma nos fará vacilar. Pode vir a tortura ou a morte, como chegou a Sócrates ou a Boécio, que isso nada trará de diferente ao Homem.

Primo Levi olha para a questão de um ponto de vista mais trágico. De nada interessa o princípio, quando aquilo que nos é exterior determina o fim. Se aquilo que nos acontece nos faz portar como cães, de nada vale que tenhamos sido homens bons; o mal externo é um castigo, não porque a tortura seja em si tão má como parece, mas porque a tortura nos transforma em culpados.

A diferença entre Boécio e Primo Levi é a diferença entre a culpa cristã e a culpa judaica. O castigo, para o cristão, é redentor; para o judeu é trágico e quase definitivo, porque transforma o homem num mau homem. A antropologia Cristã é uma antropologia do poder do Homem sobre as coisas; a de Primo Levi é a antropologia do poder das coisas sobre o Homem. Neste sentido, é materialista, mas não no sentido amoral que o materialismo marxista lhe deu; o materialismo de Levi, a incapacidade do Homem se libertar do que lhe acontece e de ser superior ao que o rodeia transforma a sua ideia de Homem num modelo sufocante. A ideia de que há um reduto de humanidade imune à tragédia, que por muito distraído que ande pode sempre erguer-se e vencer a Natureza tem um lado consolador que não há em Primo Levi. O Homem de Primo Levi perde a sua humanidade à medida que aquilo que não é humano invade a sua vida. Um homem pode deixar de ser homem, para se transformar naquilo que o domina.

Levi não se libertou do Holocausto, como uma Europa habituada à ideia Cristã de culpa estaria à espera. Foi uma vítima que se sentiu sempre culpada, o que também surpreende num mundo à espera da triagem clara entre vítimas e prevaricadores. É esse lado que permanece incómodo na sua obra: a ideia de que o mal ainda está ali, e de que ele se sente culpado por isso.