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Em 1867, um amigo de Louisa May Alcott que trabalhava numa editora perguntou-lhe se estaria interessada em escrever um romance “simples” de “raparigas”. Alcott tinha começado a publicar as suas histórias quase dez anos antes, mas sem alcançar grande sucesso. Para sobreviver e ajudar a sustentar a família (o pai, Bronson Alcott, sempre teve dificuldades em fazê-lo), aceitava todo o tipo de trabalhos — foi costureira e serviu de criada de uma senhora rica enquanto esta viajava pela Europa. A proposta de Thomas Niles era bem vinda mas, por mais que tentasse, Alcott não conseguia escrever o romance.

A ideia acabou por cair por terra, até que, no ano seguinte, o pai de Alcott abordou Thomas Niles para tentar publicar um texto filosófico. Amos Bronson Alcott era um professor com ligações, nem sempre bem vistas, ao Transcendentalismo, um movimento filosófico e literário surgido na década de 1830 em New England que defendia que as pessoas nascem boas, têm um poder chamado intuição e podem aproximar-se de Deus a partir da natureza. Alguns dos nomes mais relevantes do chamado “clube transcendentalista” são Ralph Waldo Emerson e Henry David Thoreau, que Bronson Alcott conhecia e com quem convivia.

Para tentar convencê-lo, Amos Bronson Alcott disse-lhe que a filha poderia escrever um livro de contos de fadas. Mas Niles queria uma história para o público feminino mais jovem e voltou a insistir no romance de raparigas. Louisa May Alcott voltou a tentar e, num espaço de apenas três meses, escreveu as 492 páginas que constituem a primeira parte de Mulherzinhas. O livro foi publicado em setembro de 1868 e foi um sucesso imediato. Alcott saiu da obscuridade das histórias de suspense que gostava de escrever e transformou-se numa celebridade literária, algo de que não gostava nada — quando os fãs tocavam à porta de sua casa, em Concord, no Massachusetts, dizia que era a empregada.

Em 1869, em resposta aos muitos pedidos dos leitores, Alcott publicou Boas Esposas, a continuação da história das Meg, Jo, Beth e Amy March. Além destes livros, escreveu ainda duas sequelas, Little Men e Jo’s Boys, que saíram em 1871 e 1886, respetivamente. O seu sucesso prolongou-se no tempo. A primeira adaptação de Mulherzinhas aconteceu em 1912, quando Marian de Forest transformou o romance numa peça de teatro e a levou à Broadway.

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Cinco anos depois, estreou nos cinemas a primeira versão para o grande ecrã, da responsabilidade do realizador britânico Alexander Butler. A mais antiga versão com som saiu em 1933, e contou com Katherine Hepburn no papel da heroína Jo; a mais recente é de 2019. Foi realizada por Greta Gerwin e tem as atrizes Saoirse Ronan, Emma Watson, Florence Pugh e Eliza Scanlen no papel das irmãs March. O filme vai chegar aos cinemas portugueses esta quinta-feira.

[O trailer de “Mulherzinhas”, de Greta Gerwin:]

A filha do filósofo e abolicionista que conviveu com Emerson e Thoreau

Louisa May Alcott nasceu em Germantown, na Pennsylvania, a 29 de novembro de 1832, mas passou a infância em Boston e depois em Concord. A ligação do seu pai ao Transcendentalismo permitiu-lhe consultar a biblioteca de Emerson, participar em passeios pela natureza com Thoreau (para quem escreveu um poema chamado “Thoreau’s Flute”) e discutir os direitos das mulheres com Margaret Fuller, mas também fez com que tivesse de começar a trabalhar muito cedo. Bronson Alcott, um filósofo e abolicionista que usou a casa da família como ponto de paragem da “Estrada Subterrânea”, uma rota subterrânea de fuga de escravos, não tinha uma visão convencional do mundo, e isso trouxe-lhe problemas.

Professor, foi despedido da escola onde dava aulas depois de publicar um livro sobre educação demasiado inovador para a época. Após uma tentativa falhada de criar uma comunidade utópica, afundou-se na depressão, obrigando a mulher e as filhas a aceitarem qualquer tipo de trabalho para se sustentarem. “Vou fazer alguma coisa. Não me interesse o quê, ensinar, coser, representar, escrever, qualquer coisa que ajude a família”, escreveu a autora de Mulherzinhas quando tinha 15 anos.

Nos anos seguintes, Alcott fez, de facto, um pouco de tudo o que estava acessível a uma mulher no século XIX: deu aulas, trabalhou como costureira, governanta e foi criada de uma senhora rica enquanto esta viajava pela Europa. Nunca desistiu, e sobretudo nunca desistiu da escrita — para tentar fazer dinheiro, escrevia contos que tentava vender a revistas femininas e histórias de suspense, as de que mais gostava, com mulheres independentes e passadas em lugares elegantes e exóticos, sob o pseudónimo A.M. Barnard.

A casa da família em Concord onde Louisa May Alcott escreveu Mulherzinhas é hoje um museu dedicado à escritora e ao seu romance (Paul Marotta/Getty Images)

Tinha 22 anos quando publicou o primeiro livro, Flower Fables, uma coletânea de histórias escritas seis anos antes para a filha de Ralph Waldo Emerson, Ellen. Em 1863, lançou Hospital Sketches, um marco importante na sua extensa carreira literária (ao longo dos seus 55 anos de vida, publicou mais de 30 livros). O livro reúne quatro “esboços” baseados nas letras que a autora enviou à família durante as seis semanas em que trabalhou como enfermeira junto do Exército da União em Georgetown, durante a Guerra Civil norte-americana. Hospital Sketches tornou-se muito popular, e teve uma nova edição alargada em 1869, um ano depois da publicação de Mulherzinhas.

O sucesso literário que Louisa May Alcott nunca pensou em escrever

Louisa May Alcott começou a escrever o seu grande sucesso literário, sobre a entrada na idade adulta de quatro irmãs de uma família falada de Massachusetts no tempo da guerra civil norte-americana, em maio de 1868. Deu conta disso mesmo no seu diário: “O sr. N. quer que uma história de raparigas, e comecei ‘Mulherzinhas’. (…) Avancei [com a história], embora não goste deste tipo de coisa. Nunca gostei de raparigas nem nunca conhecei muitas, exceto as minhas irmãs; mas as nossas peças estranhas e experiências podem provar-se interessantes, apesar de duvidar”.

Na infância, Alcott era uma maria-rapaz — trepava árvores, saltava vedações e nenhum miúdo podia ser seu amigo até que lhe ganhasse numa corrida —, e era por essa razão que considerava não ter material suficiente para escrever a sua história. Apesar disso, acabou por ser na sua juventude e na das suas irmãs que se baseou para escrever Mulherzinhas, com muitas das situações descritas na obra a serem inspiradas em eventos reais, que aconteceram em Orchard House, a casa da família em Concord. Assim, Anna Alcott tornou-se Meg, a mais velha das irmãs March; Elizabeth, que morreu de escarlatina aos 22 anos, pouco depois da mudança dos Alcott para Orchard, inspirou Beth; e May, uma talentosa artista, deu vida a Amy. Também os seus pais serviram de inspiração, embora Bronson Alcott tenha sido transformado numa figura paternal fisicamente ausente devido à sua participação na Guerra Civil.

A teimosa Jo é baseada na própria Louisa May Alcott, que deu à sua personagem muitas das  suas próprias características. Jo, a primeira heroína juvenil da literatura norte-americana, é independente, pensa pela própria cabeça e está longe de corresponder ao estereótipo feminino do século XIX. É isto que explica, em parte o sucesso, de Mulherzinhas quando este foi publicado. Por sua vez, Alcott nunca se casou e envolveu-se na luta pelos direitos das mulheres, nomeadamente ao voto, na década de 1870. Em 1877, ajudou a fundar a União Industrial e Educacional das Mulheres, em Boston, e em 1879, quando o estado de Massachussets aprovou uma lei que permitia às mulheres votarem nas eleições locais ou em questões relacionadas com educação e crianças, a escritora foi a primeira a registar-se em Concord.

Louisa May Alcott na década de 1880. A autora morreu a 6 de março de 1888, aos 55 anos (Universal History Archive/Universal Images Group via Getty Images)

Alcott concluiu o manuscrito de Mulherzinhas em poucos meses, sentada na secretária que o pai tinha construído para ela em Orchand. Quando o entregou a Thomas Niles, este achou-o “aborrecido”. “Também acho”, concordou a escritora no seu diário. Depois de o entregarem a algumas raparigas, a sua opinião mudou — acharam-no “esplêndido”. “Uma vez que foi escrito para elas, elas são as melhores críticas, por isso devo estar satisfeita”, admitiu. O sucesso com que o romance foi recebido confirmou a qualidade da obra que Alcott nunca tencionou escrever.

O interesse pelas irmãs March levou a autora a escrever uma sequela, Boas Esposas. Os leitores queriam que Jo casasse com o vizinho Laurie, mas Alcott recusou-se a cumprir esse desejo. “Não vou casar a Jo com o Laurie para agradar a ninguém”, escreveu no seu diário. “As raparigas escrevem-me a perguntar com quem as mulherzinhas casaram, como se  fosse esse o único objetivo na vida de uma mulher.” Alcott sabia que a decisão de casar Jo com o professor de alemão Friedrich Bhaer, bem mais velho do que ela, ia provocar uma onda de indignação, mas admitiu a uma amiga que essa possibilidade lhe agradava.

Louisa May Alcott continuou a alimentar o sucesso de Mulherzinhas com novas histórias. Em 1871, publicou Little Men, sobre Jo e as crianças da escola que estabeleceu com o marido; e, em 1886, Jo’s Boys, sobre os filhos desta. Jo’s Boys foi o último romance que escreveu — nos dois anos seguintes, dedicou-se ao conto. Alcott morreu a 6 de março de 1888, dois dias depois do pai, na sequência de um enfarte. Tinha 55 anos. Foi sepultada no cemitério de Sleepy Hollow, em Concord, perto dos amigos Emerson, Hawthorne e Thoreau, no talhão dos escritores. As “mulherzinhas” viveram para sempre.