O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, defendeu este sábado, na sede da União Africana, em Adis Abeba, o envolvimento “mais robusto” de forças africanas em operações de contraterrorismo e de pacificação no continente.

“Sou um forte defensor da necessidade de ter forças africanas em operações de contraterrorismo e pacificação com mandato do Conselho de Segurança [das Nações Unidas] e contribuições obrigatórias”, disse.

António Guterres falava este sábado, em conferência de imprensa, na sede na União Africana (UA), em Adis Abeba, onde irá participar nos trabalhos da 33.ª Cimeira de Chefes de Estado e de Governo da organização, que decorre no domingo e na segunda-feira.

Questionado pelos jornalistas sobre o relativo fracasso desta solução, que está a ser aplicada na região do Sahel, através da Minusma e da força G5-Sahel, António Guterres sublinhou a insuficiência de meios e a inadequação do mandato destas forças. “A Minusma é uma operação de manutenção de paz cujo objetivo e manter a paz existente, mas estão a operar numa zona onde não há paz para manter. A manutenção de paz não é suficiente, precisamos de missões de imposição de paz e, para isso, temos a força G5-Sahel, que tem falta de recursos e problemas de organização relacionadas com o frágil mandato que receberam, bem como de financiamento apropriado e apoio da comunidade internacional”, apontou.

“É por isso que defendo forças africanas mais robustas e, no caso do Sahel, provavelmente precisaremos de uma maior coligação”, acrescentou.

Ressalvando que não defende este tipo de solução para o conflito na Líbia, Guterres sublinhou a necessidade de cooperação entre a União Africana e as Nações Unidas para conseguir criar as condições “para um verdadeiro diálogo entre os líbios”.

“Estou extremamente otimista com a decisão de realização de um fórum de reconciliação em África, organizado pela União Africana e que as Nações Unidas estão prontas a apoiar”, disse.

O secretário-geral das Nações Unidas considerou ainda essencial que o embargo de venda de armas seja respeitado, que as decisões do Conselho de Segurança e a lei internacional seja observada e que haja mecanismos que possam garantir a aplicação concreta das decisões. “Assistimos na Líbia a uma presença de mercenários estrangeiros e ao reforço de armamento de um lado e do outro, o que cria uma situação que torna o diálogo entre os líbios muito mais difícil. É um escândalo, é absolutamente inaceitável que o embargo continue a não ser respeitado”, sustentou.

Guterres disse entender a “frustração” e o “sentimento de que foram postos de lado” da União Africana em relação aos acontecimentos que levaram à queda do antigo líder líbio Muammar Kadhafi, sublinhando o empenho das Nações Unidas para uma cooperação futura mais estreita com a União Africana sobre esta questão.

Numa conferência de imprensa em que abordou os vários conflitos no continente africano, António Guterres deixou ainda uma mensagem aos líderes do Sudão do Sul, onde têm falhado sucessivos compromissos para a formação de um governo de união nacional.

“O sofrimento, a pobreza, o nível de subnutrição das crianças, as violações e a violência sexual de todos os tipos, são absolutamente inimagináveis”, recordou.

“Pensem no vosso povo, respeitem o vosso povo, não têm o direito de continuar em confrontos quando o vosso povo sofre tanto. É vossa responsabilidade moral e política acabar com isto e encontrar os acordos necessários para fazer o Sudão do Sul entrar numa vida normal”, disse. António Guterres considerou, neste contexto, inaceitável que, mais uma vez, no período limite para a formação do governo se tenha anunciado que não há entendimento num conjunto de questões.

“Está na hora de os líderes sul-sudaneses concordarem, cooperarem e merecerem o povo que têm”, acrescentou.

A 33.ª Cimeira de Chefes de Estado e de Governo da União Africana, no domingo e segunda-feira, encerra os encontros anuais da organização, que decorrem desde 21 de janeiro, na sua sede, em Adis Abeba. Este ano, os líderes africanos reúnem-se sob o tema “Silenciar as armas: Criar condições favoráveis ao desenvolvimento em África”, com as discussões centradas na implementação da agenda de paz e segurança da organização para o continente. A União Africana integra 55 países, incluindo Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique e São Tomé e Príncipe.