Os serviços secretos norte-americanos avisaram o Congresso de que a Rússia está a interferir na campanha eleitoral de 2020 para ajudar a reeleger o presidente americano, Donald Trump, estando a agir inclusivamente nas primárias do partido democrata — de onde sairá o candidato que vai defrontar o atual presidente. A informação foi divulgada esta quinta-feira pelo New York Times, que cita várias fontes ligadas ao processo, sob anonimato.

A informação terá sido divulgada à Comissão de Serviços Secretos da Câmara dos Representantes, numa reunião realizada há uma semana, por Shelby Pierson, responsável por um departamento destinado a centralizar todas as informações sobre a segurança eleitoral norte-americana. Segundo Pierson, o objetivo da Rússia é garantir a reeleição do presidente norte-americano.

Trump, claro, não gostou. No dia seguinte à reunião na Câmara dos Representantes, o presidente norte-americano apressou-se a repreender duramente o diretor interino de Inteligência Nacional (responsável pelas 17 agências da comunidade de serviços secretos norte-americanos), Joseph Maguire, por permitir que a informação fosse incluída na reunião, alegando que os democratas usariam essa informação contra ele. De acordo com o New York Times, Maguire foi chamado à Casa Branca e Trump terá dito que ficou particularmente aborrecido com o facto de Pierson ter dado aquelas informações na presença de alguns congressistas em particular — nomeadamente o democrata Adam Schiff, que se destacou no processo de impeachment do presidente norte-americano.

O democrata Adam Schiff também não se ficou e comentou o caso no Twitter, acusando o presidente norte-americano de estar a pôr em causa o combate à interferência nas eleições. “Confiamos nos serviços secretos para informar o Congresso sobre ingerências externas nas nossas eleições. Se as notícias se confirmarem, e se o Presidente estiver a interferir nesse combate, está mais uma vez a pôr em risco os nossos esforços para travar a intromissão externa”, escreveu o congressista norte-americano naquela rede social.

Segundo o mesmo jornal, durante a reunião de Shelby Pierson no Congresso, os congressistas do Partido Republicano terão posto em causa as conclusões dos serviços de informação norte-americanos, recusando a ideia de que a Rússia esteja a agir com Donald Trump para ajudar a sua reeleição, na medida em que Trump até tem sido duro com Putin e com países aliados, como é o caso do Irão.

Líder interino dos serviços secretos afastado: novo diretor é apoiante de Trump

Segundo a Associated Press, esta semana (depois da tal reunião) o presidente norte-americano anunciou, de resto, que Maguire, que estava como interino, será substituído na chefia dos serviços secretos por Richard Grenell, atual embaixador dos EUA na Alemanha e um fervoroso defensor de Trump. Grenell está em Berlim desde maio de 2018, tendo criticado publicamente algumas políticas do governo da chanceler Angela Merkel, fazendo dessa forma eco das posições de Trump.

Em Janeiro de 2017, os serviços secretos norte-americanos avisaram o então recém-eleito Presidente Trump de que a Rússia interferira nas eleições de 2016 de várias formas, nomeadamente através do uso das redes sociais para disseminar propaganda. De lá para cá, essas informações deram origem a várias investigações, tanto do Departamento de Justiça como do Congresso, que confirmaram a intervenção russa nas eleições de 2016. Agora, a história parece estar a repetir-se.