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Título: Nós e Outras Novelas
Autor: Evguéni Zamiátin
Editora: Relógio d’Água
Ano da Edição: novembro de 2019
Páginas: 384
Preço: 19€

O início do século XX foi, provavelmente, a época da humanidade em que mais se imaginou o futuro. Por um lado, assistia-se a uma contínua expansão tecnológica, resultado de dois séculos de revolução industrial e de uma grande guerra. Este boom tecnológico fez brilhar a chama da imaginação no que toca às possibilidades científicas da humanidade. Por outro lado, o avanço científico também foi acompanhado por um dos períodos mais obscuros da história da humanidade. Com duas guerras que devastaram metade do mundo e o surgimento de vários tipos de ditaduras e nacionalismos, o cenário não era o mais alegre e por isso temia-se que o futuro pudesse ser ainda pior.

É neste contexto ambíguo que florescem as obras literárias do género utópico e distópico. George Orwell e Aldous Huxley são os autores que mais facilmente surgem quando se fala deste tipo de narrativas, autores de 1984 e Admirável Mundo Novo, respetivamente. Estes textos descrevem mundos futuros possíveis, que se tornariam reais se a humanidade continuasse no rumo de então. O controlo do estado para com o indivíduo e a supressão ou manipulação das emoções são alguns dos elementos que ambas as obras partilham. No entanto, antes de 1984 ou Admirável Mundo Novo houve Nós, um romance escrito pelo russo Evguéni Zamiátin. Esta não é a única narrativa contida na edição apresentada, que inclui também duas “novelas inglesas” e um escrito que o autor nunca chegou a terminar. Mas, por enquanto, foquemo-nos em Nós.

Esta obra está escrita sob a forma de um diário, escrito por D-503, um cidadão do Estado Único. Este homem é, assim como Zamiátin, engenheiro, e está encarregado de supervisionar a construção da Integral, uma nave espacial que levará a felicidade do Estado Único às outras raças da galáxia. É sempre através do olhar deste homem, ou número, que nos é apresentado o mundo do Estado Único. No momento presente da narrativa vive-se um longo período de paz e felicidade, alcançado através da ação e controlo do Benfeitor e seus Guardiães sob todos os elementos da sociedade.

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Neste mundo, quase totalmente construído de vidro, o matemático e maquinal rege toda a vida, e a liberdade é considerada um estado selvagem. O indivíduo deixa de existir para dar lugar ao Número, e cada Número só faz sentido porque é parte do todo, e funciona em prol do Estado Único. Isto é especialmente verdade para o autor do nosso diário, D-503, para quem o funcionamento da sociedade e as diretrizes do Benfeitor são a única forma de atingir a felicidade. No entanto, esta certeza inabalável começa a ser quebrada quando conhece I-330, uma mulher que, após D-503 afirmar, “Somos todos iguais”, pergunta-lhe simplesmente, “Tem a certeza?”.

A partir deste momento a obsessão de D-503 para com esta mulher vai levá-lo a pôr em causa tudo aquilo que conhece. A sua vontade de seguir os preceitos do Estado conflitua com uma sensação forte desconhecida pelo engenheiro, mas que o leitor rapidamente se apercebe que é paixão. D-503 só é capaz de dar forma a este elemento altamente ilógico através de uma fórmula matemática irracional, √-1. A irracionalidade é ao mesmo tempo fonte de repulsa e atração extrema, e é nesta corda bamba que o protagonista se encontra constantemente. Os médicos dos Estado diagnosticar-lhe-ão uma doença, a formação de uma alma. Perante a perplexidade do engenheiro, que pergunta, “em que consiste? Não consigo imaginar”, o médico simplesmente responde, “como poderia?”.

À medida que vamos acompanhando a queda, ou subida, em espiral de D-503, é-nos apresentado o funcionamento e estética do Estado Único. Como já referido antes, quase todos os edifícios e objetos são feitos de vidro transparente. A noção de privacidade é praticamente inexistente, pois se todos são apenas “um de…”, como diria o engenheiro, o que há para esconder? A única exceção à regra surge nos momentos de intimidade física entre números, altura em que se procede ao baixar dos estores. Mais tarde haverá um momento de rebeldia histérica coletiva, o que levará muitos dos cidadãos a terem sexo de estores para cima, ou seja, à vista de todos.

Nesta sociedade, a exatidão e precisão matemática são fundamentais, desde o número de vezes que se mastiga até aos passos que se dá no caminho para o trabalho. A Natureza, desorganizada e suja, é algo já difícil de lembrar, e os únicos elementos naturais presentes são as nuvens do céu, que o protagonista abomina por não terem formas certas. No auge da sua desobediência ao Estado, D-503 é levado para lá do muro de vidro que separa a Natureza da civilização. As árvores e animais são-lhe completamente estranhos, uma memória guardada no fundo da mente.

Nós, que começou como uma crítica à sociedade inglesa e à sua inclinação para regulamentar in extremis a vida dos cidadãos, acabou por ser proibida na União Soviética, sendo publicada nesse país pela primeira vez em 1988. As semelhanças, ainda que obviamente exageradas, com o regime soviético, opuseram-no ao Partido Comunista da URSS, partido que Zamiátin chegou a apoiar anos antes. As palavras de I-330, “assim como não existe o maior número, também não pode haver a revolução final”, não devem ter caído bem aos dirigentes soviéticos. Ainda assim, o autor conseguiu ver a sua obra publicada fora da União Soviética, ao longo da segunda metade dos anos 20.

As duas “novelas inglesas” de Zamiátin, “Ilhéus” e “O Pescador de Homens”, funcionam quase como comédias de costumes, e, de certa forma, criticam aquele aspeto da sociedade inglesa que Nós também criticava, o problema de se confiar em demasia numa existência mecânica, e o quão ingénuo é tentar levar uma vida perfeita e imaculada. Este tipo de vivência irrealista resulta em desgraça quando a inevitável mancha ou imperfeição entra em cena. Estas narrativas podem ser vistas como prequelas de Nós, não só pelos temas que abordam e por terem sido escritas antes, mas porque há pistas no fim de cada uma que apontam para uma mudança de mentalidade geral, no caso de “Ilhéus”, ou um conflito mundial prestes a surgir, no caso de “O Pescador de Homens”, podendo assim fazer a ligação com a obra distópica.

O último texto desta antologia intitula-se “O Flagelo de Deus” e representa uma grande mudança em relação aos outros. É uma narrativa histórica passada nos anos de decadência do império romano. É um relato muito interessante sobre o que é ser um estrangeiro numa terra distante, e das dificuldades de inclusão, especialmente quando a terra que acolhe o estrangeiro tem para com ele um sentimento de superioridade. É um texto de uma grande atualidade, que nos coloca perante o ponto de vista do outro, do estranho. Zamiátin nunca terminou a narrativa, mas é muito difícil não ver aqui a génese de um texto épico, capaz de rivalizar com algo com a envergadura de O Senhor dos Anéis.

Zamiátin apresenta-se-nos como um autor altamente versátil, indo da ficção científica distópica, à comédia de costumes, terminando no romance histórico épico. O autor acabaria por morrer na miséria, em França, com 53 anos. Tivessem sido outras as circunstâncias e contextos políticos, talvez Zamiátin tivesse tido muito mais projeção e capacidade criativa. Mas certamente não teria sido este Zamiátin.