Uma escrivaninha que pertenceu ao poeta Fernando Pessoa vai ser leiloada pelo Palácio do Correio Velho, em Lisboa. A peça de mobiliário faz parte da coleção particular do sobrinho de Pessoa, Luíz Miguel Rosa Dias, que morreu em agosto do ano passado, aos 88 anos. Esta integra outros objetos pessoais de Pessoa, que também serão colocados à venda em abril. O leilão estava agendado para a próxima quarta-feira, mas acabou por ser adiado.

O leilão inclui 469 lotes (a informação já se encontra online). A maioria das peças foi adquirida pelo próprio Luíz Miguel Rosa, mas existe uma parte substancial que lhe chegou por herança e que inclui objetos que pertenceram a Fernando Pessoa e seus familiares. Entre estes conta-se a cómoda papeleira com alçado com duas portas que o poeta usaria no seu quotidiano para escrever. Esta não é, contudo, famosa a cómoda associada ao “dia triunfal” da criação dos heterónimos, em que Pessoa costumava escrever de pé. Essa faz parte da coleção da Casa Fernando Pessoa.

Relativamente aos objetos pessoais de Pessoa, o espólio que será leiloado inclui quatro pares de óculos (dois sem hastes, um com armação e hastes da marca J. J. Ribeiro e uns óculos escuros), uma boquilha com estojo e algum material de secretária: um suporte para caneta de amparo, uma faca para papéis e um pisa-papéis em pedra, em forma de livro, decorado com o monograma de Fernando Pessoa.

Dos familiares de Pessoa, haverá duas peças que foram do seu padrasto, João Miguel Rosa (um agrafador em ferro, do início do século XX, e um monóculo em metal), e uma que pertenceu ao irmão deste, Henrique Rosa: uma edição de 1905 de Quinto Mandamento, de Afonso Gayo, valorizado com uma dedicatória ao general, intelectual e poeta, com quem Pessoa tinha grande afinidade: “Ao ilustre general Henrique Rosa, como prova da admiração do seu talento poético”.

Entre os vários livros que serão levados a leilão, na sua maioria coleções das obras completas de Pessoa da Ática, existe um que esteve na posse de um dos irmãos do autor de Mensagem. Trata-se de Britain Overseas. The Empire in the Picture and Story, de J. Edward Parrot, e inclui a nota de um prémio do Convent Maris Stella atribuído ao “Master Luíz Rosa” a 14 de dezembro de 1910. Pessoa tinha nessa altura 22 anos.

Uma outra curiosidade é um cartão de António Botto (que não fazia parte do espólio de Pessoa), datado de 7 de fevereiro de 1942 e dirigido aos “amigos” de uma editora a propósito de um convite para traduzir o Livro das Cortesãs. Neste, Botto explica o grande trabalho de tradução que tem pela frente e pede dois mil escudos de pagamento. O manuscrito foi colocado à venda no início de dezembro passado, regressando agora ao mercado. Este leilão, organizado pela José F. Vicente Leilões, incluía livros da coleção particular de Luíz Miguel Rosa, nomeadamente que tinha herdado do seu tio Fernando Pessoa.

Luíz Miguel Rosa Dias era filho da irmã de Fernando Pessoa, Henriqueta Madalena Nogueira Dias. Depois da morte da mãe foi ele e a irmã, Manuela Nogueira, que receberam o espólio do tio. Licenciado em Medicina, era ainda escritor, tradutor e pintor, tendo sido responsável pela primeira edição das cartas de Fernando Pessoa e Aleister Crowley, Encontro Magick. Morreu em agosto do ano passado, aos 88 anos.

Palácio do Correio Velho decide adiar leilão para abril

Apesar de se ter mostrado confiante na realização do leilão, inicialmente marcado para a próxima quarta-feira, 18 de março, o Palácio do Correio Velho acabou por decidir adiá-lo para abril, na sequência da suspensão de toda a sua atividade até 30 de março, altura em que a situação será reavaliada “dependendo do estado do país e das instruções governativas”.

“O Palácio do Correio Velho informa que, atendendo à emergência de saúde pública atual, e por se tratar de uma empresa com uma atividade aberta ao público na execução de exposições e leilões de obras de Arte, a Administração decidiu encerrar toda a sua atividade até dia 30 de março, altura que reavaliaremos a situação dependendo do estado do País e das instruções governativas”, informou o Palácio do Correio Velho.

Contactada pelo Observador na quinta-feira, antes da disponibilização dos lotes online, a leiloeira adiantou que pretendia manter a exposição, no domingo e segunda-feira, e o leilão na data anunciada, com um reforço das “ações preventivas e de proteção segundo a Direção-Geral de Saúde”. Uma decisão que acabou por ser revogada durante a tarde desta sexta-feira, com o adiamento para 8 de abril (com exposição a 5 e 6 de abril), uma “data sujeita a alteração”. “O leilão permanecerá no site sujeito a ofertas.”

Quanto aos outros leilões que estão neste momento a decorrer na página do Palácio do Correio Velho, estes continuarão até terminarem. “Apenas retomaremos a atividade assim que a situação normalizar no país”, garantiu a leiloeira.

Artigo atualizado às 19h30 com a informação do adiamento do leilão para abril