O presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, anunciou na sexta-feira que iria decretar o estado de alarme em Espanha durante pelo menos 15 dias — uma medida que foi tomada apenas uma vez em democracia no país, aquando da greve de controladores aéreos em 2010. O Conselho de Ministros Extraordinário (o terceiro desta semana) esteve reunido fisicamente durante todo o dia, com exceção das duas ministras já infetadas, para definir novas medidas para parar a propagação do novo coronavírus em território espanhol.

Numa longa declaração na noite deste sábado, Pedro Sánchez confirmou as medidas que tinham sido avançadas pela comunicação social espanhola ao longo do dia e pormenorizou o decreto de estado de alarme aprovado pelo Conselho de Ministros. Ali pode ler-se que a população deve ficar toda em casa e só poderá sair para:

  • Comprar alimentos
  • Comprar produtos farmacêuticos e bens de primeira necessidade
  • Ir para o trabalho e regressar a casa
  • Ir aos centros de saúde
  • Auxiliar os cidadãos idosos

Todas as escolas e universidades estarão encerradas e restritas ao ensino online e a atividade comercial está suspensa, à exceção de locais que vendam comida, medicamentos ou combustível. Pedro Sánchez decretou ainda que é proibido, a partir de agora, comer dentro dos estabelecimentos de restauração e apelou à distância de um metro entre as pessoas.

O espetáculos serão cancelados, os museus encerrados, os comboios terão limitações (sobretudo os de média e longa distância) e também as cerimónias religiosas e fúnebres serão limitadas, isto depois de as cerimónias da Semana Santa em Sevilha já terem sido canceladas. Pedro Sánchez pediu ainda apoio político aos restantes partidos: “Não há cores políticas, não há ideologias, não há territórios”, disse o presidente do governo espanhol, numa frase com um significado engrossado para a Generalitat da Catalunha, que anunciou de forma unilateral a quarentena da região.

“Devemos ser o grande país que somos”, acrescentou Pedro Sánchez, apelando a uma “resposta comum” dos espanhóis e garantindo ainda que o país “vai vencer a batalha”. “Nós, seres humanos, confundimo-nos demasiadas vezes na hora de identificar os nossos inimigos. Agora convém não nos enganarmos, porque estamos em frente a um verdadeiro inimigo, que é o vírus. O objetivo é deter a propagação e eliminar o vírus. Quando virmos que a curva de difusão do vírus está mais lenta, essa será a primeira vitória coletiva”, disse Pedro Sánchez.

“Isto irá passar porque hoje estamos a atuar coordenados, unidos, com a máxima eficácia. Vamos poder voltar às ruas, às esplanadas, ao nosso trabalho. Até que chegue esse momento, vamos tentar não desperdiçar as energias que são precisas agora. São tempos de dificuldade”, concluiu o líder espanhol, que garantiu acreditar que estas medidas “são suficientes instrumentos para dar uma resposta contundente a esta situação”.

O decreto de estado de alarme explica ainda que esta fiscalização será assegurada pelos agentes da autoridades, que “poderão levar a cabo comprovações em pessoas, bens, veículos, locais e estabelecimentos”. Podem ainda “ditar ordens e proibições necessárias e suspender as atividades ou serviços que estão a ser levados a cabo”.

As autoridades responsáveis pelo cumprimento do decreto são os ministros da Defesa, Administração Interna, Transportes e Saúde. Todos podem por em prática medidas extraordinárias. A tutela da Saúde pode, por exemplo, “ocupar temporariamente indústrias, fábricas, ateliês, explorações ou locais de qualquer natureza”.

O atraso na conclusão da reunião e na divulgação oficial destas medidas — que acabou por ser de várias horas — deveu-se às divergências entre ministros do PSOE e dos Unidas Podemos. De acordo com o que o El País apurou, os ministros do Unidas Podemos exigiam que, ao aplicarem-se estas medidas, haja mais apoios claros aos trabalhadores. Ao fim de sete horas de atraso, o Conselho de Ministros optou por deixar as medidas económicas para a próxima reunião, na terça-feira, e limitar a decisão deste sábado ao decreto do estado de alarme.

Espanha é o segundo caso mais grave na Europa, atrás de Itália

Com 187 mortos e quase 6.000 infetados, Espanha é o segundo país europeu mais afetado pelo novo coronavírus, ficando apenas atrás de Itália. E o mais provável é que a situação se agrave ao longo dos próximos dias. O La Vanguardia escreve mesmo que “em poucos dias” se irá atingir a barreira dos 10 mil casos confirmados. Por todo o país já foram canceladas centenas de eventos, incluindo as cerimónias da Semana Santa em Sevilha, que costumam atrair muitos turistas à região.

Numa entrevista ao El País, o chefe do serviço de doenças infecciosas do Hospital Ramón y Cajal de Madrid, Santiago Moreno, partilhou os seus receios de que o Sistema Nacional de Saúde espanhol possa não estar preparado para aguentar esta epidemia: “Acho que ninguém pensava, e eu incluo-me nesse grupo, que isto podia adquirir num país como o nosso as dimensões que adquiriu”, declarou o médico ao jornal. “Como estamos, o sistema de saúde ainda pode enfrentar a situação de forma adequada, mas se não forem tomadas medidas drásticas corremos um grave risco de que o sistema colapse”.

Uma das zonas mais afetadas do país é a capital, Madrid, onde já há quase 3.000 casos e 133 pessoas morerram. O presidente da Câmara de Madrid, José Luis Martínez-Almeida, já declarou mesmo em entrevista ao El País, publicada este sábado, que “o fecho de Madrid está mais perto do que pensamos”, no que diz respeito às “restrições de mobilidade”, como foi adotado em Itália.

Vai depender se a evolução do pico de contágios para os próximos três ou quatro dias se mantém dentro das previsões ou se, pelo contrário, assistimos a um cenário acima da média”, acrescenta o autarca.

Se a realidade ultrapassar as previsões, Martínez-Almeida não tem dúvidas: “Seria necessário adotar essas medidas restritivas da mobilidade. E ninguém pode dizer que isso vai ou não vai acontecer, neste momento.”

A autarquia da capital espanhola decretou entretanto o encerramento de todos os parques e jardins públicos por “lamentavelmente” se terem juntado nesses espaços “aglomerados de pessoas”.

O governo regional da Catalunha também está bastante assustado. Esta sexta-feira, o presidente da Generalitat, Quim Torra, lançou um apelo a Sánchez para que feche as fronteiras, algo que só pode ser decidido a nível nacional: “A evolução do contágio exige-nos que sejamos mais drásticos. Achamos que temos de nos antecipar a uma evolução demasiado rápida da doença no nosso país e por isso achamos que será preciso confinar a Catalunha.”

Na Alemanha, o instituto de saúde nacional Robert Koch já colocou a cidade de Madrid como área de risco para os alemães, à semelhança de toda a Itália, Irão, uma província da Coreia do Sul, a província chinesa de Hubei, a região do Grande Leste de França e o Tirol.

Na manhã deste sábado, o grupo Inditex, dono da Zara, anunciou que as lojas em Espanha serão todas encerradas.

Por todo o país, multiplicam-se as ordens para encerrar espaços públicos e lançam-se apelos para que as pessoas mantenham distância umas das outras. Esta manhã, circulavam no Twitter imagens da estação de Atocha (em Madrid) praticamente vazia.