*Artigo em atualização

Com o estado de emergência declarado para evitar a propagação do novo coronavírus, o país está a meio gás. Para muitos, o ato de sair de casa resumir-se-á às compras essenciais em supermercados, mercearias, padarias e farmácias, mas a maioria da população faz essas compras nas grandes superfícies. Resultado: filas maiores — acrescidas com as regras de segurança — e, para quem faz encomendas online, dias de espera até que os produtos sejam entregues. No meio desta crise, há pequenos negócios que estão a lutar pela sobrevivência e a tentar encontrar formas de se reinventarem.

É para ajudar os negócios mais pequenos a superar este desafio que, nos últimos dias, têm surgido vários projetos de partilha de informação. Alguns visam incentivar a encomenda a pequenos fornecedores, outros a fugir aos tempos de espera nos sites dos principais supermercados. O Observador recolheu alguns dos movimentos que estão a listar todos estes projetos, de forma gratuita.

Hora de encomendar: os pequenos fornecedores que entregam em casa

Nasceu na terça-feira e já conta com mais de 100 fornecedores. O Hora de Encomendar foi criado para listar todos os pequenos e médios fornecedores que estão atualmente disponíveis para entregar encomendas. Trata-se de uma lista em formato Google Sheet — e em constante atualização — que contém o contacto de fornecedores como talhos, mercearias, padarias e peixarias, que estão disponíveis para fazer entregas em casa.

“Desde a semana passada que os tempos de entrega das grandes superfícies estão superiores, por vezes, a três semanas. Alguns estão só a entregar, por vezes, a meio de abril. Ao mesmo tempo, os pequenos fornecedores estão a ficar sem clientela, porque os mercados e algumas mercearias fecharam”, explica ao Observador Miguel Leite, um dos fundadores deste projeto, juntamente com Miguel Almeida, Guiomar Teles, Helena Ferrete e Joana Rodrigues dos Santos.

A palavra-chave do Hora de Encomendar, acrescenta, é a descentralização das entregas e dos fornecedores: “Quando só temos um grande fornecedor, e esse grande fornecedor fica com demasiadas encomendas, é impossível dar resposta a tudo. Mas se descentralizarmos, se criarmos uma rede de fornecedores mais pequenos, essa rede consegue fazer a entrega muito mais rápido”. O mundo, diz Miguel, “mudou completamente” com este vírus e nos próximos tempos “vai ser necessário mais descentralização”.

Nesta plataforma, que conta com mais de 20 colaboradores, estão já disponíveis listas de fornecedores em Lisboa, Porto, Braga, Aveiro, Guimarães e Algarve mas o objetivo é chegar a todo o país. Qualquer pessoa pode sugerir um negócio, sendo necessário incluir informações como o tipo de produtos que são entregues, o contacto mais direto e também o bairro onde está localizado, sendo que as informações estão sempre a ser atualizadas.

Compra aos Pequenos: como os negócios se estão reinventar

Criada pelo Menos Hub, uma comunidade que tem como missão ajudar os pequenos empreendedores, o movimento Compra aos Pequenos surgiu esta terça-feira e consiste numa lista onde os pequenos negócios em Portugal podem divulgar as novas soluções que estão a criar para enfrentar este momento, desde projetos adaptados para formato rádio até negócios que tentam vender vouchers para as pessoas comprarem agora e beneficiarem depois.

“O nosso objetivo é não só alertar as pessoas para consumirem os pequenos negócios, mas ao mesmo tempo mostrar a esses mesmos consumidores que os pequenos estão a reinventar-se e que eles, incluindo nós, temos opções neste estado de isolamento que podemos seguir”, explicou ao Observador João Duarte, fundador do Menos Hub.

A ideia surgiu quando os fundadores do projeto começaram a falar com a comunidade e ficavam “com o coração nas mãos, porque as pessoas estavam a ter imensas dificuldades”. “Foi um bocadinho depois disso, de termos falado com a nossa comunidade e até vermos um ou outro exemplo de outros pequenos negócios a apelarem às pessoas para se mobilizarem para não os deixarem morrer, que nós decidimos atuar”, acrescentou João Duarte.

O movimento lançou uma página de excel online, com um formulário para as pessoas preencherem e submeterem a proposta de negócio, explicando de que forma é que esse negócio está a conseguir adaptar a sua ideia à situação. No futuro, o objetivo é que o excel seja convertido para um site. “É tudo gratuito, o nosso objetivo é captar mais pequenos empreendedores para divulgarem as suas ofertas, mas chegar ao máximo de potenciais consumidores e fazer aqui um match”.

Go Small or Stay Home: um diretório com os negócios locais

Ana Fernanda Rodrigues criou nos tempos livres, depois do trabalho como designer de produto, a Go Small or Stay Home, uma plataforma independente e comunitária que quer ajudar as pessoas a encontrarem os negócios locais existentes na sua zona ao partilhar um diretório com várias informações. Neste momento, estão disponíveis mais de 300 negócios locais.

Entre mercearias, talhos, peixarias, drogarias e padarias organizadas por localidade, há também cafés e restaurantes take away e até lojas de animais presentes na lista. Em cada negócio apresentado são indicadas informações como a morada e preços, bem como se existe ou não a opção de entrega ao domicílio.

Mudei recentemente de zona em Lisboa e também venho de uma família de comerciantes. Percebi muito rápido o impacto que isto ia ter para os pequenos negócios que tiverem de fechar portas neste momento, muitas vezes pequenos negócios que já estavam a lutar para se diferenciarem face à oferta das grandes superfícies”, destacou Ana ao Observador.

Cada negócio é introduzido e verificado manualmente pela designer, de forma independente e com base nas sugestões que a comunidade vai dando. “Isto é tudo feito por uma pessoa em casa, à volta de uma folha de cálculo colocada num domínio. Não vamos fazer nenhuma app com isto, nem dinheiro. O único objetivo é partilhar e comunicar”, assegura.

Vendus Go: uma micro-loja virtual para os negócios

Com o objetivo de ajudar qualquer tipo de negócio a não ficar completamente parado em tempo de quarentena, a Nexperience decidiu permitir que qualquer negócio possa, de forma gratuita, criar uma micro loja online para receber encomendas. Para já, os projetos que estiverem interessados em ter um domínio na Vendus Go podem preencher um formulário, sendo que a ideia vai estar em funcionamento a partir de quarta-feira, 25 de março.

“O projeto surgiu inicialmente com o intuito de ajudar os nossos clientes, mas é nestas alturas que todas as pessoas devem fazer mais para ajudar a sua comunidade. Por isso, quisemos proporcionar a que qualquer pessoa possa criar uma micro loja online de forma a permitir encomendas online, onde poderá receber pedidos de todos as partes do país e entregar os produtos à porta das pessoas”, conta ao Observador Fábio Freitas, do departamento de marketing da Nexperience.

Nesta plataforma, os negócios recebem uma comunicação para criarem uma conta (gratuita), têm acesso a um backoffice e introduzem os produtos que querem vender. Desde restaurantes a lojas de roupa, “todo o pequeno negócio que esteja limitado pode ter uma porta aberta”, sendo que, atualmente, o pagamento é feito de forma física à porta, mas o objetivo futuro é que haja também pagamento online para que os clientes não tenham de sair de casa.

Estes negócios representam famílias, muito mais do que o negócio em si. O objetivo é minimizar ao máximo o impacto desta altura e permitir à população continuar a adquirir os bens. Temos clientes que se viram privados de ter a porta aberta e representam agregados familiares.

A equipa de nove pessoas está a trabalhar em “contra-relógio” para colocar o projeto ativo e pretende que a iniciativa não esteja apenas disponível durante o período de quarentena.

Quietinho Em Casa: os pequenos comerciantes numa única plataforma

O plataforma Quietinho em Casa reúne serviços online com entrega ao domicílio e tem como objetivo “ajudar os pequenos comerciantes a manterem os seus negócios operacionais”, refere o projeto em comunicado. Para já, o distrito de Braga foi escolhido como piloto, onde os pequenos negócios da região podem divulgar o seu projeto ao preencher um formulário na página e os utilizadores podem ir ao seu encontro.

“Na grande maioria destes negócios, a compra não é feita online, mas sim através de um contacto eletrónico, para o qual o utilizador deve enviar um e-mail a comunicar a encomenda que pretende para que os comerciantes possam posteriormente assegurar as entregas”, refere a nota enviada.

Bárbara Campelo, responsável pela comunicação do projeto Quietinho Em Casa, refere que “perante o sucesso da plataforma em tão pouco tempo” decidiram destacar “por distrito, todos os pequenos negócios que precisam de ajuda”. “Para já, ainda só temos disponíveis negócios na região de Braga, mas o objetivo é que rapidamente tenhamos incluído todos os distritos do país”, acrescenta a responsável.

Há também a garantia de que o processo de escolha e seleção dos pequenos negócios locais a incluir será “ainda mais criteriosa”, de forma a evitar situações de fraude e burla, “que podem ocorrer num momento em que estes serviços estão a tornar-se cada vez mais parte do dia a dia de todas as pessoas”.