– Olá!
– Olá Fabio, como estás?
– Muito bem amigo, agora que te vejo! Que bom ver-te, que tal?
– Tudo bem, como estás?
– Aqui são duas da manhã. Estou bem, em casa, faltam cinco dias para acabar aqui a quarentena na China (…)

Esta podia ser apenas mais uma conversa entre dois amigos (que são). Mas esta acabou por ser mais do que uma conversa entre dois amigos. De um lado, Iker Casillas, guarda-redes internacional do FC Porto que não mais voltou aos relvados em termos oficiais depois de ter sofrido um enfarte num treino em maio do ano passado e que está agora na corrida à presidência da Real Federação Espanhola de Futebol (embora não tenha anunciado de forma “oficial” a retirada). Do outro, Fabio Cannavaro, ex-central de Nápoles, Inter, Juventus ou Real Madrid que foi considerado o melhor jogador do mundo em 2006 e que treina hoje os chineses do Guangzhou Evergrande.

Duas referências mundiais no futebol dos dois países mais afetados na Europa pela pandemia global da Covid-19, um no Velho Continente onde o novo coronavírus tem crescido de forma galopante, outro na China onde tudo começou e que está agora a dar os primeiros passos para a normalidade. Uma conversa onde cada um deu a sua opinião sobre o tema e partilhou também a realidade atual que se vive nos dois continentes.

“Aqui na China as coisas estão muito melhores do que antes. Aqui o problema está controlado, a única coisa que fazem é colocar de quarentena durante duas semanas as pessoas que chegam de outros países. É uma regra que está a ser controlado, o problema está na Europa porque as pessoas não perceberam ainda que têm de ficar em casa… Sinto-me mal, vejo as pessoas a continuarem na rua… O problema em Itália são os hospitais, já se montam hospitais na rua porque chegam demasiadas pessoas e não há camas para todos depois e há ainda outro problema é a falta de máscaras e outros materiais para os médicos”, começou por dizer Cannavaro, antes de voltar a falar na campanha que está a ser feita entre jogadores campeões do mundo de futebol para recolher donativos que possam ajudar quem mais precisa (e que nunca serão demais). “Tiveram a hipótese de fechar os países, fechar as cidades e não fizeram logo isso…”, lamentou o antigo central transalpino.

“Agora não podemos fazer nada a não ser olhar em frente, ficar em casa. Em Espanha e em Itália as coisas estão mal, temos mesmo de ficar em casa e apoiar as pessoas todas ligadas à parte dos cuidados de saúde”, atirou Iker Casillas. “A força que temos de ter é mesmo a de não sair de casa. Porque se calhar pensas que podes ir ver só os teus pais para estares com eles mas sem saberes podes estar a fazer-lhes mal. Quanto mais contacto, pior. A todo o mundo, temos de pedir para ficar em casa”, acrescentou Cannavaro.

“Tive o azar de viver este vírus em China. Quando começou a aparecer, voltei oito dias na China, na minha cidade. Saí duas vezes e parecia um filme, sabes? Uma cidade de 30 milhões que estava vazia. Depois, em todos os lugares onde passava tinham um termómetro que te apontavam a dizer ‘Gripe, gripe’. No banco, antes de entrar na cidade desportiva, antes de entrar em minha casa… Era a única maneira para tentar controlar o vírus. Nessa altura, ligavam-me de Itália a perguntar como estava na China mas ninguém imaginava que um mês depois as coisas estariam assim. Ninguém está a salvo, temos de ter cuidado. A minha mulher e os meus filhos estão em Itália e sabem que não podem sair de casa. É assim em todo o lado”, contou o italiano.

“Há muita gente a morrer, têm de perceber isso. E um deles foi o presidente Sanz, um grande adepto do Real e aproveito para enviar um abraço à família, apesar de não ter tido a sorte de o ter como presidente”, prosseguiu, recordando Lorenzo Sanz, o antigo líder do conjunto espanhol onde Casillas e Cannavaro foram companheiros de equipa entre 2006 e 2009 e que morreu no sábado vítima da Covid-19. “Sim, sim… É como dizes Fabio, nem sempre é fácil de passar o tempo em casa mas temos de ficar, temos de ficar”, respondeu o espanhol.

“Aos nosso avós pediam para ir para a guerra, a nós pedem que fiquemos no sofá, com Netflix, com Instagram… É um esforço que temos de fazer, que toda a gente do mundo tem de fazer porque é a única maneira de não difundir o vírus”, disse depois o italiano, antes de perguntar ao guarda-redes como estava. “Bem, estamos bem. Com força, com energia, com vontade de viver. Vamos ver se conseguimos passar este pequeno revés que está a afetar toda a gente e se saímos mais fortes de tudo isto, para cada um fazer a sua vida e ajudarmo-nos a todos”, respondeu Iker Casillas, num final de conversa já mais descontraído onde Cannavaro brincou dizendo que ensinou o guarda-redes a ser campeão mundial (a Itália ganhou em 2006, a Espanha venceu em 2010).