O número de vítimas mortais devido a coronavírus em Portugal gerou esta terça-feira uma enorme confusão. Os dados adiantados pouco depois das 13h00 pelo secretário de Estado da Saúde em conferência de imprensa não batiam certo com os do boletim da Direção-Geral de Saúde (DGS) — que foi publicado a seguir às declarações de António Sales. O governante falou em 29 mortes, mas o registo de dados da autoridade de Saúde sobre a crise epidemiológica somava 30. Instalaram-se várias dúvidas, que demoraram cerca de três horas a ser esclarecidas. E o número de mortes acabou em 33.

Questionada a DGS, a resposta surgiu em forma de novo comunicado, 3 horas e 11 minutos depois — às 16h24, a Direção Geral de Saúde avançava com uma correção do primeiro boletim, atualizando os dados com mais 3 mortes. A DGS explicou que estes óbitos só foram conhecidos após a divulgação do registo de dados das 13h00 e, por outro lado, que a vítima mortal que antes tinha localizado nos Açores (o primeiro caso na região autónoma), afinal não tinha sido provocada por Covid-19:

“Relativamente ao Boletim epidemiológico da Covid-19, que foi publicado há pouco no site da DGS, cumpre-nos esclarecer o seguinte: registaram-se ao todo 33 óbitos até às 00h00 de 23 de março, e não 30 como foi publicado. Passamos a explicar esta alteração: o óbito registado na Região Autónoma dos Açores, caso suspeito para Covid-19, veio infirmado, ou seja, a DGS  teve conhecimento após fecho do boletim de que o resultado é negativo para Covid-19. Os três óbitos que reportamos aqui, em acréscimo ao que foi referido, explicam-se com a existência de resultados que foram conhecidos após publicação do boletim”, lê-se no e-mail enviado.

Na verdade, face ao boletim anterior, houve mais quatro mortes no continente e menos uma morte nos Açores — daí o saldo de mais três mortes. As 29 mortes iniciais avançadas pelo secretário de Estado, que depois tinham passado a ser 30 no boletim, acabaram em 33 no boletim retificado.

Mas as retificações deste segundo boletim não se ficavam por aí. Numa análise mais detalhada, é possível verificar que há muitas outras mudanças sobre as quais a DGS não chama a atenção e que nada têm que ver com o caso mal contabilizado nos Açores, nem com os novos óbitos entretanto registados:

  • Há mortes que antes estavam contabilizadas na região centro que passaram para a região norte;
  • outras mortes que estavam em determinadas faixas etárias que mudaram para outras;
  • e até a Madeira passou a ter mais um infetado, sem que isso alterasse o número de contagiados total.

O primeiro relatório DGS emitido esta terça-feira continha novos dados face aos anteriores documentos, como a caracterização demográfica dos casos confirmados por idades e por concelhos e também a idade das vítimas mortais por faixas etárias. E também nestes dados houve alterações entre os dois relatórios, mesmo que a DGS avise que a informação reportada na caracterização demográfica é apenas “relativa a 54% dos casos confirmados”.

Afinal, o que mudou?

O que a DGS anunciou no segundo relatório das 16h24

A autoridade de saúde começou por retirar um morto à Região Autónoma dos Açores. Porquê? Porque a morte não foi, afinal, causada pela pandemia, uma vez que o caso, “suspeito para Covid-19, veio infirmado”. Ou seja, “a DGS teve conhecimento após fecho do boletim de que o resultado é negativo para Covid-19”.

Por outro lado, a DGS explicou ainda que em relação aos novos casos mortais a alteração se deve à “existência de resultados que foram conhecidos após publicação do boletim”, às 13h24.

O que mudou e não foi sublinhado no comunicado emitido

A nível regional há vários acrescentos e retificações. Em Lisboa, onde no primeiro boletim não havia registo de aumento de mortes em relação a ontem (mantinham-se as 8), no segundo já surgiam 12 vítimas mortais (um acréscimo de 4 mortes).

Na região Norte, as mortes subiram de 9 para 14 do primeiro boletim (onde se mantinham as mesmas de ontem) para o segundo;

Por outro lado, desceram em igual número (cinco) na região Centro de 11 para 6, o que pode indiciar que houve apenas uma transferência de região na contabilização destes óbitos.

Estava ainda em falta mais um caso de infeção na Madeira, passando de 11 para 12 no boletim retificado, mas sem que isso aumente o número de casos totais de contagiados. Agora, as contas de todas as regiões já batem certo com os totais nacionais — 2362 casos de infeção.

A DGS retifica e acrescenta ainda a informação sobre a idade e o género de quem morreu. Afinal, não houve mortes entre os 40 e os 49 anos (na primeira versão havia um óbito registado de um homem nesta faixa etária).

Mas houve um aumento de mortes entre os 50 e os 59, passando a registar o óbito de 2 homens e 1 mulher (mais uma mulher do que no primeiro boletim).

Entre os 60 e os 69 anos, aparecem registadas mortes de quatro homens  (não existia qualquer caso) e nenhuma mulher (a versão anterior registava uma).

Dos 70 aos 79 anos, as vítimas mortais são agora 5 homens e nenhuma mulher (a versão anterior referia 9 homens e 5 mulheres).

E acima dos 80 anos há 12 homens e 9 mulheres (mais 6 mortes do sexo masculino e mais 4 do feminino do que na versão anterior ).

Na caraterização etária dos casos confirmados também foram feitas retificações, quer no grupo abaixo dos 10 anos (menos casos de 4 rapazes e mais 5 de raparigas na versão retificada) e mais um de um homem acima de 70 anos.

A DGS foi contactada pelo Observador para explicar os motivos para tantas alterações, mas ainda não respondeu até ao momento.