Três mil milhões de pessoas em todo o mundo, a maioria na África Subsaariana, continuam sem acesso a água potável e sabão para lavar as mãos, a barreira mais eficaz contra a Covid-19, segundo as Nações Unidas. A presidente da parceria da ONU “Água e Saneamento para Todos”, Catarina de Albuquerque, considera que a Covid-19 só será estancada quando todos tiverem acesso a água.

De acordo com estimativas das Nações Unidas (ONU), duas em cada cinco pessoas em todo o mundo, ou seja, 3 mil milhões de pessoas, não têm água potável ou sabão em casa para lavar as mãos, uma medida considerada “crítica” na prevenção de várias doenças, incluindo a propagação do novo coronavírus. Destas, 1,6 mil milhões têm acesso limitado a água e sabão e 1,4 mil milhões não têm simplesmente acesso.

As estatísticas não são novas, mas a necessidade de conter a pandemia de Covid-19, veio sublinhar a importância do acesso universal a água potável e saneamento, especialmente em África, onde morrem em média mais de 100 pessoas por hora devido a doenças associadas ao consumo de água contaminada, falta de higiene ou de instalações sanitárias.

África está “a duas ou três semanas” de uma situação semelhante à da Itália ou Espanha

Os mesmos dados apontam que 900 milhões de crianças não têm água ou sabão nas escolas, ou seja, 5 em cada 10 escolas não disponibilizam sabão e água aos alunos. Por outro lado, 40% das infraestruturas de saúde não estão equipadas para permitir a lavagem frequente nem têm desinfetante para as mãos.

Nos países sem desenvolvimento, quase três quartos das pessoas não têm onde lavar as mãos e na África Ocidental um terço da população vivem sem instalações sanitárias em casa. Mesmo nos países com melhor cobertura, uma em cada 4 pessoas continua sem acesso a água e saneamento.

Dois terços da população da África Subsaariana dependem ainda de águas de superfície, ou seja, de lagos e rios, frequentemente poluída e muitas vezes contaminada.

Globalmente, 1,8 mil milhões de pessoas usam uma fonte de água contaminada com fezes, aumentando o risco de epidemias de cólera, disenteria, febre tifoide ou poliomielite.

Perante este cenário e com a pandemia de Covid-19 a progredir em África, várias organizações não-governamentais, no terreno, estão a apelar aos governos para que aproveitem esta crise para abordar este problema. O acesso universal e equitativo a água potável, saneamento e condições de higiene até 2030 é um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas.

Pandemia só estancará com lavagem das mãos

Em declarações à agência Lusa, a presidente da parceria da ONU “Água e Saneamento para Todos” e jurista portuguesa, Catarina Albuquerque, sublinhou a importância das medidas preventivas contra a infeção pelo novo coronavírus, mas recordou que nem todos têm acesso ao mais essencial dos bens: a água.

Catarina Albuquerque, que foi a primeira relatora especial das Nações Unidas para a defesa do direito humano à água potável e ao saneamento, referia-se, nomeadamente, aos mais vulneráveis, “os mais pobres, a viver em bairros informais, migrantes, sem-abrigo”.

Resumindo, “a todos a quem temos fechado os olhos como sociedade, fingindo que estas pessoas não existem”.

Estas pessoas às quais temos negado atenção, são estas a quem temos de prestar atenção, nem que seja por egoísmo. Se queremos estancar o contágio temos de assegurar que estas pessoas têm acesso a água para poder lavar as mãos”, frisou.

A este propósito, recordou que esta prática tão defendida como meio de prevenção pelo novo coronavírus – lavar as mãos – é “um luxo” para 40% da população mundial, ou seja, 3.000 milhões de pessoas.

E são vários os fatores de pobreza que dificultam o acesso a medidas de prevenção, seja a lavagem das mãos, como a busca da água para as mais básicas das tarefas.

Há populações que esperam horas numa fila para obterem água de uma fonte, juntas umas das outras. Como é que poderão cumprir as regras do distanciamento?”, questionou.

Regras essas que, conforme acrescentou, também não existem em casas onde vivem dez, quinze pessoas.

Também ao nível da resposta médica, Catarina Albuquerque recordou que um em cada seis hospitais e centros de saúde também não tem acesso a higiene básica para poder lavar as mãos.

Nestas condições, pergunta: “Como podemos parar o vírus?”. E recordou que estas questões se passam a nível mundial, mas também a nível nacional, onde ainda existem comunidades em habitações sem água canalizada, sem acesso a água potável e muito menos água e sabão.

Por outro lado, defendeu uma gestão que leve em conta o maior consumo de água a que se assiste nos dias de hoje devido a uma maior limpeza com vista à prevenção da infeção.

As pessoas lavam mais as mãos, limpam mais as casas e consomem mais água. A questão não se coloca em Portugal, mas em países com o abastecimento de água limitado, isso é um problema”, disse.

Também proporcionar um maior acesso da água às populações sem equacionar o tratamento dos esgotos é promover a existência de esgotos a céu aberto e das consequentes doenças, referiu.

Para Catarina Albuquerque, a atual pandemia, que matou mais de 46 mil pessoas no mundo inteiro desde que a doença surgiu em dezembro na China, veio mostrar que, sem garantirmos o acesso a estes direitos humanos aos mais vulneráveis, não vamos conseguir, enquanto sociedade, escapar à Covid-19, porque é no elo mais fraco que a sociedade quebra.

Em Portugal, foram registadas 187 mortes associadas à Covid-19 e 8.251 infetados (mais 808), segundo o boletim epidemiológico divulgado na quarta-feira pela Direção-Geral da Saúde (DGS).