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Enquanto surgem sinais de alívio de alguns países nas medidas de restrição da liberdade de circulação e do isolamento forçado, a Suécia parece estar pronta a fazer marcha-atrás na abordagem light à Covid-19.

Esta terça-feira, os partidos chegaram a um acordo para dar poderes de emergência ao Governo para fechar lojas, restaurantes e escolas. O acordo deverá ser aprovado no Parlamento, mas o Governo não tem planos imediatos para usar os novos poderes, mantendo para já a política liberal que deu aos suecos a liberdade para tomarem as suas medidas de contenção, não impedindo as pessoas de fazer vida social na rua.

A “experiência gigantesca” da Suécia, a janela aberta de uma Europa fechada: escolas a funcionar, fronteiras abertas e esplanadas cheias

Além das lojas, restaurantes e bares abertos, o país permite eventos com até 50 pessoas e apenas o ensino secundário fechou, mas deverá reabrir para os exames. Os suecos não estão impedidos de viajar. São convidados a manter a distância social, a ficar em casa se se sentirem doentes, a trabalhar em casa se for viável e a evitar pessoas mais velhas se for possível.

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É certo que os números da propagação da Covid-19 na Suécia não são dos mais alarmantes na Europa, o país tem conseguido controlar o contágio — esta terça-feira estavam confirmados 7693 casos — mas há dois dados que saltam à vista. O número de mortos é muito elevado — 591 —  acima dos registados em Portugal que tem mais de 12 mil infetados, numa população na casa dos dez milhões de habitantes. Quando cruzamos a mortalidade por milhão de habitante, a Suécia volta a ficar mal no retrato — 56 contra 34 em Portugal. Uma das causas para uma mortalidade tão alta é o relativo descontrolo do contágio em lares de terceira idade, cerca de um terço destas instituições em Estocolmo terá casos reportados.

A realidade da pandemia na Suécia contrasta com a fotografia dos outros países escandinavos onde a progressão do vírus está mais controlada e a mortalidade é muito mais baixa. Há ainda outro dado que merece destaque.

O número de testes por milhão de habitante — 5416 segundo dados do Worldometer — não é dos mais altos da Europa, é menos de metade do registado em Portugal e está bem abaixo do verificado na Noruega e na Dinamarca e até da Finlândia. Ora países como a Noruega e a Dinamarca já estão a preparar um alívio das restrições. E na Suécia a discussão vai no sentido contrário, mas para já é só discussão.

A ministra da Saúde sueca afirmou que o Governo não tem planos concretos para usar os novos poderes que serão aplicáveis entre 18 de abril e 30 de junho. É uma iniciativa preventiva que dá a margem legal ao Executivo para atuar rapidamente na aprovação de medidas de emergência, sem ter de passar pelo Parlamento.

Para já, os especialistas em saúde pública e epidemiologia que têm orientado a abordagem ao vírus, parecem confortáveis com os resultados. Anders Tegnell, um especialista do Estado da área de saúde que tem sido uma figura central na política sueca — apontou para a queda dos novos casos confirmados nos últimos dias, que considera ser um bom sinal. Mas ao contrário da Noruega, onde as autoridades admitem que o surto está controlado, Tegnell reconhece que ainda não é possível dizer se o pico já foi atingido.

Quem está no terreno a lutar contra o novo coronavírus está mais apreensivo:

“Os últimos dias têm sido muito deprimentes. Agora os doentes de Covid-19 estão a chegar até nós em força e estão mesmo muito doentes. Metade das pessoas que estamos a tratar têm menos de 50 anos e nem todos tinham patologias prévias (corrigido)”.

Este post foi partilhado no Facebook, e citado pelo jornal Irish Time, por uma enfermeira de Uppsala, uma das principais cidades suecas.

Há vozes que alertam para o risco de a Suécia estar a caminho de um “desastre”, seguindo a trajetória do Reino Unido que começou por evitar medidas muito pesadas, para depois emendar a mão, mas com um atraso de semanas que coloca o país na rota dos mais atingidos pela Covid-19 e onde se antecipa um número de mortos superior ao de Itália e Espanha.