O presidente do Conselho Europeu de Investigação, o órgão científico de topo da União Europeia (UE), anunciou a sua demissão do cargo esta terça-feira, dizendo-se “extremamente desiludido com a resposta europeia à Covid-19”. Mauro Ferrari estava no cargo há apenas três meses, tendo tomado posse em janeiro de 2020.

Numa carta publicada na íntegra no jornal Financial Times, Ferrari aproveita para fazer críticas aos organismos europeus e aos Estados-membros. “Perdi a fé no próprio sistema”, confessa o cientista.

Estou extremamente desiludido com a resposta europeia à Covid-19, devido à completa ausência de coordenação de políticas de saúde entre os Estados-membros, à oposição recorrente a iniciativas de apoio financeiro coesas, aos subtis fechos unilaterais de fronteiras e à escala marginal de iniciativas científicas sinérgicas”, escreve o cientista.

Em causa está uma proposta que fez para o combate à pandemia de Covid-19 que diz ter sido rejeitada por questões burocráticas. “A minha desilusão foi parcialmente aliviada quando a presidente [da Comissão, Ursula] von der Leyen me pediu pessoalmente a minha avaliação sobre como poderíamos lidar com a pandemia”, acrescenta, para logo depois rematar que “o simples facto de eu ter trabalhado diretamente com ela criou uma tempestade política interna”.

Ferrari não poupa nas palavras e acusa outros atores europeus de terem “revelado o seu verdadeiro caráter” neste tempo de emergência. “Agora é altura para eu regressar às linhas da frente do combate à Covid-19, com recursos a sério e com responsabilidades, longe dos gabinetes de Bruxelas, onde as minhas capacidades políticas são claramente inadequadas”, afirma.

Em reação às críticas do cientista, o eurodeputado alemão Chsritian Ehler, da família política do Partido Popular Europeu (PPE, a que pertencem o PSD e o CDS) — que é também coordenador do comité de investigação do Parlamento Europeu — declarou que as propostas de Ferrari “foram vistas como uma operação de relações públicas ‘para inglês ver’ na crise do coronavírus”. “Era uma contradição à base legal do Conselho Europeu de Investigação, que já contribui de várias formas para o combate à Covid-19”, acrescentou o eurodeputado.

De acordo com o Politico, o Conselho Europeu de Investigação teve um orçamento anual acima dos dois mil milhões de euros em 2019. Parte desse dinheiro é distribuído por cientistas promissores, para que possam prosseguir com as suas investigações.

A Comissão Europeia já confirmou a demissão de Ferrari, sem fazer comentários.